O Poeta e o Passarinho

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O Inventário do Tempo

Trinta e sete anos é o tempo exato que a memória leva
para transformar o luto em monumento. As décadas passaram
como forças erosivas, mas falharam em desgastar o essencial:
o incêndio absoluto dos teus cabelos ruivos e a lucidez
cortante dos teus olhos verdes que desafiam o esquecimento.

Para quem vive da arquitetura das palavras, a tua ausência
não é um vazio abstrato, mas uma presença muito concreta,
uma matéria densa que molda o contorno de tudo o que escrevo.
O tempo limpou o excesso e o sentimentalismo ruidoso do peito,
deixando apenas a estrutura firme daquilo que nunca morre.

O que resta hoje é uma sobriedade clássica e definitiva,
a crônica de uma partida que fixou a tua imagem na eternidade.
Tuas cores vivas não desbotaram com o avanço dos invernos;
permanecem salvas da decadência dos anos pelo registro exato,
gravadas para sempre na folha em branco através da narrativa.

O mundo seguiu o seu curso perecível, confuso e esquecido.
Aqui, contudo, a tua existência permanece totalmente intacta,
guardada com zelo no ponto mais alto e frio da minha história.
Testemunha do tempo e também o guardião dessa eterna memória,
deixo registrado o fato que o destino jamais apagará.

AnjoPoeta

A Força da Linhagem: O destino moldou uma história mais firme e bonita quando vi crescer a minha Bruna, filha querida.Teu porte alto e tua presença morena e marcante trazem ao meu mundo uma nobreza constante,revelando a virtude que em tua alma habita.Tua inteligência brilha com passos seguros,um farol de lucidez para os dias futuros.Companheira fiel nas jornadas de cada estrada,tua mão junto à minha deixa a alma acalmada,construindo pontes sobre os tempos mais duros.No silêncio cúmplice do nosso caminhar,vejo a maturidade de quem sabe escutar.Você compreende o silêncio deste pai escritor,traduzindo em lealdade a matéria do amor,no laço mais nobre que a vida pôde me dar.O mundo lá fora desaba em pressa e ruído,mas ao teu lado o tempo ganha novo sentido.A ti, Bruna, dedico esta herança que escrevo,com o orgulho e o respeito que no peito levo,neste manuscrito que deixo hoje impresso e selado.AnjoPoeta

A Anatomia da Ausência. Há trinta e sete anos a realidade perdeu a saturação. O tempo, esse artífice paciente, tentou desbotar a moldura dos dias, mas fracassou diante da nitidez da memória: o incêndio suspenso dos teus cabelos ruivos e a profundidade quase mineral dos teus olhos verdes continuam intactos, imunes ao desgaste das décadas. Três décadas e meia não são um intervalo cronológico; são a geografia de uma falta que aprendi a habitar e a traduzir em prosa.O luto inicial, outrora ruidoso e cortante, cedeu lugar a uma sobriedade arquitetônica. Não há espaço para o lamento fácil ou para o adorno da rima vazia. O que resta é a crônica fria e digna de uma permanência silenciosa. A tua partida fixou os fatos; a minha escrita apenas os documenta, resgatando do esquecimento o contorno exato da tua existência.O mundo lá fora segue o seu curso caótico e perecível. Aqui dentro, contudo, a tua imagem permanece congelada em sua melhor versão, salva pelo registro cirúrgico da palavra.Documento o tempo, arquivo a saudade. AnjoPoeta.

A Primeira Luz: O tempo inaugurou uma nova e terna estrada quando vi nascer minha Andrea, a primogênita amada.Teus cabelos loirinhos trazem a própria cor do sol,revestindo os meus dias com o brilho do arrebol,nesta clareza doce que em meu peito fez morada.A tua risada gostosa ganha asas pelo vento,um som puro que cura qualquer dor ou tormento.É a melodia mais viva que a casa aprendeu a ouvir,o motivo mais sincero que me ensina a sorrir,guardado com orgulho no altar do meu pensamento.Ser o primeiro milagre que meus braços acolheram é o laço mais profundo que os anos me deram.Você abriu o horizonte do meu mundo de escritor,revelando a essência exata de um imenso amor,onde as minhas palavras inteiras se renderam.O mundo lá fora corre em seu rumo apressado,mas o teu riso dourado mantém o tempo parado.A ti, Andrea, ofereço cada linha que escrevo,com a força e o afeto que no coração levo,neste manuscrito eterno que fica agora selado.

