Pena eu Nao fazer parte do seu Mundo

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Há um tipo de cansaço que o sono não resolve, pois ele está impregnado na estrutura molecular da nossa vontade de ser alguém. É uma fadiga existencial, uma vontade de ser apenas uma pedra no fundo de um rio, deixando a correnteza levar os problemas embora.

A poesia não salva ninguém do abismo, mas ela nos dá uma lanterna para que possamos descrever os monstros enquanto caímos. É a arte de cair com elegância, transformando o impacto inevitável em uma estrofe que o mundo lembrará quando não estivermos mais aqui.

A dor é um mestre severo que não aceita desculpas e exige que cada lição seja escrita com o sangue das nossas certezas mais profundas. Aprendi mais no escuro do quarto do que em todas as salas de aula que frequentei, pois ali a matéria era a minha própria vida.

O tempo não cura, ele apenas anestesia a ferida até que ela se torne uma cicatriz rígida, que dói sempre que o tempo muda ou que a alma esfria. Não acredite em quem diz que o tempo resolve tudo, o tempo apenas acumula poeira sobre o que não tivemos coragem de limpar.

Não confio em quem não tem cicatrizes, pois quem passou pela vida sem ser ferido ou não viveu de verdade ou é mestre na arte de fugir de si mesmo. As feridas são as aberturas por onde a luz consegue, enfim, entrar em nosso interior sombrio.

O destino não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos sobra depois que o pior já passou e o silêncio se instalou na sala. É a reconstrução paciente de um vaso quebrado, sabendo que as marcas da cola farão parte da sua nova identidade.

A vida não é sobre chegar ao topo da montanha, mas sobre o que você escreve nas pedras enquanto está tentando não escorregar no barro da encosta. O topo está sempre nublado, a beleza está no esforço da subida e nas feridas que o caminho nos deixa de presente.

A solidão é o preço que se paga por ter uma alma que não aceita imitações e que prefere o isolamento à companhia de quem só sabe falar do que é superficial. É um custo alto, mas a vista do deserto é muito mais honesta do que a da cidade iluminada por luzes artificiais.

​Os espíritos imundos não param de sussurrar no meu ouvido, vivo em um cemitério de lápides vazias, quebradas, com nomes escritos que não consigo decifrar. Os fantasmas que me atormentam não têm rostos, não falam comigo, apenas me observam na escuridão em que me enterro.

Frases por vezes complexas, paradoxalmente intrigantes, frutos de uma mente em flagelo que já não distingue o real da fantasia melancólica. É o eco de uma alma cansada que, por vezes jogada ao pedregal, entrega-se aos abutres e corvos necrófagos, onde cada bicar das aves retira um pedaço do que outrora foi esperança. Ali, entre o pó e a pena, a mente finalmente cessa a luta contra o delírio, aceitando que a beleza, ainda que fúnebre e dolorosa, reside na coragem de desintegrar-se diante do próprio destino.


- Tiago Scheimann

Sou como um canto que nasceu livre, mas aprendeu cedo o peso invisível das próprias grades, não as que se veem, mas as que se sentem no fundo da alma. Há em mim um desejo antigo de voo, desses que não pedem destino, apenas horizonte, mas que se desfazem toda vez que a lembrança me puxa de volta. Minha liberdade mora longe, talvez no tempo em que o peito ainda não conhecia o silêncio imposto pela dor. E mesmo assim, continuo cantando baixo, como quem tenta não esquecer a própria essência, ainda que tudo ao redor insista em aprisioná-la. Porque existem almas que nasceram para o céu, mas aprenderam a sobreviver dentro de gaiolas feitas de saudade.


- Tiago Scheimann

Quando olho minhas cicatrizes, percebo que elas não são falhas, mas mapas de lugares onde um dia a minha esperança foi reduzida à poeira e ainda assim se recosturou.

Existir não é um presente é uma condição, e talvez o erro esteja em esperar conforto disso, porque a consciência não foi feita para ser leve, ela foi feita para perceber,
e perceber quase sempre dói.

O vazio não é ausência, é presença sem significado, é estar cercado de tudo e ainda assim não encontrar sentido, e talvez seja isso que mais desgasta, não a dor em si, mas a falta de razão para ela existir.

Pensar é um risco contínuo, porque cada conclusão abre espaço para novas dúvidas, e não existe ponto final nesse processo, apenas pausas temporárias antes de recomeçar.

A consciência não permite descanso completo, porque mesmo no silêncio ela continua ativa, revisando, questionando, reconstruindo, como se existir fosse um trabalho que nunca termina.

Há uma exaustão que não vem do corpo, mas do peso de sustentar pensamentos que não descansam, como se minha mente fosse um tribunal permanente, onde eu sou, ao mesmo tempo, acusado, juiz e sentença.

Há uma solidão que não depende da ausência de pessoas, ela se instala mesmo em meio à presença, porque não é sobre estar acompanhado, é sobre ser compreendido, e isso é algo que raramente acontece de verdade.

O pensamento não resolve a existência, mas torna impossível ignorá-la, e quando se enxerga demais, não há retorno para a ignorância confortável que um dia protegeu.

A dor não chegou de uma vez, ela foi construída, em camadas tão sutis que quase passaram despercebidas, até que um dia percebi que já não era mais o mesmo, mas também não era alguém completamente perdido.