Nao Vim para Satisfazer suas Expectativas
Sabor Maresia
Decorei o perfume do teu corpo sem querer,
e desde então não soube mais te esquecer.
Procurei em flores, na chuva, no mar,
mas teu aroma não se deixa imitar.
Tens cheiro de vento beijando o litoral,
doce e salgado, divino, ancestral.
Brisa serena, desejo contido,
mistério guardado, segredo escondido.
Sabor Maresia... assim te nomeei,
pois nome melhor eu nunca encontrei.
Não é perfume, essência ou flor;
é pele que veste o próprio amor.
Será que existe em algum lugar
um frasco capaz de te engarrafar?
Ou foi o mar, com ciúme de ti,
que fez teu perfume nascer só ali?
Se fecha os olhos, ainda posso sentir
essa lembrança insistindo em florir.
E toda fragrância que o mundo me traz
perde-se inteira... jamais te refaz.
Porque teu cheiro não mora no ar,
nem em jardins, nem em qualquer mar.
Mora na ausência que insiste em ficar,
e em cada saudade que vem me visitar.
Se um dia perguntarem o que nunca esqueci,
não direi teu nome, nem falarei de ti.
Direi apenas, com um sorriso fugaz:
"Conheci uma vez...
alguém que tinha sabor de maresia."
Onde o Sonho Não Tem Medo
As entrelinhas jamais mentiram,
foram os silêncios que primeiro falaram.
O suspense vestiu-se de luar,
mas os fatos, discretos, vieram revelar.
Nunca fui feita para esperar,
há verdades que recusam se calar.
Pois viver de mistério é sobreviver,
quando a alma só deseja acontecer.
A realidade ergue muros ao redor,
faz do perto um caminho bem menor.
Afasta os passos, aprisiona a emoção,
e ensina saudade ao próprio coração.
Por isso escolho o país do sonhar,
onde ninguém pode me proibir de ficar.
Ali, teu nome é abrigo e clarão,
escrito em segredo na palma da mão.
Se minhas palavras tocaram tua dor,
não nasceram da falta de amor.
Nasceram do peso de um querer calado,
que aprendeu a existir do lado errado.
Então me escuta, sem medo de ver:
é no sonho que ainda encontro você.
Lá o impossível esquece o próprio nome,
e o tempo, por um instante, não nos consome.
Não peças ao destino outra direção,
nem desafies os ventos da razão.
A vida, aos poucos, tem me ensinado
que até o caos pode andar compassado.
Hoje abraço o fogo sem me consumir,
aprendo a sentir antes de partir.
Minha intensidade já não quer vencer;
ela apenas deseja florescer.
Porque descobri, no silêncio do mar,
que a força não está em deixar de amar.
Está em guardar, como um segredo profundo,
o sonho mais bonito que não cabe no mundo.
As Lágrimas que Não Caem
Já sentiu a tristeza chegar sem fazer alarde,
como a noite abraçando o fim de uma tarde?
Ela entra sem pedir licença ou perdão,
faz morada no peito e silêncio no coração.
Há dias em que tudo parece pesar,
e a alma só deseja o direito de chorar.
Mas meus olhos aprenderam o idioma das secas,
como rios perdidos entre lembranças desertas.
Não sei por que sou assim, tão fechada em mim,
nem quando o silêncio passou a morar aqui.
Talvez eu tenha aprendido, sem sequer perceber,
que algumas dores sobrevivem sem nunca dizer.
Não sei o que sinto, nem sei explicar,
só sei que há um vazio difícil de nomear.
É um aperto no peito, um nó na respiração,
uma ferida invisível sangrando o coração.
Dentro de mim, tempestades rompem o horizonte,
mas o céu dos meus olhos jamais se desmonta.
O pranto se perde antes mesmo de nascer,
como se até as lágrimas tivessem medo de viver.
Quis chorar...
Mas até o choro parece ter me esquecido.
Enquanto o mundo pergunta se está tudo bem,
eu visto um sorriso e respondo baixinho: "sim".
