Nao quero Viver na Ilusao
“O verdadeiro privilégio não é ter para onde ir, é ter alguém esperando por você quando decidir voltar.”
E talvez seja isso o que mais dói: alguns nomes das crianças que nunca tivemos não foram simplesmente escolhidos. Foram inventados por nós, quando ainda imaginávamos que estaríamos juntos quando elas chegassem. Hoje, já não somos nós. Mas os nomes continuam sendo nossos. E talvez nunca deixem de ser
!
Sabe, pessoas que não tem oportunidade de falar transbordam pelos olhos e seus corações explodem de dor, mas quando as palavras são ditas a dor não some, mas se torna mais suportável.
Muitas pessoas abandonam seus sonhos,
por causa do dinheiro,
não tenho dinheiro,
mas realizei os meus sonhos!
Existem feridas que não cicatrizam porque foram feitas exatamente no lugar onde nasceu a nossa maneira de amar.
A maior crueldade da existência talvez não seja a morte, mas conceder ao homem a lucidez apenas quando já não existe ninguém capaz de receber o amor que ele finalmente aprendeu a oferecer.
(...)
eu não sei se passei no teste
de ser gente ou alguma coisa
queria mesmo é ser a Mosca
dos filmes do Cronenberg
ou o inseto monstruoso do Kafka
que um dia não saiu mais
um dia me tranquei no quarto
um dia me tranquei na vida
e não fui mais
simplesmente não fui
e nem tentei encontrar
respostas ou motivo
Não há nada depois dessas coisas.
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(Fragmento do poema “Um inseto monstruoso”)
Lisa Alves — Jardim de Pragas (2025)
[impressoras orgânicas]
(...)
Meu espírito anárquico não compreende
a frieza em pleno verão.
Nasci na tropicália mineirês,
no barroco europeu
com santos que nunca acreditei.
Aprendi a ler para rezar novena e fui parar em
“Ave Bakunin!” e “Salve Lispector!”.
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
[censura]
Não possuía escapes – lacraram todos os orifícios de evasão.
As flores de dentro tornaram-se rudes e secas.
Até o ar ficara denso.
Nem regalia de afundar-se ao chão,
nem michas por debaixo das portas (portas?),
nem correio, nem leiteiro, nem vozes (veludas vozes),
nem sirenes e nem a cantiga do bem-te-vi.
Ela era toda silêncio.
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
“O verdadeiro jurista não pergunta apenas ‘o que diz a lei?’, mas ‘que ideia de ser humano essa lei protege?’.”
“A razão é o lugar onde o Direito aprende que ter poder para decidir não significa ter razão para decidir.”
Para não tropeçar e andar de forma precisa, é preciso olhar onde pisa, os seus pés não têm olhos e nem toda superfície é lisa.
O movimento é sempre precedido de um pensamento que acione o seu comando. Sem o pensamento, não há ação. E, sem ação, não há giro de energia, nem produção de calor, nem elevação de potência, nem mudança de posição das moléculas, nem realce da cor em luz. Sem cinesia, a vida se desbota.
A informação é o ativo mais valioso da praça. Não à toa, as grandes empresas pagam fábulas de dinheiro para ter acesso a elas. São os “cookies” que todos tivemos de aceitar.
O aprendizado é, portanto, aquela página do contrato que não pode ser pulada. A ignorância é território de penumbra: só enxerga a luz do sol quem se afasta dela.
Ferir o outro para demonstrar poder não é força, é o maior atestado de vazio e fraqueza que o orgulho pode dar. Nenhuma alma se constrói de verdade destruindo outra.
Quando tudo parecer derrota, iremos nos reerguer, ainda que feridos.
Haverá tristeza, mas não será um monólogo: forçaremos que ela dialogue com a alegria, e elas se alternarão.
Se a saudade nos cortar com a ausência, devolveremos a ela a presença embrulhada em forma de lembranças.
Quando a dor descolorir o nosso dia, derramaremos novos potes de tintas sobre a tela.
Para cada último suspiro em uma cama de hospital, uma forte puxada de ar do outro lado da cidade.
Sejamos, portanto, igualmente implacáveis com a morte: adversário à sua altura. Essa é nossa única reviravolta possível.
Assim, deixemos que ela se vista de escuridão para nos confundir.
Em resposta, nós nos vestiremos de vida para envergonhá-la.
