Pedra nos Rins
Muralhas de Ferro
Erguem-se altos os muros da estrada,
Pedra usinada pelo tempo e pela dor.
A vida, às vezes, é fortaleza fechada,
Onde a esperança hesita em compor.
Os portões são de bronze e chumbo pesado,
Com ferrolhos gigantes que ranger nos fazem temor.
E encaramos o fosso, de um lado isolado,
Perguntando se existe passagem ao amor.
Mas até o castelo de pedra mais dura
Guarda uma fresta por onde entra a luz.
Não há ponte levadiça que dure a amargura,
Nem ferro que vença a coragem que conduz.
Pois a mão que moldou a pesada tranca
É a mesma que aprende a encontrar a saída.
E a muralha mais alta, por mais que imponha a banca,
Cede ao passo constante de quem vive a vida.
Ah, coração
Quisera fosses apenas
Um pedaço assim
De pedra, giz ou carvão
Este, que bate em mim
Nada sente
O da alma é diferente
Esse me diz, todo dia
Meu poeta, eu não queria
Viver outra coisa além
Dessa singela poesia que fazemos
Nela, a vida pode não ser bela
Seguramente não é
Mas a gente bota o pé
Quase que seguro de onde pisa
E não precisa mais ninguém
Além de tu e de mim
Pois o mundo não é assim
Que nem a gente
Felizes, interagindo
Buscando um desfecho
Que não se arvore a ser perfeito
Também não precisa ser lindo
Desde que tenha alguma graça
E que faça algum sentido
Pra tu e pra mim
Pois o mundo não pensa assim
O avião que passa lá no céu, só voa
O trovão da tempestade é barulhento
A chuva molha e a vida é boa
Contigo aqui comigo, coração
A chuva é maravilhosa
O trovão da tempestade, ecoa
A vida, flutuante, pega carona
Numa corrente de vento
O avião que voa, sobrevoa um mar de rosas
Mas não vimos nada disso
Porque estivemos desatentos
Tentando enxergar poesia
Onde a luz do dia iluminava
Uma parede de concreto
Uma cidade reta
A flora de ervas daninhas que aflora
Pra glória de quem deseja
Que tu e eu também vejamos
O quanto este mundo seria bom
Se todos os corações apenas
Se comportassem
Como pequenos pedaços
De pedra, giz ou carvão.
Edson Ricardo Paiva
CAPÍTULO III
A PEDRA E O SILÊNCIO.
O inverno descia sobre a Úmbria com a gravidade própria do século XI. As colinas próximas a Perugia tornavam-se densas sob a névoa, e o ar carregava o odor de lenha úmida e terra revolvida. Não havia pressa na estação fria. Havia espera. E na espera formava-se o caráter.
Cladissa contava aproximadamente 17 invernos quando o abade do mosteiro próximo, vinculado à Ordem de São Bento, permitiu que algumas jovens do vilarejo participassem da instrução elementar da leitura dos salmos. Não era privilégio comum. A alfabetização, ainda que rudimentar, concentrava-se nos claustros. Mas a região vivia um momento de reorganização disciplinar após as reformas impulsionadas por Gregório VII, e a formação espiritual das famílias tornara-se preocupação constante.
O mosteiro erguia-se em pedra clara, austera, quase severa. Nada ali convidava ao conforto. Tudo remetia à permanência. Ao atravessar o pátio interno pela primeira vez como aprendiz e não apenas como visitante, Cladissa sentiu algo que não soube nomear. Não era temor. Era reconhecimento. Como se a pedra falasse uma língua silenciosa que sua alma já conhecia.
O scriptorium situava-se no lado oriental do edifício, para receber melhor a luz da manhã. Ali, dois monges copiavam trechos da Vulgata sobre pergaminhos espessos. O odor de tinta ferrogálica misturava-se ao couro curtido das capas. O som dominante era o do raspador sobre o pergaminho, corrigindo imperfeições antes da escrita.
Cladissa observava. Não perguntava em excesso. Sua inteligência era contemplativa. Compreendia que naquele espaço o saber não era ornamento. Era responsabilidade. Cada letra traçada era um gesto de preservação do mundo antigo.
