Nao me Comove mais
O Tinhoso é um Gênio: arregimentou as almas inocentes para salvar o país e nunca mais parou de tentar rifá-lo
para se salvar.
Talvez essa seja uma das mais antigas ironias da história.
O mal raramente se apresenta como tal.
Quase sempre veste a roupa da virtude, empunha a bandeira da esperança e promete um futuro grandioso.
Não seduz pelo medo, mas pela convicção de que existe uma causa tão nobre que justifica qualquer excesso.
Quando pessoas deixam de pensar por conta própria para acreditar cegamente em quem se diz dono da verdade, deixam de defender princípios e passam a defender pessoas.
Nesse instante, a pátria deixa de ser um bem comum para se tornar propriedade de um projeto, de uma ideologia ou de um líder.
É aí que a armadilha se fecha.
Em nome de “salvar o país”, toleram-se abusos.
Em nome da “causa maior”, relativizam-se injustiças.
Pelo “bem”, aceita-se o mal como um mal necessário.
E, sem perceber, aqueles que acreditavam lutar pela liberdade acabam ajudando a construir as correntes que um dia também os prenderão.
O mais inquietante é que essa lógica não pertence a uma época nem a uma ideologia específica.
Ela se repete sempre que a paixão substitui a razão e a idolatria ocupa o lugar da consciência.
O fanático nunca percebe quando deixa de servir à verdade para servir ao próprio ego de quem conduz a multidão.
O Tinhoso não precisa convencer a todos.
Basta convencer os mais fervorosos.
Eles fazem o restante do trabalho, transformando dúvidas em heresias, críticas em traição e adversários em inimigos absolutos.
Assim, a divisão cresce, a confiança desaparece e o país, que deveria ser protegido, torna-se apenas moeda de troca para a sobrevivência de grupos que juram representá-lo.
No fim, a maior vitória do mal talvez não seja destruir uma nação, mas convencer pessoas honestas de que qualquer sacrifício vale a pena, desde que seja feito em nome da salvação.
Porque, quando os princípios são abandonados para preservar líderes, já não se está salvando o país.
Está-se apenas tentando salvar aqueles que aprenderam a usá-lo.
Quase ninguém consegue ser mais Infeliz do que os que esperam a sexta-feira para serem Felizes.
Essa constatação medonha incomoda porque revela uma verdade que muitos preferem ignorar.
Quando condicionamos nossa felicidade à chegada da sexta-feira, estamos, na prática, renunciando a vários dias da nossa própria vida todas as semanas.
Vivemos contando os dias: segunda é um peso, terça uma espera, quarta uma esperança, quinta uma ansiedade…
Então chega a sexta-feira, e depositamos nela a missão impossível de compensar tudo o que deixamos de viver.
Mas nenhuma noite, nenhum happy hour e nenhum fim de semana conseguem preencher o vazio de uma rotina que aprendemos a desprezar.
A Felicidade não pode ser um compromisso marcado apenas para o fim da semana.
Ela precisa encontrar espaço nas pequenas vitórias, nas conversas sinceras, na tranquilidade do café da manhã, no trabalho que faz sentido, no aprendizado diário e até nos desafios que nos fazem crescer.
Quem vive apenas para a sexta-feira está, sem perceber, desejando que a maior parte da própria vida passe depressa.
E desejar que o tempo passe é uma das formas mais silenciosas de desperdiçar a existência.
Que a sexta-feira continue sendo bem-vinda.
Mas que ela seja apenas mais um dia bom em uma vida que vale a pena ser vivida diariamente.
Tente ser ao menos um pedacinho daquilo que a vida tem de mais charmoso, uma pessoa surpreendente. Não faça promessa, faça surpresa!
Hoje eu sou feio. Mas já fui o menino mais desejado da escola. Uns desejavam me bater, outros me matar.
