Nunca Diga que Ama uma Pessoa
Domingo de primavera. Depois de uma semana enterrado num escritório e de algumas noites oferecendo meu fígado aos deuses baratos dos bares, resolvi sair para tirar o mofo da alma. O sol fazia um trabalho honesto. Não prometia felicidade. Apenas lembrava que a pele ainda era capaz de sentir alguma coisa.
O parque estava cheio de gente satisfeita consigo mesma. Dá para reconhecer esse tipo à distância. Carregam diplomas como soldados carregam medalhas. Aprenderam meia dúzia de palavras elegantes, descobriram uma profissão rentável e passaram a acreditar que o universo inteiro cabe dentro do currículo. Falavam de carreira, mercado, investimentos, produtividade. Nunca da morte. Nunca do medo. Nunca daquele silêncio que aparece às três da manhã e pergunta se tudo isso valeu a pena. Talvez porque certas perguntas não caibam em salas de reunião.
Sempre achei curioso que uma pessoa possa estudar durante vinte anos e ainda não saber conversar sobre a única matéria obrigatória para todos: a condição de estar vivo.
Mas havia outros. Sempre há.
Não fazem alarde. Não precisam parecer inteligentes porque vivem ocupados demais tentando compreender. Olham para uma árvore e enxergam mais do que sombra. Olham para um velho e veem o próprio futuro. Olham para uma criança correndo e lembram que um dia também acreditaram que o mundo era infinito.
São pessoas perigosas para qualquer sociedade construída sobre distrações. Pensam na morte sem desespero, porque entendem que ela dá valor às manhãs. Pensam no amor sem transformá-lo em mercadoria. Desconfiam das respostas prontas e das certezas vendidas em palestras motivacionais.
E o mais bonito é que não vivem presos nessas profundezas.
São capazes de rir de uma piada idiota até faltar o ar. Sentam para tomar um café sem pressa. Observam a chuva escorrendo pela janela como quem assiste a um concerto. Fazem pequenas loucuras só para lembrar ao coração que ele ainda não virou uma máquina de bater ponto.
A maioria das pessoas escolhe um dos extremos. Ou vive afogada nas banalidades do cotidiano, anestesiada por contas, status e compromissos. Ou se perde em labirintos filosóficos até esquecer o sabor de uma tarde de domingo.
Talvez a sabedoria esteja justamente no meio do caminho.
Ter coragem suficiente para olhar o abismo sem desviar os olhos, mas também humildade para sorrir quando uma criança cai na grama e levanta rindo. Pensar na eternidade enquanto o café ainda solta fumaça. Conversar sobre a morte e, logo depois, admirar um pôr do sol como se fosse o primeiro.
Quando deixei o parque, percebi que os homens mais interessantes nunca foram os que tinham todas as respostas.
Foram aqueles que carregavam perguntas demais e, apesar disso, ainda encontravam tempo para brindar a vida, rir de si mesmos e sentir o calor manso de um domingo de primavera sobre o rosto.
No fim, talvez seja isso que nos salve. Não os diplomas, não as certezas, não as biografias cuidadosamente polidas para impressionar desconhecidos. O que nos salva é conservar a estranha capacidade de habitar dois mundos ao mesmo tempo: o das perguntas que jamais serão respondidas e o das pequenas alegrias que jamais deveriam ser subestimadas. Contemplar o infinito sem deixar de notar o aroma do café, o riso espontâneo de uma criança, a sombra fresca de uma árvore ou o dourado silencioso do fim da tarde. Porque a vida nunca foi apenas um enigma a ser resolvido. Ela também é um instante para ser sentido antes que desapareça.
O Reflexo Também Tem Uma Arma
A vidraça estava ali como todas as vidraças do mundo: limpa o bastante para fingir que era transparente e suja o bastante para esconder alguma coisa.
Parei diante dela.
Não porque quisesse me olhar.
Ninguém para diante de uma vidraça para se olhar. Isso é coisa de gente satisfeita, vendedor de roupa, sujeito que acabou de ganhar um emprego ou alguém que ainda acredita que o rosto tem alguma coisa a dizer.
Eu só estava passando.
Foi o reflexo que me fez parar.