O irmão Martino, monge de meia-idade com mãos firmes e olhar fatigado, percebeu a atenção da jovem. Não a tratou com condescendência. Entregou-lhe um fragmento de salmo e indicou que repetisse a leitura em voz baixa. A pronúncia latina de Cladissa era hesitante, mas clara. Não buscava rapidez. Buscava exatidão.
Naquele instante, algo se deslocou em sua interioridade. Não era ambição de erudição. Era a percepção de que o conhecimento ordena a alma. A disciplina da leitura tornava-se disciplina do pensamento. E o pensamento disciplinado protege contra o caos.
Fora dos muros, entretanto, o mundo mantinha sua rudeza. Um conflito entre dois senhores locais, ligados a pequenas fortificações ao sul de Assis, ameaçava os camponeses com novas exações. A insegurança política era parte estrutural da época. O feudalismo não era sistema abstrato. Era cobrança concreta, era trigo confiscado, era inverno mais severo.
Cladissa escutava as conversas sussurradas no vilarejo. Não reagia com revolta impetuosa. Refletia. Percebia que a violência exterior revelava desordem interior. A ausência de governo justo era reflexo da ausência de autodomínio.
Certa tarde, ao regressar do mosteiro, encontrou a mãe sentada à porta da casa, fiando lã com movimentos ritmados. O silêncio entre ambas não era vazio. Era comunhão. A mãe não dominava a leitura, mas dominava a resistência. E essa forma de saber era igualmente necessária.
Cladissa compreendeu então que sua formação não poderia ser puramente claustral. A pedra ensinava firmeza. A terra ensinava humildade. O mosteiro preservava a palavra. O campo preservava a vida.
Na última vigília daquele inverno, permitiram-lhe permanecer na igreja durante o canto das horas noturnas. As vozes graves dos monges ecoavam sob a abóbada simples. Não havia ornamentos dourados. Havia reverência. A repetição dos salmos não era monotonia. Era lapidação da consciência.
Ali, sob a luz trêmula das velas, Cladissa tomou uma decisão silenciosa. Não se tratava de fugir do mundo. Tratava-se de compreender o mundo a partir de um eixo interior inabalável. Se o século era instável, ela deveria tornar-se estável. Se a política oscilava, ela deveria ordenar-se moralmente.
O inverno terminaria. Os conflitos talvez se agravassem. O poder mudaria de mãos como tantas vezes mudara. Mas a disciplina adquirida naquele claustro permaneceria como fundamento.
Cladissa não buscava glória. Buscava retidão.
E no silêncio das pedras antigas, começou a erguer-se não apenas uma mulher medieval, mas uma consciência capaz de atravessar seu tempo sem dissolver-se nele.
Deseja que o Capítulo IV avance para um evento histórico concreto, como a tensão feudal aberta em violência, ou prefere aprofundar a vocação espiritual nascente de Cladissa dentro do mosteiro.
" Com o " Tinha uma pedra no meio do caminho " é sinal feliz porque tinha, mas é grandioso de perceber que agora falta somente a outra metade do caminho. "
Somos uma pedra bruta e o tempo é o escultor que tenta nos polir usando as intempéries como ferramentas.
Senhor Jesus, que viste além das pedras, ensina-nos a largá-las.
Transforma coração de pedra em coração dócil;
que nossos olhos enxerguem irmãos antes de faltas,
nossas mãos estendam mais que apontem,
e nossa boca leve bênção, não pedra.
Que a Tua graça nos faça especialistas em ajudar, perdoar e restaurar.
Em nome de Jesus, amém.
Verdade sem amor vira pedra; amor sem verdade vira sentimentalismo. Em Cristo, verdade e graça caminham juntas. João 1:14
Pés despidos na pedra fria, olhos que sabem de dor. Mas há no rosto cansado a chama viva do amor. Quem carrega o que é amado não sente o peso que levou.
Teu caminho até mim foi traçado com sangue na terra. Cada pedra feriu Teus pés, não porque eu merecesse, mas porque Tu escolheste me amar.
Quando penso em destino, penso em escolhas sutis. Não em decretos gravados em pedra, mas em trilhas. Cada pequena escolha é nó que nos define. Às vezes desfazemos, outras apertamos ainda mais. E o resultado é essa tapeçaria que somos.
