O Valor do ser Humano Rubem Alves
O Mar das Ilusões
Dizem que existe um lugar além do tempo, onde não há terra firme nem horizonte. Um lugar que não se encontra em mapas, mas na essência da alma. Chamam-no carinhosamente de Mar das Ilusões.
É nesse mar que muitos despertam após o último sopro de vida. Não há barulho de ondas, não há vento forte, apenas um fluxo suave que conduz cada ser sem pressa, como se o próprio mar guardasse um segredo que ninguém ousa revelar.
O despertar
Você se encontra ali, deitado sobre a água, incapaz de mover-se. Não há esforço que faça sentido, não há direção a seguir. Apenas o flutuar... e o silêncio.
Ao redor, dezenas — talvez centenas — de pessoas também deslizam, algumas serenas, outras inquietas, mas todas com o mesmo olhar perdido: “O que estou fazendo aqui?”
A primeira coisa que descobre é simples, mas pesada:
a cada lembrança amarga de sua vida, você afunda um pouco.
Não há juízes, nem vozes condenando. Apenas sua própria memória, sussurrando o que foi deixado para trás.
O mergulho
E então, você começa a descer. O azul da superfície torna-se turvo, depois escuro, e o escuro transforma-se em silêncio profundo. Cada erro, cada palavra dura, cada arrependimento não resolvido... tudo pesa. O mar não castiga — apenas devolve.
Mas, ainda que o fundo o chame, seus olhos insistem em olhar para cima.
E lá, entre a claridade distante, algo se move: pássaros.
Eles sobrevoam o mar, pairando com asas que não se cansam, levando consigo alguns daqueles que conseguiram permanecer na superfície. Ninguém sabe para onde vão. Ninguém jamais voltou para contar.
A revelação
Uma voz suave, não de fora, mas de dentro, ecoa na sua consciência:
"Você gostaria de ir com os pássaros? Então não afunde."
Mas como não afundar, se o peso já o arrasta? A resposta não vem de fora.
Logo, você percebe: o mar não é feito apenas de água, mas de sua própria consciência. Ele não o engole; ele apenas reflete quem você foi.
Não lhe falta tempo. Ali, o tempo é eterno, elástico, feito para que percorra os corredores de sua mente quantas vezes forem necessárias. Pode subir, pode descer, pode revisitar cada lembrança, como se andasse em uma casa sem portas.
E então, a verdade se revela com clareza:
se sobe ou desce, já não é escolha sua.
São apenas as consequências da vida que levou.
O destino
No Mar das Ilusões, não há punição, nem recompensa. Há apenas reflexo.
A aceitação torna-se, portanto, o último aprendizado.
Você respira fundo, mesmo debaixo da água, e finalmente entende:
o que prende não é o mar, mas as correntes invisíveis que você mesmo construiu em vida.
E, quando esse pensamento se instala, você percebe algo diferente.
O peso começa a diminuir.
A luz acima torna-se mais próxima.
E, pela primeira vez, você sente que talvez... só talvez... as asas dos pássaros também possam vir buscá-lo.
Porque, no fim, o Mar das Ilusões não é uma condenação, mas um espelho.
E quem aprende a se olhar de frente, descobre o caminho da leveza.
Que não deixemos de ser a pessoa certa só porque algum dia fomos a pessoa certa para a pessoa errada.
Na hipótese da existência de um Criador intencional, por que motivo ele criaria um mundo para não ter ciência dele? Por amor? Ele carece de ter ciência de sua criação? Quem sabe seu propósito fosse um lucro, e não a ciência do que almocei ontem. Ele carece disso? Talvez vários de nós tenham contribuído diretamente para criar este modo de existir antes de entrar nele. Quem sabe nós todos não sejamos apenas um? Essa bizarra hipótese explicaria muitas coisas. Talvez haja esse ser que vive através de vários outros seres.
Além do ser não há o nada, porque o nada já é uma ideia. Além do ser não há sequer a ausência, pois ausência é medida em relação ao que poderia ser presente. O que está além do ser é o inominável absoluto — não aquilo que não conhecemos, mas aquilo que não pode sequer ser cogitado, pois toda cogitação é já um ato
Se o ser é o campo onde tudo se manifesta, então além dele só pode haver a pura impossibilidade, não como uma barreira, mas como uma ausência total de necessidade. Não há tempo além do ser, não há espaço, não há movimento: há apenas o que nunca poderia ter sido, e ainda assim, não é.
Mas ao mesmo tempo… talvez não haja ‘além’. Talvez o erro seja pensar o ser como algo com bordas, com limites, com um exterior. Talvez o ser não tenha fora, e tudo o que somos capazes de imaginar como ‘além’ seja apenas uma dobra interna, um não-lugar que só existe como ilusão de afastamento.
Se for assim, não há além do ser: há apenas o ser, infinitamente curvado sobre si mesmo, experimentando-se em múltiplas formas, inventando abismos para sentir a vertigem da sua própria infinitude.