Primeiro apareceu a minha silhueta.
Depois o rosto.
Depois alguma coisa que não combinava comigo.
A iluminação era ruim, o vidro tinha marcas, riscos, manchas e aquela sujeira fina que a cidade deposita sobre tudo como se cobrasse aluguel. Meu reflexo estava quebrado em vários pedaços.
O rosto num lugar.
O ombro em outro.
Um olho ligeiramente acima do outro.
A boca cortada por uma rachadura.
Parecia uma fotografia de família depois de uma discussão.
Fiquei olhando.
O reflexo também.
Aquilo começou a me irritar.
Não havia nada de especial em uma imagem quebrada. A cidade estava cheia delas. Pessoas quebradas também. Algumas usavam terno. Outras tinham diploma. Algumas tinham filhos. Outras tinham planos para o fim de semana.
A diferença é que as pessoas conseguem esconder melhor as rachaduras.
A vidraça não.
Ela não tinha autoestima.
Era uma vantagem.
Cheguei mais perto.
Foi então que percebi.
O reflexo não estava exatamente repetindo meus movimentos.
Minha cabeça inclinou um pouco.
A imagem demorou.
Um segundo.
Talvez menos.
O suficiente.
Pisquei.
Ele não.
Aquilo seria engraçado se não fosse tão desagradável.
Dei um passo para trás.
O reflexo continuou perto.
Foi aí que tive a impressão de que ele estava apontando alguma coisa para mim.
Não uma arma de verdade.
Seria mais simples se fosse.
Uma arma resolve a discussão.
O reflexo parecia apontar a própria verdade.
E isso é muito pior.
Fiquei olhando para aquele rosto dividido em pedaços.
Um rosto que eu conhecia.
Ou achava que conhecia.
Havia coisas ali que eu não lembrava de ter colocado.
Cansaço.
Rancor.
Pequenas derrotas cuidadosamente arquivadas.
Algumas pessoas que eu dizia ter esquecido.
Algumas decisões que eu chamava de necessidade porque covardia é uma palavra feia demais para certas ocasiões.
E havia também aquele velho sujeito que passava a vida dizendo que estava tudo bem.
O mentiroso profissional.
Eu.
O reflexo parecia saber.
Isso me incomodou.
A gente passa anos aperfeiçoando versões aceitáveis de si mesmo.
Aprende quando sorrir.
Quando apertar a mão.
Quando dizer “vamos ver”.
Quando dizer “não foi nada”.
Quando dizer “eu já superei”.
É um treinamento longo.
Quase uma carreira.
E então uma vidraça qualquer vem e estraga tudo.
Não há salário que pague isso.
Tentei olhar para o outro lado.
Uma rua.
Um carro.
Uma mulher atravessando.
Um cachorro urinando num poste.
A vida continuava oferecendo suas pequenas distrações.
O mundo é muito eficiente nisso.
Quando você começa a pensar demais, ele manda um cachorro mijar num poste.
Olhei para o cachorro.
Funcionou por três segundos.
Depois meu canto de olho voltou para a vidraça.
O reflexo continuava lá.
Esperando.
Não parecia zangado.
Isso seria fácil.
Parecia apenas decepcionado.
E não há nada mais ofensivo do que a decepção de alguém que não precisa dizer nada.
Fiquei imaginando quantas vezes eu havia passado diante daquela mesma superfície sem perceber.
Talvez todas as pessoas façam isso.
Talvez a cidade inteira seja construída de vidraças.
Portas de vidro.
Janelas.
Espelhos.
Telas de celulares.
Vitrines.
Carros estacionados.
Tudo refletindo alguma coisa.
Tudo devolvendo nossa cara em prestações.
E talvez seja por isso que ninguém olhe direito.
É mais confortável enxergar o preço de uma televisão na vitrine do que enxergar a própria expressão sobre ela.
Mais fácil admirar um carro do que perguntar quem está dirigindo.
Mais fácil procurar alguém bonito do outro lado do vidro do que descobrir quem está deste lado.
Afastei-me.
Desta vez o reflexo acompanhou.
Normal.
Finalmente.
Talvez eu tivesse imaginado tudo.
É uma explicação bastante útil.
