Coleção pessoal de AntonioPrates

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⁠Quando um pobre tem três tostões, começa a imitar quem tem dez tostões, para mostrar que despreza quem tem um tostão.

António Prates

Passamos mais tempo a condenar os defeitos dos nossos amigos do que a elogiar as suas virtudes.

António Prates
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⁠Os elogios mais sinceros são os que recebemos de pessoas que não pretendem tirar qualquer proveito de nós.

António Prates
Tags: elogios sinceros

⁠Confiamos na seriedade periclitante de todos, acreditamos na imparcialidade dos serviços públicos, na integridade ética dos bons costumes, como se de um país de primeiro mundo se tratasse, mas não, e tenho muitas dúvidas que algum dia possamos praticar o comportamento de um país de primeiro mundo, que, sinceramente, nem sei se existe. Em grande parte, tudo se resume a uma educação gerida pelos 'conhecimentos', pela cumplicidade das 'cunhas', pelos brandos costumes dos 'manhosos' e por uma imoralidade pública que me chega a dar pena... Confesso! Manhosos profissionais, não lhes posso chamar outra coisa. Multiplicam-se os lambe-botas, sociabiliza-se o cultivo dos arranjinhos a larga escala. Grandes almoços, fartos jantares, encadernados pelo preço dos favores de todos os chicos-espertos, uns mais doutores do que outros, uns mais engravatados do que outros, mas todos da mesma laia, neste triste espectáculo de um polvo sem volta a dar. Nesta mentalidade predominante, predomina o egoísmo e o descaradamente perverso. Salve-se quem puder. Quem tem cunhas e conhecimentos vai-se desenrascando, num país gerido pela politica do desenrasca; quem não tem cunhas, nem conhecimentos, confia na eficiência dos serviços que, supostamente, deviam ser de todos, mas não são... Pobre ilusão... Confesso ainda! Educam-se as crianças com preceitos manhosos desde tenra idade. É assim que deve ser, é assim que tem de ser, depois de quase todas as crianças terem sido felizes até aos seis anos de idade. E nesta forma eficiente de adultério humano, todas as crianças de hoje são mais uns manhosos em potência nas próximas décadas, num ciclo viciado que me parece não ter fim à vista. Só conheço até Setúbal, mas sem querer já estou em Lisboa.

António Prates
Tags: antónio prates

⁠Os enganos dos cozinheiros cobrem-se com salsa, os dos arquitectos com flores, e os das pessoas em geral com hipocrisia.

