Nao Tente Adivinhar o que
"O amor verdadeiro não se reduz a liberdade de ir. Se manifesta na vontade de permanecer e construir."
"Respeitar a partida não significa que amar é partir. É saber diferenciar o último gesto do sentimento que o precede."
"Quem desiste ao primeiro sinal de dificuldade não ama menos — simplesmente não amou o suficiente para lutar."
"A verdadeira nobreza não está em saber ir, mas em saber ficar e reconstruir quando tudo parece ruir."
Talvez chegue o dia em que eu simplesmente deixe de elogiar uma mulher, não por falta de admiração, mas por medo. Medo de que uma palavra sincera seja distorcida, que uma gentileza seja vista como uma ameaça e que uma atitude inocente se transforme em um problema sério. É triste pensar que estamos chegando a um ponto em que até um elogio precisa ser pensado, medido e calculado. Se continuarmos assim, talvez o maior prejuízo não seja deixar de elogiar, mas perdermos, aos poucos, a liberdade de sermos espontâneos uns com os outros.
Ivo Mendes Morais
"Um dia eu decidi que não queria mais querer querer alguém, achei motivos para justificar o meu não mais querer e, aos poucos, consegui não querer alguém que um dia quis, conseguindo assim não querer mais ninguém, embora talvez em algum momento da vida eu volte a querer querer alguém."
Amar Não É Pecado
Amar jamais será errado, jamais será pecado, jamais será perversão. O amor entre duas pessoas capazes nunca será um crime, ainda que leis retrógradas, ignorantes, preconceituosas e criminosas tentem assim torná-lo. Não há barreiras que impeçam sentimentos, desejos e relações consensuais entre adultos conscientes ou adolescentes iniciando suas vidas sexuais e afetivas.
Não importa se a relação é entre duas mulheres, dois homens, um homem e uma mulher, se são pessoas não binárias ou binárias com não binárias. Nada disso impede ou torna um sentimento, um desejo ou uma relação menos digna, menos real, menos válida e, muito menos, menos verdadeira. O amor não vê gênero, classe, cor da pele, o valor que se tem guardado no banco e nem a aparência. O amor apenas é, e não tem como fugir dele. Ainda que tente, o máximo que conseguirá é a tristeza e o arrependimento de não ter vivido o que era seu por direito, assim como a tristeza de uma vida falsa, camuflada e dominada por medos inúteis.
A vida no armário não é vida, assim como fugir do que sente não apaga o sentir, apenas o amplia. Como mostra a psicanálise há séculos, tudo o que reprimimos cresce. A sombra, que é tudo aquilo que escondemos, muitas vezes até de nós mesmos, devora aqueles que tentam, com todas as forças, reprimi-la. É como uma mola que você aperta e, fatalmente, terá que soltar em algum momento, só que, ao invés das suas mãos e possivelmente também os seus braços, machucará a sua alma, e esses cortes podem nunca cicatrizar.
- Marcela Lobato
Não há nada mais bonito que uma arte nascida de uma dor genuína. Por isso "artistas torturados" costumam ser gênios em suas artes.
- Marcela Lobato
Quimeras
Uma nuvem noturna pairava sobre ele
Dia e noite
Noite e dia.
Não via solução pras dores de seu coração.
Já tentara de tudo:
Gritara... ficara mudo.
Sorrira... chorara...
Nada adiantava.
No meio de tudo isso,
deu-se conta de que ninguém se importava...
Começou a duvidar de que a vida não era nada do que sonhara...
Quimeras...
Quem sabe a realidade de todos eram puros devaneios?
Tentavam todos se equilibrar na corda bamba...
Lutar contra a corrente...
Escapar da areia movediça que aos poucos os engolia.
Talvez fosse pura utopia a existência de um lugar onde reinasse dia e noite a alegria.
Aceitou então seu trágico destino: viver entre faces confusas, jogar os dados, consolar-se com perguntas sem respostas... um trevo de quatro folhas de ouro no pescoço... torcer para ganhar as apostas...
Um laço invisível, astúcias astuciosas sempre em ação...
A bater no ritmo da roleta, então, acostumou-se, seu coração.
*Aquilo que o tempo não consegue levar.*
O bar tinha apenas três mesas ocupadas. Um casal discutia em voz baixa no canto, um homem dormia abraçado ao copo como se aquilo fosse uma espécie de documento de identidade, e eu estava no lugar de sempre, perto do balcão, ouvindo uma música antiga sair do junkbox com aquele som cansado de quem também já viveu mais do que deveria.