O tempo não caminha sobre nós como um rio. Ele nos esculpe como o mar corrói uma pedra: lentamente, sem piedade e sem testemunhas.
O Espelho e a Pedra
O humilde não possui nada,
E por isso, possui o mundo.
Ele se senta à mesa do silêncio
E come o pão que a soberba despreza.
Sua riqueza é um segredo que a poeira guarda,
E sua felicidade não faz barulho,
Não brilha,
Não fere os olhos de quem passa.
Mas há um espelho.
E o espelho é a alma do cruel.
O cruel olha para o humilde
E não vê um homem.
Vê um espelho partido,
Um reflexo embaçado de tudo o que ele teme perder.
E o que mais dói nesse reflexo
Não é a pobreza do outro.
É a paz do outro.
O humilde sorri com os olhos,
E o cruel se contorce por dentro.
Pois a felicidade completa do humilde
É um tribunal silencioso.
Ela não julga, não grita, não condena.
Ela apenas é.
E ser, para quem só sabe ter,
É a sentença mais cruel.
O cruel bebe o vinho da posse
E sente sede.
O humilde bebe a água da fonte
E está saciado.
O cruel acumula exércitos
E dorme em guerra.
O humilde não tem exércitos
E dorme em paz.
E quando o cruel se deita no espelho,
Ele não vê a si mesmo.
Ele vê o humilde dormindo.
E essa visão — ah, essa visão —
É o que mais dói.
Pois o humilde não precisa de espelho
Para saber quem é.
Ele é.
E a sua felicidade é um rio que corre
Sem pedir licença à seca.
O cruel, no entanto,
Precisa do espelho para existir.
E no fundo desse vidro,
A imagem que o atormenta
Não é a sua própria crueldade.
É a inocência do humilde.
É a sua inteireza.
É a sua completa e insuportável
Felicidade.
E isso, meu caro,
É o que mais dói.
Não a dor do humilde.
Mas a alegria dele.
Pois a alegria do humilde
É a única coisa que o cruel
Nunca poderá comprar,
Nunca poderá roubar,
Nunca poderá entender.
E no silêncio do espelho,
O cruel aprende, tarde demais,
Que a maior pobreza
É não saber ser feliz
Sem precisar que o outro seja infeliz.
André Vicente Carvalho de Toledo.
Eu não vou culpar ninguém
Nem jogar pedra em quem venceu também
Se eles correram, eu também posso correr
Mesmo que hoje eu só tenha vontade pra sobreviver
A Pedra que Rola
A pedra que rola,
que rola e esmaga,
ameaça esmagar
toda uma existência.
Não de uma vez.
A ameaça vem aos poucos,
em pequenas pedrinhas.
Às vezes, o vento
joga uma pequena poeira.
Mas, para quem está
embaixo da pedra,
uma pequena poeira
é como uma chuva densa
numa floresta tropical.
Somente a ameaça,
em si,
é capaz de congelar
uma existência inteira.
Ela não consegue recuar.
Ela não consegue escapar.
Ela não consegue se mover.
Ela não consegue sair.
E, aos poucos,
foi deixando de existir
e passando apenas
a sobreviver.
Hoje,
a pedra não parece
ser tão grande assim.
Mas o efeito constante,
contínuo,
persistente
e insistente
da ameaça
fez desaparecer
a existência dela por completo.
Hoje,
ela é uma sombra.
Algo vazio.
Às vezes,
há um breve cheiro
do que ela foi um dia.
Um vestígio.
Um sopro.
Uma lembrança
de quem costumava ser.
Talvez um dia
ela se liberte.
Talvez um dia
olhe para si mesma
e perceba o quanto cresceu.
Talvez tenha coragem
de se agigantar,
de levantar-se,
de ocupar novamente
o próprio espaço
e mostrar à pedra
que ela não conseguiu
destruí-la.
Porque, um dia,
ela finalmente renasceu.
Não quero ser a ‘pedra no seu sapato’, ou até mesmo; um obstáculo na sua vida…
Eu realmente não te mereço.