A imaginação é o advogado de defesa dos culpados.
Fui embora.
Andei alguns metros.
Então olhei novamente.
Só pelo canto dos olhos.
Ele ainda estava lá.
Pequeno agora.
Fragmentado.
Quase irreconhecível.
Mas ainda apontando aquela coisa para mim.
A verdade.
Continuei andando.
Não olhei para trás.
Pelo menos não diretamente.
Porque algumas verdades não precisam que você as encare.
Elas sabem esperar.
E, quando você pensa que escapou, aparecem refletidas no vidro de um carro, numa janela escura, na tela apagada do telefone.
E ficam ali.
Sem disparar.
Sem gritar.
Sem pedir explicações.
Só apontando.
Até você descobrir que o sujeito do outro lado da vidraça não estava tentando matar você.
Estava apenas tentando impedir que você continuasse mentindo.
Aquele que sela suas janelas acabará malbaratando os raios do sol — uma luz que, projetada adiante, tenta prevenir as catástrofes ordinárias. O ser, quase imóvel sob o peso dessa renúncia lancinante, vê retardado seu próprio florescer. Ainda, os que detêm o saber, os floristas, tornam-se mais estrídulos que o próprio ceifador visível, cujo único labor é garantir que os campos permaneçam estéreis.
Se, possuindo asas, pudéssemos voar, isso seria uma fatalidade; o malévolo espírito humano ganharia forma e decoraria o céu de plumas vermelhas, pois os homens estariam ocupados decidindo quem seria Deus.
Uma criança perdida na aduana
Na fila fria da aduana vazia,
um carimbo ecoa, corta a nostalgia,
luz fluorescente, cheiro de papel,
e um mundo adulto que nunca foi céu.
Pequenos passos num piso riscado,
um nome trocado, um visto negado,
o guichê não olha, só pede razão,
mas a infância não cabe em formulário e mão.
Há bandeiras cansadas no vidro embaçado,
México distante num sonho quebrado,
Uruguai sussurra num vento lateral,
Colômbia sangra num mapa postal.
E a criança pergunta sem ter voz alta,
por que a fronteira sempre falta e assalta?
Se o mundo é um só, por que dividir?
Se o peito é caminho, por que impedir?
Um rádio distante fala em espanhol,
mistura de ordem, de medo e farol,
e o agente carimba sem nem perceber
que ali tem um universo tentando crescer.
Tem cheiro de estrada, de ônibus antigo,
de alguém que perdeu o próprio abrigo,
de um Renault velho cruzando a serra,
levando saudade que nunca se encerra.
E a criança espera — não sabe o quê,
talvez um abraço que o mundo esqueceu de ter,
talvez um sinal, uma mão no ar,
dizendo “pode ir, você pode passar”.
Mas a aduana é feita de tempo e parede,
de quem não entende a sede da rede,
e a infância ali vira só suspensão,
entre o “fica” e o “vai” sem tradução.
No fim, só restam selos no olhar,
e um mapa que aprende a não voltar,
mas mesmo perdida, insiste em sonhar:
que toda fronteira um dia vai respirar.
Foi pelo momento, plenamente absorto em mim mesmo, engendrando novas luzes como reflexo de uma alma puramente fugidia, minha alma, sustentada por meros caprichos mundanos que sutilmente elevam-na, que me vi atropelado e arrastado pela, por agora, vertical vontade alheia, impetuosamente me sopra ao ouvido sua inequívoca vontade. Miserável me tornei; foi-me pior seguir tal alento; não poderia, nem se quisesse, evitar a verticalidade. Mesmo pífio segundos, tornar-me-ei desamparado do ante deleite, ao alentado fomento do capricho alheio, toda a transcendentalidade ordinária, minha modesta, pois, havia perdido.
Saudades,é uma expressão de amor.
Pois se foras amor,o que seria essa dor?
Algo que consome e nos corroe por dentro,almas flageladas e dilaceradas;
Como um sentimento tão lindo,pode causar tanta tristeza?
Isso é amar? Ou morrer?
-Izadora Hoffmann
“Há uma diferença entre estar sozinho e habitar a própria solidão. A primeira dói; a segunda pode ensinar.”