O dono do bar limpava um copo que nunca parecia ficar limpo. Talvez fosse uma mania. Talvez fosse uma forma de passar o tempo sem precisar pensar nele.
Pedi outra dose.
Não porque precisava beber. Isso seria uma explicação simples demais. Às vezes a gente não procura o álcool. Procura um intervalo. Um lugar onde ninguém pergunte quem você se tornou depois de tantos anos tentando ser alguém.
Fiquei olhando aquelas pessoas espalhadas pelo salão e pensei que todo bar é uma pequena sala de espera.
Cada mesa tem alguém negociando consigo mesmo.
Tem gente tentando esquecer uma conversa que nunca teve coragem de iniciar. Tem gente comemorando uma vitória que já perdeu o sentido. Tem gente rindo alto apenas para não ouvir o próprio silêncio.
Eu conheço bem esse tipo de gente.
Conheço porque já sentei em todas essas cadeiras.
Existe uma despedida que acontece sem barulho. Ela não chega anunciada. Não leva malas. Não deixa bilhete em cima da mesa.
Ela apenas começa a diminuir alguma coisa dentro da gente.
Um dia você percebe que já não ri como antes. Que alguns sonhos perderam a força. Que aquela vontade quase irresponsável de mudar tudo foi substituída por uma lista de desculpas bem organizadas.
É assim que a vida costuma vencer.
Não destruindo.
Adaptando.
Ela não precisa arrancar sua coragem. Basta oferecer conforto suficiente para que você mesmo entregue.
A tragédia não está nos cabelos brancos, nas rugas ou nos anos acumulados.
A tragédia é quando alguém olha para dentro e percebe que virou exatamente aquilo que prometeu nunca ser.
Uma pessoa aceitável.
Uma pessoa que aprendeu a engolir a própria indignação para manter a mesa organizada, o emprego seguro e a fotografia da família sem rachaduras.
Aos poucos, a tempestade vira previsão do tempo.
E depois a culpa vai para os anos.
Como se o calendário tivesse assinado os contratos por nós.
Mas a verdade é menos bonita.
Foram pequenas escolhas. Pequenas desistências. Pequenas covardias guardadas como se fossem maturidade.
O homem do canto pediu mais uma bebida. O casal foi embora sem se despedir. A música mudou no junkbox.
Eu continuei ali.
Pensando que talvez o maior perigo da vida não seja perder tudo.
Talvez seja conservar tudo e perder a si mesmo no processo.
Porque o tempo realmente leva algumas coisas.
Leva a juventude.
Leva a força.
Leva o corpo devagar, sem pedir permissão.
Mas existe uma parte que ele não consegue tocar.
A parte que ainda deseja.
A parte que ainda se revolta.
A parte que ainda é capaz de errar por vontade própria.
Essa parte não morre com o tempo.
Morre quando a gente abandona.
Então eu levantei o copo, não como uma celebração, mas como um aviso para mim mesmo.
Ainda havia alguma coisa ali.
Alguma coisa imperfeita.
Alguma coisa que não tinha aceitado completamente a derrota.
E talvez seja isso que mantém alguns de nós de pé.
Não a esperança.
A esperança é uma palavra muito bonita para uma noite tão cansada.
Talvez seja apenas a recusa silenciosa de entregar tudo.
Porque no fim das contas, o tempo leva apenas o corpo.
O resto...somos nós que deixamos para trás.
Não é egoísmo pensar em si.
Às vezes, passamos tanto tempo nos colocando em segundo lugar, fazendo pelos outros, compreendendo, ajudando e abrindo mão das nossas próprias necessidades… que esquecemos de nós.
E então percebemos algo importante: nem todo mundo vai fazer por nós aquilo que fazemos por eles. Não necessariamente por falta de amor, mas porque cada pessoa está ocupada vivendo a própria história, cuidando das próprias necessidades e fazendo suas escolhas.
Por isso, cuidar de si não é deixar de amar o outro. É simplesmente parar de se abandonar em nome dele.
Você também merece a mesma atenção, cuidado e consideração que oferece ao mundo.
*O GATO, OS MORTOS E A ÚLTIMA PÁGINA*
A sala estava do jeito que eu havia deixado.