Quando uma mulher se encontra com a motivação da exposição da sua curva mais bonita, o sorriso, ela se torna tão poderosa que pode se insinuar para as câmeras ou para o espelho, com a certeza de revelar ou refletir a tradução da beleza.
Por mais que haja bons cafés para torrar, acredite, os idiotas sempre vão preferir torrar a sua paciência.
Pessoas com quem se possa conversar sobre absolutamente qualquer coisa _ do assunto mais sério ao mais “bobo” _ sem ter que pisar em ovos, são impagáveis.
No esbarrão entre a Beleza da Oratória e a Sabedoria do Silêncio, quem mais se destaca é a Perícia da Escuta.
Hoje, a Sorte me abraçou tão apertado que quase cansei! Gratidão por mais um dia vencido, meu Pai Amado!
E, por um instante, fiquei pensando que nem todo abraço que nos aperta vem para nos sufocar; alguns chegam para nos lembrar de que ainda estamos vivos, de que a vida, apesar dos tropeços, continua encontrando maneiras de nos surpreender.
Há dias em que a sorte não chega vestida de festa, trazendo flores ou anunciando grandes conquistas.
Às vezes, ela se disfarça de livramento, de porta que não se abriu, de caminho que mudou de direção ou de força que nasceu justamente quando acreditávamos não ter mais nenhuma.
Porque nem sempre ganhar é conquistar o que desejamos; muitas vezes, ganhar é sobreviver àquilo que jamais imaginamos enfrentar.
A vida tem dessas ironias bonitas: exige tanto de nós que, ao final do dia, até o cansaço se transforma em testemunha da nossa coragem.
Carregamos batalhas silenciosas, vencemos tempestades que ninguém viu e sorrimos enquanto a alma, discretamente, recolhe os pedaços que o mundo deixou pelo caminho.
E é nessa travessia que aprendemos uma das mais profundas lições da existência: a verdadeira riqueza não está em passar pela vida sem conhecer as dificuldades, mas em não permitir que elas nos roubem a capacidade de agradecer.
A sorte pode até nos abraçar um pouquinho mais apertado, mas é a fé que nos sustenta quando os braços já não têm forças.
É ela que nos ensina a confiar mesmo sem compreender, a esperar mesmo sem garantias e a continuar caminhando quando o horizonte parece ter esquecido de clarear.
Hoje, não peço uma vida sem lutas, porque compreendo que até as pedras do caminho podem nos ensinar a reconhecer o valor dos nossos próprios passos.
Peço apenas sabedoria para distinguir o que merece minha energia, serenidade para aceitar o que não posso mudar e humildade para reconhecer que nem todas as vitórias nasceram exclusivamente da minha força.
Algumas foram alcançadas pela persistência; outras, pela paciência.
E há aquelas em que só consigo enxergar a mão de Deus, agindo em silêncio, preparando saídas onde meus olhos só encontravam trincheiras.
Por isso, se hoje o corpo reclama, que a alma agradeça.
Se os pés estão cansados, que o coração se lembre de quantos caminhos já percorreu.
E se a vida ainda reserva desafios, que nunca me falte a coragem de enfrentá-los nem a sensibilidade de perceber as pequenas bênçãos escondidas entre uma dificuldade e outra.
Porque vencer um dia de cada vez não significa sair dele sem marcas, mas chegar ao seu fim com a fé ainda acesa, a esperança respirando e a gratidão fazendo morada no peito.
E assim sigo, sem a pretensão de compreender todos os mistérios da existência, mas com a certeza de que cada amanhecer é uma nova oportunidade de recomeçar, reparar os erros, fortalecer os afetos e fazer da própria caminhada algo que valha a pena.
Hoje, a Sorte me abraçou tão apertado que quase cansei…
Mas, quando olho para trás e percebo quantas vezes pensei que não conseguiria e, ainda assim, consegui, entendo que talvez a sorte tenha apenas sido o nome que dei às bênçãos que chegaram quando a minha força já não sabia como continuar.
Gratidão por mais um dia vencido, meu Pai Amado!