Ninguém escuta o barulho do que desaba por dentro.
E talvez o mais cruel não seja a tristeza,
mas querer desabar e permanecer de pé;
sentir a alma implorando por alívio,
enquanto o peito aprende, em silêncio, a sofrer.
Então sigo...
Carregando um oceano inteiro preso nos olhos,
uma tempestade acorrentada na alma,
um inverno escondido entre os meus versos
e um coração que descobriu, tarde demais,
que existem lágrimas que nunca tocam o chão.
Elas escorrem por dentro,
afogam o que ainda resta de luz,
fazem da esperança um sussurro distante
e da saudade uma morada.
Porque nem todo choro molha o rosto.
Há lágrimas que escolhem o silêncio.
E são justamente essas...
as que mais doem.
Conexão
Isso se chama conexão.
Não nasce do acaso,
nem se explica pela razão.
É quando duas almas cansadas
encontram repouso no mesmo coração.
Feridas pelo tempo,
pela ausência e pela solidão,
descobriram, uma na outra,
o mais raro abrigo:
a paz da conexão.
Não precisam estar juntas
a cada amanhecer ou anoitecer,
pois há laços que desafiam a distância
e continuam vivos sem se perder.
A verdadeira presença
não se mede pelo toque da mão,
mas pelo silêncio que conforta,
pela calma que invade o coração.
Eram intensas demais
para viver pela metade,
romperam as velhas correntes,
abraçaram a própria liberdade.
Escolheram caminhar sobre os muros,
onde poucos ousam permanecer,
pois quem enxerga além dos limites
aprende uma nova forma de viver.
Talvez o mundo chame de acaso,
talvez alguém diga que é destino.
Mas há encontros que não pedem explicação,
apenas seguem o mesmo caminho.
Porque existem almas
que se reconhecem antes mesmo do olhar,
como se o universo, em segredo,
tivesse esperado o momento de as fazer encontrar.
Se existe um nome para isso,
eu não preciso procurar.
Algumas histórias nasceram para ser sentidas,
não para o mundo explicar.
Isso se chama conexão:
quando duas almas intensas,
cansadas de viver pela metade,
encontram, uma na outra,
o infinito da liberdade.
Conspiração das Almas
Não foi o acaso.
O acaso não conhece nomes,
não atravessa tempestades,
não costura destinos
com fios invisíveis de eternidade.
Foi algo maior.
Talvez o silêncio
que o universo guardou
até encontrar duas almas
que já se procuravam
muito antes de aprenderem a existir.
Cansadas.
Não apenas do tempo,
mas de viver pela metade,
de vestir sorrisos incompletos,
de chamar de paz
o que nunca passou de saudade.
Então aconteceu.
Sem promessas.
Sem alarde.
Sem a necessidade de explicar.
Porque certas conexões
não chegam...
elas despertam.
E, de repente,
o mundo ficou menos pesado.
Não porque os problemas partiram,
mas porque havia alguém
capaz de dividir o peso
sem carregar as correntes.
Nunca precisaram estar juntas
para permanecerem presentes.
Há presenças
que moram na lembrança,
na paz inesperada,
no sorriso que surge sem motivo,
na estranha certeza
de que existe um lugar
onde a alma sempre volta.
Escolheram caminhar sobre os muros.
Nem deste lado,
nem do outro.
Porque quem ama a liberdade
não aceita viver aprisionado
pelos limites que o medo construiu.
Duas almas intensas,
incapazes de caber
em sentimentos rasos.
Duas tempestades
que descobriram
que o verdadeiro milagre
não era encontrar calmaria...
Era encontrar alguém
que dançasse sob a mesma chuva.
E talvez seja isso
o segredo que o universo
jamais revelou por inteiro:
existem pessoas
que não entram na nossa vida.
Elas retornam.
Como o mar
que sempre reconhece a areia,
como a lua
que nunca esquece o oceano,
como o vento
que sabe exatamente
onde cada folha deve repousar.
Porque algumas almas
não se encontram.