— Juliana Hoffmann Liska
Aspiro por uma civilização guiada pela prática da razão crítica, mas iluminada pela sabedoria que reconhece os limites do próprio conhecimento."
"O valor não é uma lei do universo. É uma ferramenta social — uma régua que inventamos para medir os outros. O paradoxo terrível? Foi essa invenção arbitrária que nos convenceu de que precisamos ser medidos para existir."
O Amadurecimento do Espírito
Vencer não significa ter uma vida sem problemas, mas sim manter a paz no coração mesmo quando o mundo ao redor parece desabar. A maior conquista espiritual que podemos alcançar é a capacidade de passar por um dia difícil sem perder a fé, sem azedar o humor e sem deixar de acreditar no bem. Cada amanhecer nos desafia com pequenas lutas, mas também nos oferece o cenário perfeito para exercitarmos a paciência e a tolerância. Quando você consegue fechar o dia com a consciência tranquila e o coração agradecido, você alcançou a mais sublime das vitórias.
~~A MULHER QUE AMO~~
A mulher que amo é como uma estrela,
Aquela que é bem cintilante e atraente!
Dizem que brilha sobre as montanhas mineiras,
Mas que a origem do brilho vem do planalto central!
A mulher que amo é como a mais bela das criaturas,
Aquela que é bem dócil e arrebatadora!
Dizem que a sua beleza foi cultivada divinamente,
Mas que tal exagero foi selado para apenas um homem!
A mulher que amo é como um sorriso de menina,
Aquela que é bem dengosa, arteira e meiga!
Dizem que seu sorriso foi feito para dar tranqüilidade,
Mas que o seu lindo sorriso será sempre contido!
A mulher que amo é como estar presente e ausente,
Aquela que é bem marcante por sempre estar!
Dizem que a sua marca está no olhar transparente,
Mas que esse olhar será fatal apenas para um!
A mulher que amo é como a beleza invisível,
Aquela que é bela mas também inexplicável!
Dizem que sua morada está na Terra do Nunca,
Mas que apenas um pode chegar a essa terra!
- Ah, como quero encontrar o caminho para a Terra do Nunca!!!
~~ANJO ARREBATADOR~~
“Algumas pessoas passam pela nossa história. Outras deixam uma sombra tão profunda que continuam existindo mesmo depois da partida.”
— Juliana Hoffmann Liska
“Tenho dentro de mim uma biblioteca de pessoas que o tempo levou, mas que a memória recusou abandonar.”
— Juliana Hoffmann Liska
A arte não transforma ninguém de uma hora para outra; muda o jeito de olhar, e às vezes isso já basta para começar uma transformação.
A Vida é uma Casa de Câmbio
A vida é uma casa de câmbio: compra sonhos, vende estações. Recebe amores em moeda forte, devolve lembranças em pequenas frações.
O que ontem foi fortuna, hoje repousa sem cotação; mas há perdas que o tempo transforma na mais valiosa conversão.
E assim seguimos, entre partidas e retornos: estrangeiros do passado, cidadãos da recordação.
A vida é uma casa de câmbio: onde cada peso é meramente simbólico e cada dólar, uma idealização.
"Não se trata apenas de racismo. É, na verdade, o sintoma de uma inconsciência doente: a ilusão de uma pseudo-superioridade desumana. Esse orgulho cego escolhe ignorar o valor inestimável da nossa ancestralidade negra e indígena que, unida à herança portuguesa, molda nossa essência e nos define como nação."
Mente Calma
Uma mente calma não corre atrás de vento.
Não grita pra ser ouvida,
não empurra o rio pra ele correr mais rápido.
Ela entende que provar cansa,
que controlar machuca,
e que paz não se conquista na força.
A mente calma é como água:
se adapta, contorna a pedra,
mas não perde a essência.
Ela sabe que o mundo lá fora pode gritar,
mas por dentro... por dentro escolhe silêncio.
Escolhe limite.
Escolhe leveza.
Porque quem está em paz com si,
não precisa vencer discussão.
Precisa só continuar inteira.
“Pode parecer uma miragem no deserto, mas eu consigo enxergar a vitória no horizonte.”
Léo Pedacci ✍️