O Eco da Linhagem:O orgulho de pai se traduz no que escrevosobre o filho amado que na mente levo.Victor Saraiva, um homem de bem,cuja inteligência vai muito além.Guerreiro de passos firmes e fortes,um lutador que desafia os nortes.Mas quando a distância impõe o seu véu,sinto a tua falta sob este meu céu.A saudade aperta, mas traz união,pois você habita no meu coração.Deixo o afeto e a saudade rimada,neste manuscrito que encerra a jornada.AnjoPoeta

O Peso do Tijolo

A fumaça do café barato subia em linha reta, ignorando a bagunça de papéis sobre a mesa. Do outro lado do bar, a voz de Arthur ecoava, terna e flutuante, recitando versos sobre o "inefável vazio do ser". Os jovens ao redor estalavam os dedos em aprovação. Arthur era o poeta oficial do bairro, um caçador de relâmpagos.

Benício, no entanto, olhava para as próprias mãos sujas de tinta preta. Ele não caçava relâmpagos. Ele carregava pedras.

— Você devia subir lá, Benício — disse a garçonete, deixando a conta. — Deixar um pouco de poesia sair desse peito ranzinza.

— Não sou poeta, Clarice — respondeu Benício, sem tirar os olhos do caderno. — Sou escritor.

— E qual a diferença? — ela sorriu, limpando o balcão.

— O poeta voa, Clarice. Eu preciso caminhar. O poeta resume o mundo em um suspiro. Eu preciso de trezentas páginas para entender por que um homem chora ao ver um sapato velho na calçada.

Ela deu de ombros e se afastou. Benício voltou ao trabalho. Ele estava há três semanas preso no terceiro capítulo de seu romance. Não buscava a palavra perfeita que rimasse com a dor; buscava o motivo exato pelo qual seu protagonista, um velho relojoeiro chamado Vicente, havia parado de falar com o filho.

Arthur, o poeta, aproximou-se da mesa, exalando o perfume do aplauso recente.

— Benício, meu caro! Sempre enterrado na lama da realidade. Por que não liberta sua escrita dessas amarras? A vida é efêmera, meu amigo! Um sopro!

Benício ajeitou os óculos e olhou para o amigo.

— A vida pode ser um sopro para quem olha de longe, Arthur. Para quem vive, ela tem o peso de um tijolo por dia. Seu poema é lindo, mas ele não explica como o Vicente vai pagar o aluguel amanhã de manhã.

Arthur riu, uma risada leve, e deu um tapinha no ombro de Benício antes de sair pelos fundos com seu séquito.

Benício ficou sozinho. A luz do bar começou a piscar. Ele pegou a caneta. Esqueceu as rimas, a métrica e as metáforas abstratas. Em vez disso, escreveu sobre o cheiro de graxa nas mãos de Vicente. Escreveu sobre o barulho mecânico dos relógios de parede preenchendo a solidão da casa. Escreveu o diálogo seco, doído, que o pai nunca teve coragem de dizer ao filho.

Hoje, o
meu luxo
é ter paz.

ENSAIO MÚSICAL.


Letra e Música: Félix di Láscio.


CANTIGA DE BOI.


O Boi
O boi,


O Boi tinha mandato.
Ninguém mandava no
Boi.
O Boi era dono do pedaço,
Não andava descalço,
Hoje lembranças
Perdida no velho espaço.


O Boi,
O Boi...


Sumiu da festa,
Ninguém sabe o seu paradeiro,
Tá enfeitado o terreiro. _bis


Boi,
Boi...


Da Serra Itapararica,
Boi que fugiu com
A Rita.
Boi dos manguezais,
Boi de Minas Gerais.


O Boi,
O Boi...


Boi do agreste, boi cabra da peste,
Não se meta lá por sul.
Sua fama é no Nordeste,
Boi do Agreste,
Boa Cabra da peste.


Boi,
Boi...


Se alevanta,
Se arriba,
Vai a Paraíba!.


Lá, Lalá
Lá, Lalá...


(Refrão)


Dez mil réis,
Dez mil réis..
Por um voto de cabresto.
Vendido até o Cesto.


Félix di Láscio, Poeta e letrista Brasileiro.


Postado em 17/07/2026 h. 20:15

ENSAIO POÉTICO


Dedicado a
Maria das Dores
(Dona Dorinha - Minha mãe)


POEMA
OU QUASE VERSO MATUTO


Félix di Láscio


Arruma tudo, vambora
qui hoje vai tê animaçan;
sigura na mão di Rosinha,
si ajeita ca bichinha,
qué prumode Dona Dorinha,
sabê qui voismecê
tem muito amô no coração!


Félix Di Láscio - Poeta e Pensador Paraibano
www.napoltrona.net | felixdilascio.facebook


Reeditado no dia 16/16 às 21:40

ENSAIO POÉTICO
Poema de Félix di Láscio.


PONTO DE QUESTÃO


Um novelo de linha
Ao ponto de tantas
interrogações:
“Ponto daqui e ponto
de lá...”


Não conseguiu se segurar.
E ficaram as questões
pendentes.
Pôs fim no assunto
e trancou.




Poeta e letrista brasileiro.
Postado em 29/05/2026 às 21h:00.

ENSAIO MÚSICAL:
Letra infantil. Félix di Láscio.