Elas apenas se reconhecem,
como quem finalmente lembra
de uma promessa feita
antes mesmo do tempo aprender
a contar os dias.
O Traço que o Mundo Não Leu
Quando por tua alma ousei caminhar,
sem pressa, sem medo de me perder,
vi cada detalhe em silêncio cantar,
como estrelas que aprendem a amanhecer.
Entre teus contornos, tão belos, enfim,
havia um traço que escondias de mim;
julgavas defeito, motivo de dor,
quando era o mais raro sinal de esplendor.
Foi nele que o tempo escreveu poesia,
com tinta de luz e perfume de mar;
o mundo chamava de melancolia,
mas eu o chamava de lar.
Mentiram-te tanto, fizeram crer
que eras menos por seres assim;
mas quem nunca soube o que é realmente ver
jamais compreenderia teu jardim.
A beleza não mora na forma perfeita,
nem vive acorrentada à ilusão;
ela nasce na marca discreta,
que revela o idioma do coração.
Por isso, não escondas o que és,
nem deixes teu brilho partir;
pois o traço que baixava teu olhar
foi o primeiro a me fazer sorrir.
Se Deus desenhou teu rosto em segredo,
foi para que ninguém pudesse copiar;
e aquilo que chamavas de medo
era o mais belo motivo para te amar.
Porque a perfeição é fria, passageira;
já o encanto verdadeiro não tem fim.
E foi nesse pequeno traço, à tua maneira,
que a eternidade sorriu para mim.
Sem Precisar Ser Menos
Às vezes, a maior cura vem de alguém
que simplesmente não exige que você seja menos.
Menos intensa, menos sonhadora,
menos você.
Alguém que não tenta mudar aquilo que você é,
que não julga a sua maneira de ser feliz,
que não critica a criança que ainda mora em você,
mas aprende a brincar com ela também.
Alguém que te faz sentir protegida,
mesmo quando é você quem sempre quis proteger.
Que olha para as suas partes mais frágeis
e, em vez de querer consertá-las,
escolhe ficar.
Que queira conhecer tudo sobre você:
seus medos, suas manias, seus silêncios,
as pequenas coisas que fazem seus olhos brilharem
e até aquelas que você quase nunca conta.
Alguém que te olhe e pense, em silêncio:
“Caramba… que sorte a minha
ter essa pessoa na minha vida.”
Que queira estar perto,
mas nunca perto demais.
Que saiba permanecer
sem sufocar,
cuidar sem prender,
amar sem exigir.
Porque talvez a maior forma de cura
seja encontrar alguém
diante de quem você não precise diminuir a própria luz
para que ela se sinta confortável.
Alguém que simplesmente diga, com a presença:
“Eu gosto de você assim.
Inteira.
Intensa.
Livre.
E não quero que você seja menos
só para caber na minha vida.”
E que, nos dias em que você não souber ser forte,
não te cobre coragem.
Que saiba sentar ao seu lado no silêncio,
sem pressa de encontrar respostas.
Que não tente transformar suas lágrimas em fraqueza,
nem seus medos em defeitos.
Alguém que entenda que cuidar
também é permanecer quando não há nada para consertar.
Que não precise de uma versão perfeita de você,
apenas da sua versão verdadeira.
Porque talvez seja isso que torna alguém especial:
não a capacidade de salvar você,
mas a delicadeza de fazer você perceber
que nunca precisou ser salva de quem é.
Porque algumas pessoas não chegam para mudar nossa vida; chegam para nos lembrar que não precisamos mudar quem somos para sermos amados.
Cartografia do Teu Universo
Há qualquer coisa no teu olhar
que eu ainda não sei nomear,
como se o céu, distraído,
tivesse escolhido em ti morar.
Teus olhos guardam constelações
que não aparecem em nenhum mapa,
e eu, sem perceber,
me perco onde a tua luz escapa.
Há um silêncio na tua voz
que diz mais do que qualquer palavra,
um jeito de sorrir de canto
que desarma aquilo que eu guardava.
E o teu cheiro...
não sei se é perfume ou lembrança,
mas fica no ar depois que partes,
como uma promessa que não cansa.