Não era exatamente bagunça. Bagunça pressupõe algum critério. Aquilo era apenas o resultado de anos deixando as coisas para depois.
Havia caixas de livros encostadas na parede desde a última mudança. Algumas ainda fechadas. Outras abertas. Uma delas tinha o canto rasgado e deixava escapar algumas lombadas, como se os livros estivessem tentando fugir.
No canto da sala havia uma vitrola do final dos anos setenta. Pesada, de madeira escura, com a tampa transparente já marcada pelo tempo. Ao lado dela, uma coleção de vinis que eu vinha carregando de uma casa para outra havia mais tempo do que gostaria de admitir.
Um disco girava.
Eu não estava prestando muita atenção à música.
Talvez fosse esse o motivo de ela ainda estar tocando.
A música servia melhor quando não exigia nada da gente.
Na mesa havia uma xícara de café com whisky irlandês.
Não era um hábito.
Era uma negociação.
O café me mantinha acordado.
O whisky fazia parecer menos estúpido o fato de eu estar acordado.
A televisão permanecia ligada.
Passava um filme antigo.
Muito antigo.
Um daqueles filmes em que as pessoas ainda tinham tempo para ficar em silêncio antes de dizer alguma coisa importante.
Eu gostava disso.
Hoje ninguém tem tempo para silêncio.
Há mensagens.
Notificações.
Contas.
Reuniões.
Senhas.
Aplicativos.
Até a tristeza precisa ser rápida.
Talvez por isso eu ainda gostasse dos livros.
Eles não têm pressa.
Podem deixar um homem sofrer por quatrocentas páginas sem pedir que ele melhore no capítulo seguinte.
Fiquei olhando para as caixas.
Uma delas estava aberta.
Eu não lembrava de ter deixado daquele jeito.
Aproximei-me.
Havia um romance.
Um livro de história.
Um drama.
Um livro que eu tinha comprado e não lembrava por quê.
E outro que eu lembrava perfeitamente por que tinha comprado, mas já não sabia por que ainda conservava.
Foi aí que percebi uma coisa desagradável.
Os livros sobrevivem aos motivos pelos quais foram comprados.
Talvez as pessoas também.
Fiquei algum tempo parado diante daquela caixa.
Depois puxei um dos livros.
A poeira subiu.
E minha memória resolveu trabalhar.
O que foi uma péssima ideia.
Frida Kahlo apareceu primeiro.
Não como retrato.
Como ferida.
Frida.
Ferida.
Uma palavra puxando outra.
Sal.
Salitre.
Saudade.
Uma palavra quase igual a outra, mas com uma letra de diferença.
É curioso como uma letra pode mudar uma vida.
Pensei naquilo e comecei a lembrar de outras coisas.
Pimenta do campo.
Sertão.
Terra seca.
Estrada.
Distância.
Não sei por que certas palavras ficam guardadas enquanto outras desaparecem.
Talvez a memória não seja um arquivo.
Talvez seja um bêbado escolhendo o que levar para casa.
Peguei outro livro.
Jonas.
O Leviatã.
Um homem dentro de um peixe.
Fiquei olhando para a página.
Um homem entra dentro de um peixe e sai de lá com uma missão.
Eu entro dentro de mim mesmo e saio com azia.
Fechei o livro.
Depois pensei em Moisés.
A arca.
Os animais.
Dois de cada.
Ou sete.
A memória não sabe mais.
Ela altera as coisas para poder continuar funcionando.
Pandora apareceu depois.
Sempre a caixa.
Os homens gostam de caixas.
Guardam documentos.
Fotografias.
Cartas.
Remédios.
Armas.
Livros.
Coisas que não querem esquecer.
Coisas que não conseguem jogar fora.
Às vezes guardam mortos.
Eu olhei para as caixas espalhadas pela sala.
Foi quando percebi que talvez tivesse feito a mesma coisa.
Passei anos guardando pessoas dentro de objetos.
Uma fotografia.
Um livro.
Uma música.
Uma rua.
Um cheiro.
Um disco.
Meu pai apareceu assim.
Não numa fotografia.
Num pensamento.
Estava entre os mortos da minha memória como se nunca tivesse saído de lá.
Isso me incomodou.
Não porque eu não quisesse lembrar.
Mas porque algumas lembranças não pedem licença.
Elas simplesmente entram.
E sentam.