António Prates
Tags: enganos cozinheiros

⁠Como o prometido é devido a as promessas são para cumprir, a minha memória transportou-me até esses singulares momentos, em que deste preciso lugar testemunhei um pouco da heróica e acidentada governação de El Rei Dom Fernando, o formoso. Este monarca teve a coragem de proclamar e fazer cumprir a “Lei das Sesmarias” em mil trezentos e setenta e cinco. Lei essa que se tornou importantíssima para o desenvolvimento do Além-Tejo-e-Odiana.
Recordo um belo dia do mês de Abril, do já distante ano de mil trezentos e oitenta e três, quando me desloquei às hortas viçosas de Rio de Moinhos, de encontrar junto à igreja de São Tiago o inevitável Professor José Hermano Saraiva, que andava por ali a dignificar a sepultura do seu amigo Dom Gonçalo, outrora um bom eremita naquele ermo e recôndito local.
Prestei as devidas reverências ao meu Mestre, almoçámos uma sopa de beldroegas condimentada com queijo velho e ovos escalfados, e pouco tempo depois, desandei pela estrada da Lozera na companhia da sapiência e das palavras sensatas que o Professor me ia proferindo com emoção e em alta voz… O Professor disseram-me durante o repasto que precisava de apressar um pouco o passo, para nos encontrarmos ao fim da tarde na Foupana, com os nossos amigos Álvaro Gonçalves e Fernão Lopes, que nos esperavam, para mais uma grande e vigorosa batalha de conversa… Enquanto o colorido do campo nos fazia ver as maravilhas do terreno e o aroma da Primavera nos facultava de bandeja as mais belas fragrâncias da vida, o meu companheiro e amigo elucidou-me das inúmeras intrigas na Corte: referiu a morte de Henrique II de Castela, quatro anos antes; explicou-mo ao pormenor o enorme fracasso da frota portuguesa, nas águas quentes do Algarve, em mil trezentos e oitenta e um; e, quando o meu prelector estava precisamente a relatar a obsessão do nosso “formoso” Rei pela coroa de Castela, olhou em frente, e com os olhos absortos no horizonte, que se estendia aos até aos pés do Universo, revelou-me que no dia seguinte partia rumo a Badajoz, para assistir ao casamento de Dona Beatriz (de apenas doze anos), com Dom João I, de Castela - fruto de um acordo efectuado e assinado em Salvaterra de Magos. Confessando-me por fim o bom homem, que Dom Fernando estava doente, e que o nosso Rei tencionava pernoitar em Borba, aquando do seu regresso a Lisboa… Percorridas umas quatro ou cinco mil jardas, o Mestre parecia ter conquistado a simpatia da fauna e maravilhado o sorriso explanado em todos os rostos da flor com suas caudalosas palavras, repletas de frescas novidades e de grandes acontecimentos… O chão da Carrascoza já se estendia em nosso redor, quando num abrir e fechar de olhos, fomos surpreendidos e interpelados por dois enormes cavaleiros ingleses (enviados pelo Duque de Lancaster, para nos protegerem dos Castelhanos), que nos tentaram prontamente saquear e amedrontar…
Naquele longínquo dia de Abril de 1383, quando a tarde sentia a pulsação dos minutos e o sol recebia a existência de todas as horas com a mesma dignidade: o delicado momento transformou a claridade do dia nas nuvens mais escuras que até então os meus olhos puderam ver e contemplar… A tez do sumptuoso colorido, vindo da singular beleza das flores e do manto verdejante que emanava de todas as ervas existentes, sucumbiu perante a gravidade da melindrosa situação, que nos desafiava aos olhos de dois insolentes cavaleiros desprovidos da nobreza praticada e recomendada por Dom Quixote de La Mancha ou por Dom Geraldo Sem Pavor … Além do assombroso silêncio, apenas a suave brisa, parecia ser a única testemunha de todas as angústias da desavença… E a vida de quatro homens, que o acaso e o destino quis confrontar em duelo, entristeceu para sempre as abastadas lembranças dos anais da Carrascoza.
Os olhos azulados dos bretões fitavam-nos como dois lobos famintos, vindos dos corgos da Serra D`Ossa… Olhei de soslaio a apoquentação do Professor, e vi na sua face a expressão de um homem que enfrenta montanhas, enlevado pela aura de ter a razão nas duas mãos e a seu lado… Um dos dois agigantados cavaleiros apeou dos dois metros do seu corpulento equídeo, empunhando uma excalibur de pelo menos um metro e setenta, e em cada um dos seus movimentos rangia assombrosamente todas as latas que lhe aperreavam o corpo…. Seguindo os conselhos da minha grande experiência em campos de batalha, fixei o inglês contíguo às proximidades da minha guarda, e ripei prontamente o naco de aço que naquele preciso momento defendia a honra da minha dignidade e a continuidade da minha própria vida… Recordo que o tempo parou…
