Uma corrida, duas histórias Eram... Peregrino Nino Carneiro

Uma corrida, duas histórias
Eram exatamente 4h50 da manhã quando o motorista-peregrino ligou seu aplicativo de transporte. São Carlos ainda estava mergulhada na escuridão quando surgiu uma corrida para uma delegacia na Zona Norte. O passageiro estava a menos de um quilômetro de distância. Por ser madrugada, o motorista ficou um pouco ressabiado, mas aceitou a viagem.
Ao chegar ao endereço, percebeu que o passageiro era um policial militar. Assim que entrou no carro, o policial cumprimentou-o educadamente, e os dois seguiram viagem. Como sempre fazia, o motorista puxou conversa:
— Estou começando o dia com um passageiro que me dá segurança total!
O policial sorriu:
— E os demais passageiros não dão?
— Desculpe! O que quis dizer é que estou tentando tornar esta corrida agradável. Quem sabe o senhor não me conta alguma história interessante para o meu próximo livro?
Curioso, o policial perguntou se ele era escritor. O motorista explicou que era apenas um apaixonado pela escrita, autor de três livros, e que estava preparando outro, chamado “Entre Caminhos, Histórias e Aprendizados”, no qual pretendia reunir histórias vividas em suas caminhadas e aquelas que escutava dos passageiros.
O policial gostou da ideia e perguntou se poderia ganhar um dos livros. O motorista respondeu que sim, desde que ele lhe contasse algumas histórias marcantes de sua profissão.
— Então me conte duas: uma muito triste e outra engraçada.
O policial pensou por alguns segundos e começou pela mais difícil.
A história que nunca saiu da memória.
— Eu tinha pouco mais de um ano de profissão quando fazia uma ronda em São Paulo, pela Marginal do Tietê. De repente, vimos várias pessoas paradas às margens do rio, apontando para a água. Parecia que alguma coisa se mexia dentro de um saco.
Paramos a viatura, descemos e retiramos o saco da água. Quando o abrimos, descobrimos que havia um bebê recém-nascido lá dentro. Provavelmente tinha nascido poucas horas antes e fora jogado no rio pouco tempo depois.
Infelizmente, não havia mais nada a fazer. O coração daquela pequena criança já havia parado de bater.
O policial ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar:
— Fizemos todos os procedimentos necessários, mas aquela cena nunca mais saiu da minha cabeça. Até hoje não consigo entender como alguém pode cometer uma crueldade dessas contra uma criança indefesa.
O motorista ficou profundamente tocado.
— Existem histórias que a gente ouve e nunca mais consegue esquecer — disse.
Depois de alguns instantes de silêncio, lembrou-se da segunda história.
— Agora quero ouvir aquela que o senhor disse que me faria rir.
O policial sorriu.
O amigo do presidente
— Essa aconteceu em Ribeirão Preto. Eu e minha equipe estávamos em frente ao Fórum Criminal quando um morador de rua, bastante alcoolizado, aproximou-se de nós. Começou a nos ameaçar e disse que iria falar com o presidente Lula se não fôssemos até o viaduto onde ele dormia.
O motorista já começou a sorrir.
— Ele dizia que só queria dormir, mas que uns “homenzinhos verdes” passavam a madrugada fazendo dancinha perto do barraco, puxando seu cobertor e não o deixavam em paz. Depois afirmou:
— “Vocês sabem com quem estão falando? Eu sou amigo íntimo do presidente da República! Um telefonema meu e ele manda o Exército confiscar suas fardas e prender esses marcianos!”
O policial contou que a equipe resolveu entrar na brincadeira.
Abriram a porta traseira da viatura e disseram:
— Entra aí. Vamos levá-lo até o presidente da República. Se estiver falando a verdade, deixamos você lá para tomar umas com ele. Se estiver mentindo, vamos prendê-lo.
Segundo o policial, o homem não pensou duas vezes. Saiu andando em zigue-zague e desapareceu pela rua. Não quis mais saber de presidente, Exército nem de marcianos.
Os dois caíram na risada.
A corrida, que começara às 4h50 da manhã, havia se transformado em algo muito maior do que uma simples viagem. Em poucos quilômetros, o motorista encontrara duas histórias completamente diferentes: uma que provocava tristeza e reflexão; outra que arrancava gargalhadas.
Ao chegarem ao destino, os dois se despediram. O motorista agradeceu pelas histórias, que certamente encontrariam espaço em seu próximo livro, e cada um seguiu sua jornada.
Enquanto dirigia de volta, o peregrino pensou em algo que aprendera em suas caminhadas: às vezes, aceitamos uma corrida pensando apenas no destino, mas descobrimos, no caminho, que a verdadeira viagem está na história que encontramos pelo percurso.
Peregrino Nino Carneiro