Peguei outro livro.
Hamlet.
Depois Hamnet.
A palavra ficou na minha cabeça.
Hamnet.
O menino que morreu cedo demais.
Um nome pequeno para uma ausência enorme.
Pensei nele durante algum tempo.
Talvez todos nós sejamos um pouco Hamnet.
Filhos de alguma coisa que não conseguimos terminar.
Pais de alguma coisa que não conseguimos salvar.
Ou apenas homens que chegaram tarde demais para algumas coisas.
A garganta apertou.
Eu bebi o café.
Ainda estava quente.
O whisky já tinha desaparecido.
Foi então que percebi que eu estava cansado.
Não fisicamente.
Era outro tipo de cansaço.
Aquele que aparece quando a pessoa começa a perceber que passou boa parte da vida tentando compreender coisas que não foram feitas para serem compreendidas.
Peguei outro livro.
Odisseu.
Hades.
Agamenon.
Tirésias.
Os mortos conversando com os vivos.
Aquilo me pareceu familiar.
Meu pai continuava ali.
Não dizia nada.
Talvez soubesse que eu já tinha perguntado demais.
Olhei para ele dentro da minha cabeça.
Queria dizer alguma coisa.
Não disse.
Há conversas que só funcionam depois que uma das pessoas morre.
Talvez porque finalmente desapareça a expectativa de resposta.
Sentei novamente.
A música continuava girando na vitrola.
A agulha fazia aquele ruído pequeno entre uma passagem e outra.
Era um som antigo.
Um som de coisa que ainda precisava de matéria para existir.
Hoje apertamos um botão e a música aparece.
Naquela vitrola, era preciso colocar o disco.
Levantar a tampa.
Baixar a agulha.
Esperar.
Talvez a espera também tenha sido uma tecnologia que perdemos.
A televisão mostrava o filme.
Um homem falava.
Uma mulher chorava.
O homem parecia culpado.
As pessoas daqueles filmes tinham uma quantidade impressionante de tempo para sofrer.
Nós não.
Hoje precisamos sofrer entre uma reunião e outra.
A vida moderna não eliminou a dor.
Apenas organizou a agenda dela.
Ri sozinho.
Foi então que pensei na Casa Verde.
Machado de Assis.
Bacamarte.
A razão tentando medir a loucura.
O homem que decidiu descobrir quem era louco e acabou colocando quase todo mundo dentro da instituição.
Talvez a diferença entre loucura e normalidade seja apenas uma questão de votação.
Alguns recebem diagnóstico.
Outros recebem cargo.
Alguns falam sozinhos.
Outros têm microfone.
A loucura não desapareceu.
Aprendeu a usar gravata.
Olhei para os livros.
Eu já não sabia se estava lendo ou apenas lembrando.
Napoleão apareceu.
Depois Alexandre.
Depois César.
Depois Jesus.
Depois Moisés.
Depois Pandora.
Depois meu pai.
Tudo misturado.
A história inteira parecia ter entrado naquela sala sem pedir autorização.
O problema dos mortos é esse.
Eles não precisam de espaço físico.
Cabem todos dentro de uma cabeça.
Fui até a janela.
Lá fora havia uma noite tranquila.
A casa estava cercada por aquele silêncio de bairro que aparece quando as pessoas finalmente fecham as portas e param de fingir que têm algum controle sobre a própria vida.
Olhei para o céu.
Pensei em Deus.
Nunca tive muita sorte com essa questão.
Há homens que encontram Deus numa igreja.
Outros encontram numa doença.
Alguns encontram no fundo de uma garrafa.
Eu sempre encontrei perguntas.
Talvez Deus seja apenas o nome que damos ao que não conseguimos suportar não compreender.
Voltei para a sala.
O gato entrou pela porta.
Sem cerimônia.
Não perguntou o que eu estava fazendo.
Não perguntou por que havia livros espalhados.
Não quis saber quem era Hamlet.
Passou pela vitrola.
Cheirou uma caixa.
Ignorou um livro.
Parou diante de mim.
Olhou.
Depois continuou andando.
Aquilo me pareceu uma atitude muito inteligente.
Um gato não precisa saber quem foi Napoleão.
Não precisa saber quantos animais entraram na arca.
Não precisa resolver o problema de Deus.
Não precisa compreender a morte.
Precisa de comida.
Água.
Um lugar razoavelmente quente.