Quando o silêncio descansou e o tempo voltou ao seu estado normal, a minha natural preocupação chamou pelo Professor; olhei à minha direita e vislumbrei o outro bravo bretão encostado entre os olhos flamejantes do meu fiel amigo e as adelgaçadas silvas, que aos poucos lhe aguçavam as costas e o espírito… O Professor José Hermano Saraiva propôs uma inteligente concórdia aos impertinentes paladinos e, finalmente, um casal de perdizes felicitou a vitória da paz, com um voo repentino e apaixonado, como quem aclama a capitulação das disposições primárias e irracionais, enquanto os dois bravos cavaleiros concordaram caritativamente, e se sumiram na direcção da Cova dos Ourives...
Prosseguimos em silêncio pelo ligeiro declive, que nos levou até à Estalagem da Foupana, onde nos esperava um merecido descanso e a cordial companhia nos nossos amigos, Álvaro Gonçalves e Fernão Lopes… Lavámos a alma e as tormentas numa nascente cristalina que provinha de dentro de uma moita de densos carrascos, e com a tarde a avançar ao ritmo dos nossos passos, continuámos pelos campos abertos dos Arcos, entre a verdura das searas, o céu matizado de azul e cinzento, e o constante aroma dos poejos, até à majestosa estalagem da Foupana.
O cheiro do pão quente, vindo de um forno situado à entrada do casario, contrastava com o vinho armazenado no estômago e na cabeça de quatro campaniços, que se ofendiam e desafiavam sucessivamente para escusados duelos. Mas a argúcia e a destreza do Professor José Hermano Saraiva, findaram as desavenças e, finalmente lá passámos as imponentes ombreiras de uma porta que nos convidou a entrar e a descontrair dos fatídicos momentos daquela tarde de Abril de 1383.
O Professor galgou solenemente o portado e sussurrou-me baixinho – “Vais conhecer a menina Natividade!”
Penetrámos descontraidamente pelas entranhas da soberba estalagem: prosseguindo entre as seis mesas de xisto vi na primeira mesa, situada no nosso lado direito, um homem envelhecido que tragava tranquilamente uma côdea de pão e sorvia aos poucos o vinho tinto que ainda restava dentro de uma malga rústica e enegrecida, olhou-nos cordialmente e cumprimentou-nos com sapiência; olhei o lado oposto, e reparei que nessa mesa estava uma mulher de meia-idade absorta e um homem meio adormecido, que parecia rezar em honra de um cesto atestado de pardelhas; as mesas que compunham o centro do salão da estalagem aguardavam pelos clientes em silêncio e vazias; dirigimo-nos ao encontro dos dois homens, que há algum tempo nos esperavam sorridentemente e em pé, na mesa mais recatada e do canto… Recebidos e doados os cordiais cumprimentos, o Professor apressou-se a relatar a delicada escaramuça com os cavaleiros bretões, nas fatídicas terras da Carrascoza… Mas, entretanto, a entrada do dono da estalagem avivou o local onde se encontrava o pescador das pardelhas, e assim se confirmou o nosso apetite e a vontade de molhar o momento com a primeira malga de vinho da casa… Enquanto os meus olhos luminosos tentavam descobrir a presença da enunciada Natividade, o Professor narrava as intrigas da Corte para o amigo Fernão Lopes, aflorando as obras do Castelo de Lisboa, e as intrigas amorosas da rainha Dona Leonor Teles com um tal de João Fernandes Andeiro, que era um fidalgo da Corunha, que estava hospedado em Estremoz. Do outro lado da mesa, o borbense Álvaro Gonçalves confessava-se aliviado pela ausência do Comendador D`Aviz, Vasco Porcalho, que tinha partido uns dias antes para casa do Alcaide-mor de Olivença, de quem era fiel amigo e partidário,conquanto, notei alguma preocupação nos olhos do fronteiro que, satisfatoriamente, anunciou a entrada de mais um convidado, o alcaide de Alandroal, Pêro Rodrigues.
Entre a copiosa algazarra de meia dúzia de árabes, que filosofavam e discutiam os segredos de uma azenha, e a abundante conversa de outros tantos frades, que vinham dispostos a devorar todo o feijão com labaças da estalagem, o alcaide de Alandroal juntou-se a nós e às apetecíveis pardelhas, que nos fitavam com o cheiro mais apetecível dos últimos tempos…
Entrementes, uma voz bradou da entrada – Pão quentinho!!!
O Professor aliviou – É a Natividade!
Respondeu Álvaro Gonçalves, com um largo sorriso – Sim, a Brites!...
Repreendeu o meu Mestre – Cala-te!…