Que eu nunca me torne tão preocupado com as lutas de amanhã a ponto de esquecer a bênção de ter chegado até aqui hoje.
Que meu coração não perca a fé nos dias difíceis, nem a humildade nos dias de fartura.
E que, ao final de cada jornada, eu saiba reconhecer, para além de todas as conquistas e de todos os cansaços, a maior de todas as dádivas: a oportunidade de continuar vivendo, aprendendo, amando e agradecendo.
Porque, no fim das contas, a vida não precisa ser perfeita para ser preciosa, e o coração não precisa ter todas as respostas para encontrar motivos para agradecer.
Gratidão por mais um dia vencido, meu Pai Amado!
Carta IV — A Solidão: Reflexão sobre a solidão e o tempo
Mais oito anos haviam se passado, e as rugas no meu rosto tornavam-se evidentes; os meus ossos perdiam cada vez mais a força; o tempo revelava-me o cansaço. A solidão sufocava-me como espinhos na garganta; os meus lábios secaram como um rio sem água; a sede matava-me aos poucos.
Já não havia urina no meu organismo. Tentei beber as minhas próprias lágrimas, mas também secaram. Os ratos já não me alimentavam; agora alimentavam-se da minha carne. Meus cabelos caíam sozinhos como folhas de uma árvore, e a minha pele amolecia como mingau. Os meus olhos enchiam-se de fadiga; sofria de insónia. O corpo produziu bactérias que me corroíam por dentro.
Quis suicidar-me, mas não encontrava forças para fazê-lo. Já não restou dedo algum nas minhas mãos: devorei-os todos para terminar de vos escrever esta carta.
O fundo das paredes oferecia um profundo silêncio. Ainda assim, era meu desejo voltar a ouvir, só mais uma vez, o grito alegre das crianças na aldeia de Kandembe; o canto dos pássaros na floresta de Mayombe; o canto do galo nas madrugadas; o sorriso das senhoras quitandeiras no mercado de Kalukembe.
Infelizmente não pude concretizar esse desejo. As correntes no meu pescoço e as grades que me prendem não me permitem realizá-lo. Aliás, já não me resta muito tempo. A solidão tornou-se um vício que se alimentava da minha penúria e dos traumas da minha lembrança. Quanto mais próximo dela eu me encontrava, mais perto me sentia da morte.
Talvez…
Será que devo arrepender-me das minhas escolhas?
Será que fui ingénuo ao preservar os meus ideais?
Será este o preço a pagar por ser diferente deles?
De que vale estar livre do calabouço, se lá fora continuarei a ser escravo?
De que adianta recuperar a voz, se lá fora me haverão de retirá-la?
De que vale livrar-me destas correntes, se lá fora existirão outras algemas à minha espera?
Aqui, ao menos, ainda posso falar, pensar alto e questionar.
E lá fora?
Não me haverão de censurar por pensar?
Não me haverão de açoitar por falar?
Não me irão condenar por contestar?
Não me irão matar por questionar?
A dúvida, o ceticismo e o remorso ganharam espaço na minha mente e no meu coração.
Tentei conversar com as paredes, mas elas não possuíam ouvidos. Procurei perguntar aos espíritos daquela masmorra, mas já haviam partido. As caveiras ao meu redor exigiam silêncio. E as únicas coisas que ainda podiam dialogar comigo eram a morte e a solidão.
No fim das contas, até a mais bela cebola apodrece. E quando chega ao estado de putrefação, o que resta são apenas traços do quão desejável ao paladar ela já foi. [...]
A natureza concebe-nos esbeltos, diferentes e, às vezes, sentimos aquela sensação de que "somos os únicos". Mas o que ela própria ilustra transcende as nossas efémeras opiniões. Pois, afinal, todos partilhamos, unanimemente, da mesma realidade: temos prazo de validade.
Não me ligues. Desligue.
Só percebi ontem que as pessoas "realmente" envelhecem.
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