Nao Tente Adivinhar o que
Paredes erguidas sobre as cabeças
a arte não pode parar!
Olhos curiosos fitam em surpresa
os dedos, as mãos, a tinta a pintar!
Não sorria quando o que você deseja é chorar.
Sinta seus sentimentos
A vida é muito curta para ser fingida.
Esse é o mundo
Não se esqueça
Ele é o mundo
Não se iluda
Este é o mundo
Não se endureça
Ele é o mundo
Está aqui
Está à frente
Está em tudo
Está em nós
Escrevo por instinto e não por razão
Sou aquele animal ferido por uma lança
acuado, revolto, inflamado
Com sua língua lambe a ferida
Sorve seu próprio sangue
A palavra é meu sangue
Escrevê-la é minha língua
- Não! Estou triste
Muito triste
E me permito ficar assim
Até a alegria voltar
A invadir minh'alma.
Você tem medo daquilo que não conhece
A respiração queima
Falta oxigênio
Sobra CO2
De onde exala?
Da multidão irrefreada!
As parcas diretrizes dizem
“Pare”
E você para – limitado
Na própria cegueira da escuridão
Sua paixão leva ao devaneio
e sua têmpora demonstra a gota
de sangue, de suor, de lágrima
- Nem mesmo você o sabe!
Perde-se no desatino pavoroso
da falta
da falsa
da farsa
da farta
dor do sentir...
Medo!
O órgão vital quase afunda
de tanto flutuar na caixa torácica.
Complexidades humanas
Certezas e devaneios
Água, terra, sol ou chamas
Das teses que ainda não vejo
Humanas complexidades
Olhares de dor ou pudor
Estranhas as falsas imagens
Do ego que se insinuou
Complexidades humanas
Humanas complexidades
Talvez o desejo que inflama
Destrói do seu olho a verdade…
Como se as respostas
Cercassem-me por todos os lados
E meus poros, continuamente fechados,
Não ousassem sorvê-las
Além do que se pode suportar
Tendo apenas uma alma
Humana
Humana deveras
Impregnada de dores
Dissabores
Temores
Dentre os quais o maior é
Viver...
Meus olhos insistem em ser cachoeira
O vento ainda não a dispersou
Sou intensidade altaneira
Inescrupuloso embaraço
Sou o traço
Do riso discreto
Os dentes falhos
A janela aberta
Da imensidão.
Sou estranha às vestes alheias
Mas não sou sozinha
Eu sou multidão.
Os meus olhos ainda persistem
Como jarros d’água
Infinitas fontes
A cruzar as pontes da escuridão
Eu sou a senhora
Sou a meninice
Sou a pausa e o pique
Da imperfeição.
Meus olhos reclamam por vida
Os braços não deixam enxergar
A pele tão destemperada
O fogo aterra a água e o ar.
Eu sou incredulidade
Palavra de quem argumenta
Motivos, sentenças, viagens
Ao grão da pura inocência.
Meus olhos
Estão cansados
De tanto verter um rio
A cada segundo
No seu mais profundo
Mar em desvario.
Não me cale!
Não ouse me calar
- Não mais!
Eu sou assim
Eu sou o que posso
Eu sou o quero
Eu sou o que gozo
Eu sou o que gosto!
Eu viverei de mim
- E ai de ti!
… se vier de novo
querer calar a minha voz!
Encontrei vestígios de mim
Por aí
Não era seguro andar pelas ruas
Não era bom senso andar distraída
Mas eu deixei-me ir
O corpo levado pela alma acesa
Incandescendo
Puro furor e êxtase
Vontade à mesa
De percorrer entre ideias soltas
E malandras
Que me fizessem crer
Novamente
No poder da andança
Da temperança
Da esperança
Da dança
Ah, dona valsante
Que me abriu os olhos
E as vísceras inteiras!
Ah, escaldante sol
Sobre minhas têmporas
Cheias
De vistas
Revistas
Analistas
Alquimistas
São tudo o que tenho em mim
E eu ainda procuro
- Como ouso?
Eu ainda procuro
Vestígios de mim
… pelo chão.
Se eu não estivesse aqui
As árvores continuariam a bailar
Sob o som e os encantos dos vendavais
Sob as janelas e os coloridos vitrais
O pássaro voaria, de qualquer modo
Ignorando que eu nunca existi
As flores desafiariam a terra dura
E nasceriam mesmo assim.
Se eu não estivesse aqui
Ainda haveria nuvens
E o céu e o sol a arquejar
O tempo medido pela lua
As águas do rio e do mar.
Nada sentiria a minha ausência
Ou a não presença anterior
Tudo seria sentença
Do mesmo modo de amor...
Se eu não estivesse aqui
As montanhas ainda assombrariam
Os sonhos e devaneios de alguém
Os animais vadiariam
E as pedras se esconderiam de quem?