António Prates

⁠Tudo começa no esplendor da minha infância: quando os povos Celtas vagueavam como nómadas pelo local onde vivo, e meu pai, fundou, conjuntamente com outros membros da tribo, uns casebres junto a uma viçosa ribeira, no ano 974 antes do nascimento de Cristo.
Recordo perfeitamente as histórias que o meu pai me contava, sobre alguns dos nossos heróicos antepassados, que ainda hoje jazem numas sepulturas Neolíticas, cavadas na dura pedra, junto aos campos da Lozera, para lá de Cabeço de Machos.
Passados uns bons anos, tivemos como visitantes e como invasores os famosos e célebres Romanos: apareceram com uns trajes esquisitos, em tons luzidios e avermelhados, e apelidaram toda a região de Lusitânia. Lembro que os guerreiros do latim faziam grandes e pomposas festas, por toda a nossa região, e onde a idade já me permitia acompanhar o meu pai até à capital da nossa província, a majestosa e imponente cidade de Mérida Augusta.
Pouco tempo depois chegaram os Visigodos, que eram pessoas mais ligadas ao campo. E, foram esses saudosos visitantes que me ensinaram os primeiros segredos agrícolas.
Devido à influência das guerras e da sede de conquistar terreno, vi chegar um dia um outro povo de tez trigueira mais escura. Povo esse que, uns alcunhavam de Árabes, outros chamavam de Mouros e, havia ainda quem os denominasse por Serracenos. Esses sábios e inteligentes Homens, ensinaram-nos imensos saberes; sobre o aproveitamento das águas, com os seus moinhos e azenhas; o ordenamento agrícola e os seus sistemas de rega; e o aproveitamento do vento, para moer os cereais e transformá-los em farinha, que depois, essa mesma farinha servia para fazer o pão nosso de cada dia.... Por falar em tal, recordo perfeitamente o dia em que vi a sua numeração pela primeira vez e onde reparei prontamente num algarismo esquisito em forma de um círculo, que esse mesmo povo me disse depois tratar-se do número zero.
Após essa época de grandes conversas e de copiosas aventuras, vieram os conquistadores da Portucália que, entre lutas, pestes, amores, e resistência, têm vindo ao longo dos séculos a tornar a minha experiência de vida, nas palavras que terei todo o gosto em partilhar convosco na próxima "Prosa"..
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Depois de chegados os Homens do Condado Portucalense, seguiu-se uma época de consecutivas lutas, contra Castelhanos e Sarracenos, onde tive sempre o cuidado de preservar uma atitude de total transparência. Recordo-me do dia em que as tropas de Dom Afonso II chegaram a estas bandas, e fizeram o acampamento junto à parede da Cerca. Estava um dia solarengo, e a falta de alimentos fez deslocar alguns archeiros para o mato, em busca de caça para saciar a necessidade de alimento que reinava entre as tropas de Sua Majestade.
Esses bravos soldados, tiveram a amabilidade e a gentileza em me convidar a acompanhá-los nessa campanha (devido à longevidade da minha experiência no terreno), e lá partimos com fisgas, afundas, e meia dúzia de arcos municiados com algumas resistentes e bem afiadas flechas de azinho. Seis horas mais tarde, regressámos com caça suficiente para fartar todo o exército e se os temíveis lobos da serra e um astuto e desavergonhado lince (que nos acompanhou sorrateiramente toda a caçada) não nos dificultassem um pouco a missão, vos digo que a caçada era mais avultada em pelo menos mais vinte abetardas e outros quantos leporídeos.
Passadas essas grandes batalhas, a minha fiel memória lembrou o dia em que o Lavrador, Dom Dinis, nos entregou o Foral no já remoto ano de 1302 (MCCCII)... Mas sobre este Histórico acontecimento falarei na minha próxima intercessão...