O TATU E O BURACO.


O Tatu,
Tátu, Tatu...
Roeu o buraco no
Chão,
Ele cavou, cavou
Usando suas patinhas,
Para depois esconder
O seu pinhão.


REFRÃO


{Cava, cava,
Tatu!
Faz uma toca pro Sul,
Esconde o seu focinho Azul.}


O Tatu,
É muito encabulado,
Faz gesto que está
Apressado.
Não para de trabalhar,
Faz túnel pra todo lado
Pra depois descansar.


Corre pra lá
Corre pra cá.


Passa o bicho
Passa a mão,
O tatu sumiu no
Buraco do chão - Bis


Onde está,
Onde está?
Daqui a pouco
Ele volta,
Querendo brincar.


Repetir

COADJUVANTE
ENSAIO POÉTICO


POEMA DE FÉLIX DI LÁSCIO


Torci o nariz


Porque não queria


ser somente um


coadjuvante.


Mas isso não é o caso:


O orgulho de um banguelo


é achar que pode


exibir os dentes!


Félix Di Láscio


Poeta Brasileiro


Postado em 27/02/2016 às 13:30h


Repostado 04/07/2026 às 20:45


Félix Di Láscio

SOLIDÃO DE GELO


Quando o silêncio
Da luz treme e acende,
Algo aparece e geme.
São esses gemidos que
Me apavoram,
São essas coisas que
Prendem,
Eu aqui e o mundo lá
Do lado de fora.


Nenhum teto
Resiste e desmorona,
E quando você dá por si,
Já tem perdido a
Carona.


Àh, àh, àh,
Àh, àh, àh...


Mãos frias,
Oceano Pacífico,
vento salpico.
Nenhum teto resiste à
Solidão.
Você sente,
Você sente,
Quando alguém esqueceu de
Pegar a sua mão.


Oh, oh, oh...
Oh, oh, oh...


Lágrimas de sol,
Girassol,
Solidão de gelo.
Bonitos são os seus
Cabelos.


Lá, lalá,
Lá, lalá...

ENSAIO POÉTICO
POEMA DE FÉLIX DI LÁSCIO


LÍNGUA PÁTRIA


Um homem branco
Pergunta ao nativo, às margens
Do rio:
— Fala tua língua fluente?
Aquele cidadão de origem das terras
das matas respondeu:
— Buá!!! buá!!! buá!!!
"Só o afluente do Rio Sanhauá."
— Ah!!! ah!!! ah!!!


Félix di Láscio, Poeta e Letrista Brasileiro.
Postado em 10/06/2019 às 10:05h
Repostado no dia 02/07/2026 às 20:30h

A TARTARUGA TUNGA
ENSAIO POÉTICO.


Infantil.


Poema De Félix di Láscio


A Tartaruga Tunga,
Devagar
no seu mundo.
Nem olhou por céu,
Tirou de mansinho ,
Nem contou os segundos.


Tunga, Runga, Lunga ,
Lunga, Runga ,Tunga...


Lá vem ela,
Mastigando os dentes,
Deu para perceber ,
O seu ar,
De contente!
Lá vem ela ,


Tunga, tunga,tunga,
Tunga, tunga , tunga...


Nas pressas ,ela esqueceu
a sua Sunga.


Tunga, Runga, Lunga,
Lunga, Runga, Tunga.




Félix di Láscio ,Poeta e letrista Brasileiro.
O poeta também,escreve para crianças.

"Tudo acontece conforme foi planeado, se der errado, é porque não foi levado em conta essa possibilidade. Lembra que até mesmo uma simples moeda tem duas faces."

“Você não gosta realmente de algo só por olhar, senão por experimenta-lo.”

Adore
Não na residência do alto,
mas na essência do magno,
Até sentir o resplendor
num tom suave,
o aroma que arrepia,
suado e prostrado
diante do arauto.


Sinto falta desses dias
em que me arrebatava
sem pesos,
só eu e o Eu Sou,
dançando, às vezes cantando,
às vezes escrevendo,
às vezes recitando as cantigas
que as nuvens me segredavam.


E eu parecia louco
corria sem rumo
e só parava
quando era tempo
de cair de joelhos.


Mas um dia,
desliguei o discernimento
e segui a vaidade.
Desde então,
nunca mais me vi.
__________________________________________
"Escrevo para lembrar que senti."
✒︎ Poetapegasus
© 2025

Rainha num tabuleiro cego,
por que te moves como peça descartável?


Já te despi das correntes invisíveis,
Já te mostrei o nome da liberdade…


Não te encurtes agora,
Não depois de te expandires em mim.


Há reinos no teu olhar,
E tu aceitas migalhas?


És excesso de beleza,
Para viver na sombra da mediocridade.
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Rabisquei Poesia

Quando se trata do nosso carácter, há sempre quem conte histórias falsas, levando meio mundo a duvidar de tudo sobre nós.