Talvez, no fim, perguntar ‘o que existe além do ser?’ seja o próprio gesto que revela a impossibilidade da pergunta: porque o ser é o campo onde a própria pergunta se forma. O que está além é o que jamais poderá ser pensado, sentido ou dito. É o absoluto silêncio, não como falta, mas como aquilo que nunca pôde ser interrompido pelo som.
Então, talvez… não exista ‘além’.
Talvez só exista o ser, pulsando sem motivo, sem fim, sem fora.
Aprendi a importância de ser honesto comigo mesmo, por mais difícil que isso possa ser. Essa honestidade trouxe a clareza que precisava para enxergar o que realmente importava.
Acho que a vida é sobre ser ousado em certas coisas — e comedido em outras. É sobre amar, fazer bons amigos, e aproveitar cada momento.
A gente só consegue se encontrar de verdade com conversa, com troca. Se você não me diz como gosta de ser amado, eu só vou descobrir aos poucos, com o tempo. Mas até lá, não quero que você se esconda ou deixe de ser quem é… Eu quero aprender com você.
A Espiritualidade não é precisamente uma busca!
Pode ser o resultado de uma busca!
A Espiritualidade é essencialmente a qualidade de ser-estar de um Sujeito Homem, e cada Sujeito Homem tem o direito de manifestar a sua Espiritualidade!
Ecologias de Mim
Sou feito de círculos concêntricos,
onde o eu se forma na dança do outro,
na casa, na rua, na pele dos dias,
na palavra que me disseram
e naquela que nunca ouvi.
No primeiro círculo, tocam-me os olhos,
as mãos que me embalam e moldam;
no segundo, cruzam-se caminhos,
ecos de vozes e silêncios de quem passa.
Mais longe, decisões sem rosto
alteram o chão onde caminho —
leis, rotinas, ausências e horários,
tudo aquilo que não vejo,
mas que me constrói por dentro.
No mais vasto dos mundos,
vive o tempo, o espírito, a cultura,
as ideias que nos formatam o sentir,
as crenças que pesam sobre o corpo
como uma herança invisível.
E entre cada camada de mim,
há um fio que me costura: a história.
O tempo a escorrer-me nos ossos,
a infância que volta,
a mudança que nunca cessa.
Ninguém tem a receita da "Felicidade". Quando pensamos nessa felicidade, buscamos ferozmente pela liberdade ou pela segurança, o que quase sempre são antagônicas, na proporção que buscamos a liberdade, perdemos a segurança e vice versa.
Não que isso seja receita mas, é algo sensível para análise.
Outro ponto importante para verdadeira felicidade é a manutenção da identidade, somados ao caráter e o destino.
Existe um mundo ideal para cada um indivíduo de acordo com o seu modo de vida muito peculiar. Buscar uma vida plena comparando com a vida de outra pessoa, é buscar a própria infelicidade.
A identidade é algo que nos torna únicos e ela é lapidada com o passar do tempo conforme o nosso modo de vida.
A vida nos apresentará situações do qual não teremos nenhuma interferência, como: época de nascimento, local de nascimento, meio familiar que está inserido, condição social familiar... Mas, através dessas situações decidimos um modo de vida pautado em decisões conforme o nosso caráter. O caráter é determinante nas escolhas que fazemos, e mostra o quando de autocontrole o indivíduo tem em relação as tentações, seduções da vida e a sua capacidade de discernir e decidir qual o melhor caminho.
Apesar de o destino não nos permitir escolhas, a manutenção do caráter junto com o poder de decisão transforma situações.
Com o mundo contemporâneo não podemos deixar de pontuar que houve uma perda significativa da "privacidade" estamos cada vez mais revelando a nossas intimidades, aumentando as nossas relações, mais quantidade do que qualidade dessas conexões humanas, relações muito rasas e que, com qualquer contrariedade a descartamos.
Hoje temos uma enorme facilidade em "descartar"pessoas, cultura do "cancelamento"
Quando deveríamos saber que toda relação é composta de 2 lados, o negativo e o positivo.
O negativo são os conflitos de identidade, as concessões que precisam ser feitas e acabamos assumindo alguns papéis, que se tornam laços e aí vem as obrigações do qual nos deixa limitados, "presos" diante de uma vasta oportunidade de novas conexões.
O positivo é que o ser humano foi feito para se conectar, uma conexão profunda nos acolhe, nos dá segurança, traz senso de pertencimento, onde não estamos sozinhos nos momentos desafiadores e mais do que nunca, precisamos uns dos outros sempre. Quando um cai o outro ajuda a levantar.
Diante de tudo isso, cabe-nos analisar...
Acredito que o maior segredo esteja em viver com honestidade consigo mesmo, lapidando a sua identidade, com caráter independente do que a vida lhe ofereça, tentando equilibrar liberdade e segurança, há tempo para tudo, ter sobriedade nas decisões, buscar conexões profundas e mantê-la, outro ponto, preserve a sua intimidade, sua individualidade. A ideia de democracia não significa compartilhar com o mundo algo que deve ser só seu, as "redes" não devem ser um confessionário global.
A verdade entusiasma
por ser bela e transparente,
mas também é um fantasma
que incomoda muita gente.
