Os Velhos Carlos Drummond de Andrade

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JOSÉ

E agora, José?
A copa acabou,
a luz não pagou,
o juro subiu,
o boleto expirou,
e agora, José?
e agora, você?
Você, que é um número,
só um entre tantos
Você que faz empréstimos,
que compra, ostenta?
e agora, José?

Está sem sindicância,
está sem recurso,
está sujinho,
já não pode efetivar,
já não pode parcelar,
discutir já não pode,
a inflação aumentou,
o reajuste não veio,
o concurso público não veio,
o hexa não veio,
não veio a aposentadoria
e a corrupção dominou,
a justiça aboliu,
dr Enéas morreu,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce jornada,
seu direito de férias,
sua multa de rescisão,
sua Unimed,
sua bolsa de estudo
seu seguro desemprego,
sua gratificação,
seu 13°, - e agora?

Com direito a escolher
quer eleição,
não existe eleição;
quer votar,
mas o golpe forjou;
quer atravessar a fronteira,
O Sem fronteiras não há mais!
José, e agora?

Se você implorasse,
se você concordasse,
se você aumentasse,
a hora extra,
se você negociasse,
se você mendigasse,
se você protestasse...
Mas você não faz greve,
você tem orgulho, José!

Dobrando o turno
Qual um escravo,
sem segurança
sem hora almoço
para descansar,
sem conta poupança
que desafogue,
você tributa, José!
José, para quem?

O passado está escrito na memória e o futuro está presente no desejo.

Há coisas que sentimos na pele, outras que vemos com os olhos, outras que apenas pulsam no coração.

madura no ramo
vou colher a fruta
da mulher que amo

pássaro tenor
afina a garganta
ao sol se pôr

caído, um corpo
acabado, um sonho
imóvel, um morto

gente sem terra,
corrupção, desemprego:
mundo em guerra

grama nos trilhos
composições mudas
sem estribilhos

pinga torneira
tic tac do relógio
luz com poeira

louco desafio:
comer fubá e cantar
o sole mio!

olhos de gato
luz dos faróis na noite
pulo no mato

nuvem que passa,
o sol dorme um pouco -
a sombra descansa

cama macia
corpo se espreguiça
nasce o dia

cubista musa
com os pés na cabeça -
obra confusa

sossego acaba -
chegou a pamonha
de Piracicaba

ave calada -
ninho em silêncio
na madrugada

pinta no nariz -
era uma pulga que
fugiu por um triz

serra nevada,
cumes tocam o céu -
nuvem furada

folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal

abelha na flor
a brisa nas árvores
eu com teu sabor