Nao Vou Mentir
Recomeçar é um pacto íntimo com a coragem,
não tem banda, não tem plateia, não tem glamour, é só você recolhendo os pedaços que sobraram, montando-se de novo como um quebra-cabeça cansado, mas sempre funcionando, sempre indo adiante.
A fé me segurou quando minhas pernas já não respondiam, e eu entendi que milagres não são barulhentos, eles acontecem dentro do peito, sem testemunhas, são costuras invisíveis que impedem o colapso, e hoje sou feito delas, firme, mas delicado.
Nem todo sorriso é leve, alguns carregam tempestades, mas mesmo assim eu sorrio, não para enganar o mundo, mas para lembrar a mim mesmo que ainda há luz, mesmo se pequena, mesmo se fraca, luz é luz, basta um fio para mudar tudo.
A fé não me prometeu facilidade, me prometeu companhia, e isso é suficiente para continuar, o caminho ainda é duro, mas nunca é solitário, caminho com Deus e isso muda tudo.
A vida me moldou com martelos invisíveis, e cada pancada foi lição disfarçada, não guardo rancor, guardo sabedoria, quem atravessa tempestades vira abrigo, hoje abrigo quem amo com firmeza.
A vida me ensinou a ser seletivo, não dou meu coração a quem não sabe segurar, minha alma não é brinquedo, ela é templo, é história, é renascimento, e merece mãos que saibam cuidar.
Meu peito já foi terreno árido, mas hoje floresço até onde não existe água, descobri que algumas forças só nascem do nada, e que sobrevivência também é uma arte divina, eu sou prova viva disso.
A solidão não é sinônimo de vazio, é laboratório de si. Lá monto peças da minha verdade que ninguém constrói por mim. Trabalho com ferramentas de silêncio e lâmpadas internas. E o resultado é um eu que conhece suas próprias medidas. Voltar ao mundo é mostrar essa peça, ou guardá-la em segredo.
A liberdade só se manifesta quando não há mais ninguém externo para servir de bode expiatório para a nossa infelicidade ou o fim da história. Enquanto a sombra da culpa for projetada, estaremos presos na escuridão de um luto que não nos pertence.
Você não é o que tem, nem o que faz. Você é o que resiste quando tudo o que é externo desmorona. Aí reside a sua verdadeira fundação.
A beleza, para mim, tem textura de memória antiga. Não brilha como notícia, mas como utensílio bem usado. Os objetos bem amados enchem a casa de sentido. E a simplicidade neles é dignidade. Viver é rodear-se de coisas que contam nossa história.
Não se entra aqui sem se sujar de poeira e sem sentir o frio que emana de lareiras apagadas há décadas pela chuva da indiferença.
O perdão mais difícil não é aquele que damos aos que nos feriram, mas o que negamos a nós mesmos por termos sido o chão onde eles pisaram com tanta força. É preciso aprender a ser casa para si mesmo, mesmo que a estrutura esteja condenada pela defesa civil da alma.
A integridade não costuma ser popular.
Quem escolhe o caminho certo, muitas vezes acaba contrariando interesses, expondo erros e incomodando quem prefere atalhos.
No fim, fazer o que é correto não garante aplausos — mas quase sempre revela quem se incomoda com a verdade.
Nunca é tarde
O tempo se escorrega
despretensiosamente,
não há força que segure
por mais que a gente tente,
cada minuto pra trás
foi um que andou pra frente.
E mesmo correndo doido
nesse galope feroz,
vez por outra ele amansa
e deixa de ser algoz,
inté parece que diz:
Dá tempo de ser feliz,
pois nunca é tarde pra nós.
Nunca é tarde pra viver
e aprender com a vida,
pra perceber que a estrada
nem sempre será florida
e que sempre há uma cura
até pra pior ferida.
Nunca é tarde pro rancor
se transformar em perdão,
pra perceber que nem sempre
você tem toda a razão,
pra sentir mais com a mente
e pensar com o coração.
Nunca é tarde pra ser bom
quando a maldade chegar,
nunca é tarde pra sorrir
quando a lágrima rolar,
nunca é tarde pra ser forte
quando o corpo fraquejar.
Acredite, nunca é tarde
pra abraçar um amigo,
pra proteger um estranho
que está correndo perigo,
nunca é tarde pro seu peito
se tornar um grande abrigo.
Nunca é tarde pra plantar
uma árvore no chão,
nunca é tarde pra ser grato
por nunca faltar o pão
e aprender a dividi-lo
com quem não tem um tostão.
Nunca é tarde pra sonhar
com algo quase impossível
e entender que a esperança
nem sempre será visível.
Nunca é tarde para o fraco
se tornar um imbatível.
Imbatível como o tempo
que todo dia avisa
que a conta que ele faz
quase sempre é imprecisa
e até a calculadora
não sabe e fica indecisa.