E talvez alguma paz.
Nós complicamos tudo.
Inventamos religiões.
Filosofias.
Sistemas.
Teorias.
Construímos universidades para tentar explicar aquilo que um gato resolve dormindo.
Fui até a cozinha.
Coloquei comida no prato.
Chamei.
Ele apareceu.
Comeu.
Sem agradecer.
Como deve ser.
Depois desapareceu.
Procurei pela casa.
Encontrei-o na minha cama.
Já havia tomado posse.
Não discuti.
Naquela altura da vida, eu já tinha perdido discussões mais importantes.
Apaguei a luz.
A sala ficou escura.
A vitrola continuava girando.
A música havia terminado.
O disco permanecia dando voltas.
Fui até ela e desliguei.
O silêncio entrou no lugar da música.
Foi então que tudo pareceu voltar para o lugar.
Os livros voltaram a ser livros.
As caixas voltaram a ser caixas.
Os mortos voltaram para dentro das páginas.
Frida voltou para sua ferida.
Jonas para o Leviatã.
Odisseu para o Hades.
Hamlet para sua dúvida.
Hamnet para sua morte.
Fabiano para a seca.
Severino para sua cova.
Bacamarte para a Casa Verde.
Meu pai voltou para onde quer que os mortos permaneçam quando ninguém está pensando neles.
E eu fiquei ali.
Sentado.
Um homem numa sala.
Nada mais.
Pensei que talvez essa fosse a parte que mais incomodava.
Passamos a vida tentando ser alguma coisa.
Inteligente.
Forte.
Bom.
Importante.
Amado.
Lembrado.
No fim, continuamos sendo apenas um corpo sentado numa sala escura, esperando a próxima coisa acontecer.
O gato se aproximou.
Deitou-se ao meu lado.
Senti a respiração dele.
Regular.
Pequena.
Sem preocupação alguma com o destino da humanidade.
Não perguntou quantos anos eu tinha.
Não quis saber o que eu havia feito da minha vida.
Não perguntou se eu acreditava em Deus.
Não quis saber se eu estava louco.
Não perguntou se eu tinha amado o suficiente.
Apenas ficou.
Foi aí que percebi uma coisa.
Talvez eu tivesse passado tempo demais procurando respostas em homens mortos.
Nos livros.
Nas religiões.
Na filosofia.
Na memória.
E talvez a resposta estivesse naquela coisa simples que eu sempre considerei pequena demais para ser levada a sério.
Uma presença.
Alguém ficando.
Não para resolver.
Não para explicar.
Apenas para não ir embora naquele instante.
Fiquei olhando para o teto.
Pensei que talvez esse fosse o nosso maior erro.
Queremos a resposta inteira.
O livro inteiro.
A história inteira.
Queremos saber o começo antes de começar e o fim antes de continuar.
Queremos compreender o amor antes de amar.
Queremos compreender a morte antes de morrer.
Queremos saber para onde estamos indo antes de dar o próximo passo.
Talvez não exista essa informação.
Talvez exista apenas a próxima página.
O próximo gole.
A próxima noite.
O próximo corpo ao nosso lado.
Senti o gato se aproximar mais.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, não havia Napoleão.
Não havia Moisés.
Não havia Pandora.
Não havia César.
Não havia Jesus.
Não havia Hamlet.
Não havia meu pai.
Não havia Casa Verde.
Não havia Sertão.
Não havia Hades.
Não havia Deus.
Havia apenas o quarto.
O gato.
Meu corpo.
E o silêncio.
Dessa vez, o silêncio não pareceu vazio.
Pareceu suficiente.
Talvez seja isso que a velhice ensina quando finalmente perde a paciência com as próprias perguntas.
Nem tudo precisa de resposta.
Algumas coisas precisam apenas de companhia.
O gato respirava ao meu lado.
A casa permanecia quieta.
As caixas continuavam esperando.
Os livros continuavam fechados.
A vitrola estava parada.
E eu pensei que talvez a última página não fosse o fim.
Talvez fosse apenas o lugar onde finalmente paramos de escrever perguntas.
Então dormi.
Sem descobrir o nome da tristeza.
Sem descobrir o nome de Deus.
Sem descobrir o que seria de mim.
Mas com um gato ao lado.
Para uma vida inteira, talvez isso seja pouco.
Ou talvez seja exatamente o bastante.