Vou falar-vos agora do dia em que el Rei Dom Dinis concedeu A Carta de Foral à briosa e altaneira vila de Borba.
Numa das amiúdes passagens pela minha região, El Rei Dom Dinis (o Lavrador), chegou com a aurora, numa manhã celeste e faustosa, acompanhado de quatrocentos guardas da sua Real cavalaria, de duzentos bravos infantes e archeiros, de seu filho, Infante Dom Afonso (o príncipe herdeiro), e de sua esposa, a rainha e santa, Dona Isabel de Aragão.
O povo deu as boas-vindas a Sua Majestade: exultava o momento com churrascos de javali e uns outros alimentos hortícolas, deixados pelos mouros, nas hortas espalhadas pelas viçosas margens da ribeira de Borva e da Alcraviça.
Fazendo uso da minha condição de independente e de personalidade discreta, situei-me numa mesa perpendicular à de El Rei Dom Dinis, e escutei com a atenção que o momento pedia as palavras que Sua Majestade arrazoou e pronunciou, em honra de todos os presentes. Seguiu-se a entrega do prometido manuscrito, entregue ao novo Alcaide, com a promessa de, futuramente, ser construída uma muralha de defesa, para prevenir os frequentes ataques dos Castelhanos e dos Sarracenos.
Enquanto El Rei distribuiu palavras, sorrisos e ordens, a bondosa rainha observou-nos, atentamente, com a sua natural candura e com aquela expressão divina, digna dos seres superiores e exposta na face de quase todos os santos... Murmurando, de quando em quando, palavras imperceptíveis com a mulher do nosso Alcaide. Foi nessa mesma ocasião, que vi pela primeira vez a famosa loiça de porcelana, que saciava a sede e o apetite a todos os convidados da mesa de Sua Alteza Real. Entre as distintas figuras, recordo a presença do Professor José Hermano Saraiva, que passou toda a noite a conversar efusivamente com um comerciante italiano.
Lembro, como se fosse hoje, que passei a tarde e a noite a comer, a beber, a dançar, e a declamar os meus primeiros versos, inspirado pela histórica ocasião e pela respeitável presença de El Rei Dom Dinis, que me escutou atentamente, e a quem tive o prazer de saudar, aquando da minha retirada do grandioso e histórico acontecimento.
Após a grande farra, assisti ao crescimento e à prosperidade da região, até ao ano de 1381 (MCCCLXXXI, quando fui testemunha de alguns acontecimentos importantes no reinado de Dom Fernando (o formoso).
Mas esta é outra história, que um prometo contar mais em pormenor...
Passada a euforia desse grandioso e histórico acontecimento, que culminou com a entrega da Carta de Foro aos habitantes da vila e ao seu reverenciado Alcaide; que era auxiliado frequentemente pelo alcaide-menor (aquando das suas repetidas ausências), e por mais dois alvasis que, por ventura, eram eleitos anualmente pelos homens mais considerados do povo, aos quais todos nós, respeitosamente, chamávamos de “Homens-Bons”.
Essa Carta de Foro, produzida pelos escribas da Corte, em Santarém, tinha como finalidade criar um “Concelho Perfeito”, administrado pelo enunciado Alcaide, que, com a preciosa ajuda dos dois alvasis lá ia gerindo a governação do concelho no aspecto civil, judicial e militar… Essa nova Constituição, aflorou as ideias luminosas dos Homens-Bons, que inventaram e decretaram algumas Leis curiosas… Recordo uma que dizia que, para penalizar os mais indignos e os mais indecentes homens aqui da terra, o preço a pagar por essas diabruras e por essas atrocidades podia variar, se o crime fosse cometido dentro ou fora do Couto… Apenas para concluir este pesado trecho e para não me alongar demasiado nos pormenores da conversa, exemplifico somente uma das Leis mais importantes e curiosas da época - “Por cometer um homicídio, os vilões pagavam, na altura, qualquer coisa como quinhentos soldos de peite, se a desumanidade fosse cometida dentro do Couto, e duzentos soldos de peite se o delito fosse efectuado fora dos limites do Couto.
Discorrida a parte maçuda da História e revividas as Leis dos Homens-Bons, nos anos seguintes, assisti impávido e sereno à heróica governação de Dom Afonso IV (o bravo), que andou por aí a pelejar contra milhares e milhares de cavaleiros, enfrentando paladinos, nobres e ginetes, para as bandas de Albuquerque e de Badajoz…. Por falar em tal, foi nesse mesmo reinado de Dom Afonso IV, que deparei novamente o Professor José Hermano Saraiva, e se a memória não me falha foi exactamente no dia vinte e sete de Maio de mil trezentos e cinquenta e cinco, junto à fonte dos Monchões. Poderei mesmo dizer que foi o início de uma grande cumplicidade, de uma enorme empatia e de uma eviterna amizade…
Chegámos quase ao mesmo tempo às proximidades da fonte, cumprimentámo-nos, recordámos a festa do Foral, e encetámos imediatamente uma conversação sobre o crescimento e a prosperidade da província; debatemos os frequentes conflitos do Rei Dom Afonso IV com o seu irmão bastardo, Afonso Sanches; murmurámos o propósito do filho do ilegítimo, João Afonso, que pretendia invadir a província. Mas, segundo as palavras do Professor, após algumas escaramuças junto à ribeira de Ouguela e uma quantas tantas desordens em Albuquerque, tudo se recompôs… Ainda bem! Parece que estou a ouvir as eloquentes palavras do meu grande amigo, quando disse a província de Entre-o-Tejo-e-Odiana ganhou assaz, com o Tratado de dez de Julho de mil trezentos e quarenta, assinado em Sevilha. Esse acordo, além de nos conceder a ronceira paz com Castela, permitiu a união dos dois Reinos na guerra contra os Mouros… onde é que eu já vi isto? Prosseguindo… Momentos depois, tentei apaziguar o fervor da conversa e o calor que o próprio dia nos concedia, dirigindo-me até às imediações da água da fonte dos Monchões. Convidei seguidamente o Professor a refrescar a garganta num cocho feito da casca de um sobreiro que nos olhava nos olhos, e, enquanto o cocho gotejava a fresquidão da vida para cima de umas margaridas quase secas e murchas, o ilustre Professor voltou à interlocução, e, solenemente, falou-me ainda do terrorífico e trágico acontecimento, ocorrido uns meses antes, que culminou com a morte de Dona Inês de Castro, a quem os coevos e os nobres apelidaram de “Colo de Garça”, encontrando o seu trágico destino nos braços de um amor proibido e indesejado… Passados uns momentos em honra do silêncio e do amor, a pressa do Professor falou mais alto, e depois de atestarmos cordialmente os barris com água fresca, despedimo-nos, e, pela passagem do tempo e pelo pó da estrada, vi partir aquele sábio homem, pensando que talvez lhe calhasse em sorte uma qualquer frente de batalha…
Apesar de todas as situações romanescas, recordo muito bem os dez anos em que Dom Pedro I tomou conta do Reino… De como ele próprio aplicava a justiça; das famosas Cortes de Elvas, onde Dom Pedro prometeu respeito pelos direitos municipais e eclesiásticos.
Seguidamente, com a subida Dom Fernando ao poder e ao trono, tive a sorte de encontrar inúmeras vezes nesse período o Professor, na Adega da Foupana, aquando das suas frequentes passagens pela província. E foi na Foupana que conheci também outro grande amigo na altura, o senhor Fernão Lopes, que desde logo me informou da criação da Companhia das Naus, da famosa Lei das Sesmarias, e ainda teve tempo para me falar sobre as pretensões de El Rei ao trono de Castela, deixando toda a região em pé de guerra… Mas essas são outras histórias que recordarei brevemente!!