Talvez seja isso que me encanta:
não saber exatamente o que acontece,
só sentir que, quando você chega,
alguma coisa em mim floresce.
Teu toque não precisa permanecer
para deixar seu caminho em mim;
há gestos que duram segundos
e, ainda assim, parecem não ter fim.
Se o universo tem seus mistérios,
talvez você seja um deles.
Porque quanto mais tento te entender,
mais bonito fica não saber.
E se algum dia me perguntarem
onde encontrei o meu lugar,
não direi teu nome.
Apenas apontarei para o céu
e deixarei o silêncio explicar.
Cor de Marte
Há uma cor que não existe
nas paletas que conheço,
um vermelho antigo, quase secreto,
que parece guardar o avesso
de tudo aquilo que não confesso.
É a cor de Marte,
distante, silenciosa,
que atravessa milhões de quilômetros
sem jamais pedir passagem,
como uma lembrança teimosa
perdida na imensidão da paisagem.
Não é vermelho de rosas,
nem de fogo, nem de paixão.
É vermelho de poeira,
de tempo, de solidão,
de um planeta que aprendeu
a carregar cicatrizes
sem perder a própria direção.
Talvez por isso eu goste tanto dela.
Porque há beleza
naquilo que o tempo transforma,
naquilo que um dia foi diferente
e hoje carrega outra forma.
Marte não precisa ser azul
para ser bonito.
Não precisa de oceanos
para esconder seus abismos.
Basta existir,
vermelho e distante,
guardando em seu silêncio
mil histórias que ninguém ouviu.
E talvez seja essa
a verdadeira cor de Marte:
a cor de tudo aquilo
que sobreviveu ao tempo
e, mesmo depois de perder tanto,
ainda consegue iluminar o céu.
Uma cor que não pede para ser entendida.
Só para ser contemplada.
ENTRE O FOGO E A TEMPESTADE
Se fosse simples, bastaria dizer:
“é paixão, é querer, é não saber esquecer.”
Mas há sentimentos que a língua não alcança,
e o silêncio, às vezes, revela mais que a esperança.
Você é a tempestade que chega sem avisar,
o céu que escurece só para depois clarear.
É o fogo que chama, mesmo sabendo que arde,
aquela vontade que cresce quando a razão já é tarde.
Você mora no intervalo de um pensamento,
entre o que se cala e o que vira sentimento.
É onde a razão lentamente perde o seu lugar,
e o desejo, em segredo, começa a despertar.
É o coração esquecendo o próprio compasso,
a respiração procurando um pouco mais de espaço.
É aquela presença que, mesmo distante,
faz qualquer silêncio parecer inquietante.
Talvez seja loucura. Talvez seja acaso.
Talvez seja apenas o destino ensaiando o primeiro passo.
Mas existem loucuras que não pedem cura,
porque certas vontades têm sua própria ternura.
E se alguém perguntasse o nome disso tudo,
talvez a resposta se escondesse no absurdo:
não é apenas querer, nem simples paixão…
é quando alguém encontra morada dentro de uma inquietação.
“Onde o amor é suficiente, quase não se percebe o Direito; onde ele falta, percebe-se por que o Direito existe.”
NÃO CRIE SEUS FILHOS PARA PRECISAREM DE VOCÊ PARA SEMPRE
“Passei muitos anos querendo proteger meu filho de tudo que pudesse feri-lo. Até entender que meu verdadeiro dever não era impedir suas quedas, mas amá-lo de um jeito que, quando eu não estivesse mais aqui, ele ainda encontrasse forças para se levantar.”
— Goreth, personagem de Ender: Genesis Protocol
Obra: Ender: Genesis Protocol
Autor: Jonas Saul P. Sodré
@Jonassaul.ofc
Não me ofende que tua opinião política seja contrária à minha. Se tens respeito, tens minha estima. Pois, se há algo de que estou plenamente convicto, é que a cortesia não pertence à esquerda nem à direita; ela é própria dos homens civilizados.