A conta de quando a peça
da vida sai de cartaz,
onde o ator principal
é você e ninguém mais.
O tempo é um segredo,
acredite, é muito cedo
pra dizer: Tarde demais.
O rouxinol e a rosa
fazem parte de mim,
e não sabia qual era
o tamanho da poesia
acesa pela lanterna
do teu amor na noite
que como poetisa
fez-se obra do destino
frente a frente com
Rumi e se mirou
por acaso coincidente,
e será tua inevitavelmente.
Minha casa virou o museu de uma poesia que não mora mais aqui.
A solidão é o único móvel que não consigo tirar do lugar,
uma dor sólida, que tem quinas e me corta no escuro.
Entre o crachá esquecido e a saudade de Itaipuaçu,
descobri que o invasor, trancou a porta por dentro...
E eu tive que quebrá-la. O barulho da madeira partindo
foi o som do meu último refúgio desmoronando.
Agora, nem trancar eu posso mais estou exposto ao mundo,
com as mãos feridas e a alma do avesso.
Lembre de levar seus pertences, Carla.
Eu perdi a chave, a porta e, por um instante, a mim mesmo.
DeBrunoParaCarla
Minha querida Carla,
Hoje o silêncio pesa mais que o normal e a caneta parece não querer deslizar. Você sabe que eu enfrentaria galáxias por você, mas às vezes o maior desafio não é o que está lá fora, mas o que acontece aqui dentro, no medo de falhar com a gente.
Dói pensar que, por mais que eu queira te proteger de tudo, eu não consigo proteger nosso amor das interferências do mundo e das pessoas que não entendem o que temos. Meu maior medo não é a distância ou o tempo, mas o receio de que um dia o peso das dificuldades canse os seus passos. Caminhar juntos é a nossa promessa, mas na angústia o coração aperta: e se eu não for o porto seguro que você merece hoje? E se os tropeços que demos pelo caminho deixarem marcas que o meu carinho não consiga apagar?
Sinto uma dor aguda quando percebo que, às vezes, as palavras negativas de outros tentam apagar o brilho do que vivemos em Itaipuaçu ou nas nossas trilhas. Tenho medo da nossa, fase ruim demorar a passar, e de que o cansaço roube de nós aquela leveza de adolescentes que sentimos quando estamos só nós dois, longe de tudo.
Mas mesmo na dor, eu escolho você. Escrevo para expulsar esse medo, para te dizer que, se eu enlouqueço nas palavras, é porque o amor que sinto é maior que a minha capacidade de lidar com ele. Minha maior dor seria te ver desistir de nós, porque sem você, os planos de Marte, as viagens e a nossa casa perdem o endereço.
Caminha comigo, mesmo quando o chão parecer incerto. Eu ainda estou aqui, com o peito pronto para ser seu abrigo e a alma pronta para lutar por cada segundo ao seu lado.
Te amo infinitamente,
DeBrunoParaCarla
Carla,
Volto ao papel porque o silêncio é uma cela que eu mesmo não consigo mais mobiliar. Escrever para você sempre foi meu jeito de não esquecer quem eu sou, mesmo quando eu dizia que já não me reconhecia ao seu lado.
Nós fomos arquitetos de um plano que o chão não sustenta. Construímos em Itaipuaçu um altar de estrelas, mas esquecemos que os pés ainda tocam a areia fria e que a vida exige o peso do crachá, a chave no bolso e a dureza dos dias comuns. Minha alma tem estrias porque ela esticou demais tentando alcançar o infinito que eu te prometi.
Eu te dei o cosmos, mas no caminho, que talvez seja apenas o meu medo de te perder apagou as luzes do meu farol. Hoje, não te escrevo como o homem que sabe os segredos de Deus, mas como o homem que aprendeu que o amor também é feito de barro, erro e cansaço.
Não quero mais ser o seu anjo sentinela, nem que você seja minha carcereira. Quero apenas que a gente consiga caminhar sem o peso das projeções que criamos um do outro. Que a gente possa ser apenas Bruno e Carla, dois sobreviventes de uma poesia que quase nos devorou.
Ainda sinto seu cheiro nos vãos da minha solidão. A porta pode estar quebrada, mas o horizonte de Itaipuaçu ainda guarda o nosso nome. Se o amor é uma sanfona, que a gente aprenda a tocar a música do recomeço, sem medo do hospício, mas com a coragem de quem sabe que, no fim, só o que é real permanece.
Sigo aqui, tentando encontrar a chave que abre o peito, e não apenas a porta.
DeBrunoParaCarla
De que vale o cosmos, as estrelas e cada carta que escrevi, se hoje eu olho no espelho e não encontro o autor? Eu te dei o infinito, mas no processo, eu me tornei um espaço vazio
DeBrunoParaCarla