António Prates
Tags: minha história

⁠Antes de usares a cabeça assegura-te que a tens.

António Prates

⁠Há pessoas que para parecerem mais altas tentam derrubar todas aquelas que as cercam.

António Prates
Tags: pessoas parecerem

⁠Da forma como as coisas estão,  ser independente e verdadeiro pode ser a ruína de qualquer cidadão em Portugal. 

António Prates

Tal como acontece na política, muitas pessoas só evocam a família quando precisam dos seus familiares.

António Prates
Tags: acontece política

⁠Chamaram-me génio, poeta brilhante, 
fizeram-me versos, mandaram-me flores, 
julgando-me perto e eu tão distante 
das palmas que tive em tantos louvores... 

Não sou o que julgam, tampouco o que pensam, 
da minha virtude tão rica e tão falsa, 
só quero que as lutas que tenho se vençam 
como um vinho branco adoçado na balsa... 

Se fui perseguido a mim devo e à coragem, 
por todos aqueles que um pouco me devem, 
e a todos lhes presto uma justa homenagem 
com os falsos preitos que os santos recebem... 

Não quero que tenham remorsos ou pena, 
não quero que acendam a luz que apaguei, 
só quero o destino, que ao longe me acena, 
e o gosto agridoce dos versos que dei.

António Prates
Tags: chamaram génio

⁠Vindima à do Pinto, meu Deus, que alegria,
naqueles castelos de belos lugares,
do branco e do tinto, Foupana e Judia,
mais a fortaleza que há nos Vilares.

O trabalho é duro, compensa-me a alma,
feita destes bichos de todas as cores, 
e então, o futuro apressa-me a calma, 
trabalho em caprichos de calos e dores.

Depois azeitona, na encosta das Boiças,
em grande algazarra, sem deixar um bago,
e na mesma zona, nas mesmas retoiças,
peguei na guitarra, fui pra São Tiago.

Voltei ao lugar onde fiz a vindima,
com mais oliveiras vestidas de preto,
não tive vagar de fazer uma rima
às malas bonitas e ao rancho completo.

Atiro-me à poda, contente nas provas,
deixo as esperas, perto da De Moura,
tiro a roupa toda, deixo varas novas,
e afio as quimeras da minha tesoura.

Se fui aos arames, guardei as ressacas
de tantas preguetas e pregos aos berros,
com velhos ditames desse bate-estacas,
bati, sem caretas, o aperto dos ferros.

Sem sombras à vista, um sol desalmado, 
pelo campo agreste, caminho à vontade, 
não há quem resista a este telhado, 
que em nada se veste, nesta liberdade.

Faço o que ninguém aqui quer fazer,
levanto a enxada a dois metros de altura, 
e vou mais além, onde o patrão quer, 
desde madrugada, nesta vida dura.

Tanta poda verde, meu Deus, o que é isto?
Perto de Arraiolos, Arcos e Estremoz,
só ganha quem perde, e eu não desisto
destes protocolos com mais de dez nós.

Coitados dos alhos, perto de Fronteira, 
quando me viram, ficaram espantados,
meti-me em atalhos, junto à ribeira, 
e ficaram três foitos ali atascados.

A vida é dos fortes, que aqui se alimentam, 
sem medo ou receio destes dias maus, 
benditas as sortes, as sinas que aventam 
um homem no meio de quarenta graus.

Na fruta madura, alimento as queixas,
subo o escadote, meto mãos à obra,
em grande aventura, apanho as ameixas, 
fazendo um pinote com força de sobra. 

Nesta comunhão, sem logro, sem preço,
passei mais um ano, vivido a retalho,  
e pra ter o pão que também mereço,
só peço saúde, respeito e trabalho.

António Prates

⁠Buscamos constantemente a felicidade e queremos conquistar sempre coisas que supostamente nos fazem felizes, assim como ter dinheiro, ter sucesso, ter muitos amigos, ou uma relação amorosa estável para toda a vida. Com as tecnologias virtuais os bombardeamentos de imagens de pessoas de todas as idades, sejam pessoas anónimas ou as chamadas celebridades, observamos que essas pessoas tentam passar aos seus "seguidores" que estão sempre felizes, o que acaba por ser, em grande parte das vezes, uma grande ilusão para aqueles que as seguem. Naturalmente, todos nós já percebemos que a cada momento alguém faz questão de publicar os seus grandes momentos de felicidade aqui no Facebook. A pessoa vai a uma festa, faz uma publicação, faz um um jantar com os amigos, outra publicação, se está a viajar, não lhe falta felicidade para publicar de novo, se comprou uma roupa ou uma máscara nova, mais uma publicação de felicidade aparente. E assim vai indo, de felicidade em felicidade, para que os seus seguidores vejam o quanto ela, ou ele, é feliz. Certamente algumas pessoas devem estar a pensar: mas o que é que este tem a ver com as publicações dos outros. Eu faço publicações felizes e vou continuar a publicar a minha felicidade, para que os outros as vejam. Não tenho nada contra quem mantém esse hábito, da mesma forma que também não sou a favor expor toda a minha vida privada nas redes sociais, e muito menos o sou quando estou dependente do reconhecimento dos outros para me sentir feliz. É isso que acontece com a maioria das pessoas, onde a sua felicidade depende do número de likes ou do número de comentários que elas recebem. A felicidade nos dias de hoje tornou-se uma obrigação. O mundo contemporâneo vende para todos nós o prazer, faz-nos fazer todo o tipo de figuras, mais ou menos ridiculas, que são sem dúvida alguma a essência básica da felicidade moderna. Não são poucas as vezes que as pessoas experimentam o prazer através de algum objeto caro, tal como um carro, um telemóvel, ou outro brinquedo qualquer, no qual investiram a ilusão da sua felicidade, e nem sempre se sentem felizes, porque após o bem-estar momentâneo, sobra, ou falta, sempre a verdadeira essência que nos faz ser verdadeiramente felizes. Por exemplo, que felicidade nos podem dar as publicações com fotos provocantes, com quase todas as nossas intimidades à mostra, para mostramos ao mundo das redes sociais o que em privado mostramos a muito poucas pessoas, tiradas numa praia, em frente ao espelho, ou noutro sítio qualquer, a exibir para todo o tipo de gente mais ou menos perversa uma sensualidade barata a troco de likes e de comentários muitas vezes muito pouco sinceros, como se o nosso corpo não tivesse alma e fosse apenas mercadoria. Aliguns exemplos fazem-me lembrar os vendedores de felicidade, que nos querem fazer acreditar que tudo o que é dito e publicado nas redes sociais é realmente verdade. Sigmund Freud disse-nos que "a felicidade é vendida no sentido de cobrir uma falta, uma falta que é constante e que, portanto, nunca será alcançada na sua plenitude." As pessoas buscam satisfazer-se durante o tempo todo, como quem tenta encher o vazio de um copo que não tem fundo. Além do mais, o nosso próprio sistema capitalista vai contribuindo para isso, faz com que busquemos grande parte da nossa felicidade nas compras, nas viagens e nesses adereços superficiais, que as novas, e menos novas, gerações consideram cada vez mais importantes, e além de terem tudo isso, muitas pessoas costumam publicar nas redes sociais fotos esplendorosas, a simulação de uma vida requintada, justamente para tentarem preencher a ausência de uma vida perfeita, como certamente ocorre com uma grande maioria dos adeptos desse tipo de vida. Sobretudo, acho que vai estando na hora de refletirmos um pouco sobre o que nós, os que temos idade para ter algum juízo, estamos a construir para o futuro e a transmitir às nossas crianças e aos nossos jovens, em termos de sociabilidade e da nossa felicidade interior, sob a aparência ilusória de não sei quantos likes, de milhares de seguidores e de outros tantos comentários, que pouco mais significam do que um ninho de invejas de vaidades e de hipocrisias reais e virtuais. Na minha maneira de ver, aqui deste Alentejo profundo, nao necessitamos de vender a nossa alma a um preço tão baixo e a felicidade pode estar nas pequenas atitudes e nas coisas mais simples, sem que tenhamos prejuízos emocionais, que nos podem provocar baixa autoestima ou depressões que podem ser devastadoras no futuro. Lembremo-nos sempre de uma grande parte das pessoas mostra nas redes sociais o que elas gostariam de ser, e não o que elas realmente são.

António Prates
Tags: felicidade redes-social

⁠Muitos seres humanos ficam mais indignados com os maus-tratos aos animais do que com os maus-tratos⁠ às pessoas, porque os animais não lhes fazem concorrência.

António Prates

Nunca devemos mostrar fraqueza, nem nas horas mais difíceis, pois há sempre quem se queira aproveitar da fraqueza dos outros.

António Prates
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Tags: nunca demonstre

⁠A minha única liberdade é esperar a felicidade. 

António Prates

Jogados à sorte do sol que procuram,
promovem jornadas de campo e de praia,
arrancam nos carros, lá vão prá gandaia,
rumo ao desencontro daqueles que aturam...

Alugam-se quartos, parques de campismo,
ocupam-se as casas em tempo de férias,
jogados à sorte, são tantas as lérias,
que fazem do povo um hino ao turismo...

Cozem-se mariscos, bebem-se cervejas,
jogados à sorte, durante a viagem,
param no caminho, vão ver a barragem,
motivo de tantas e tantas invejas...

Nas festas d'aldeia voltam às raízes,
levam as crianças na palma da mão,
vão ver os concertos onde tantos vão,
jogados à sorte de serem felizes.

António Prates
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Grande é o privilégio de quem assume a sua loucura, num mundo onde quase todos tentam desmentir aquilo que são.

António Prates
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Tags: grande privilégio

⁠O maior risco que corri na vida foi dar a minha opinião. 

António Prates