Nao Ha Passageiros na Nave Espacial Terra
ÚLTIMO BEIJO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um beijo escarlate no espelho da sala;
carimbado por lábios que outrora beijei,
de quem hoje não sei por que salas e alcovas
deixa novas lembranças; futuras saudades...
Quase tomo nos braços essa nostalgia
modelada num sonho com data vencida,
numa vida que agora já não é a minha
e divide o meu mundo entre antes e após...
Esse beijo que hoje venho ver em mim,
no reflexo estático da solidão,
mostra o vão infinito entre cópia e matriz...
Dou as costas pra cara do cara que vejo,
pra não ver o desejo no vidro dos olhos
que me chamam pra ontem, mas não abrem mar...
ZONA PROIBIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um sonho caído na beira do asfalto;
é um corpo que sangra seu gole final;
terá sido vendeta, ciúme ou assalto,
será causa profunda ou motivo banal?
Foi mendigo, escritor, fuzileiro naval,
dançarino, garçom, assessor no planalto,
professor, pugilista ou então marginal,
jogador infeliz que apostou muito alto...
Mas não quer apostar, o passante comum,
porque sabe que pode se tornar mais um
a romper os portais insondáveis do além...
Seja ele quem for, o que foi algum dia,
é um sonho que sangra na rua vazia
onde a lei é saber não saber quem é quem...
NOVA ESPERANÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O caminho é pra frente, há seus atalhos,
os recuos que o mundo nos impõe,
atos falhos de saudades vencidas
entre pausas marcadas; pontuais...
Mas as nossas verdades nos despertam,
nos convocam pro tempo que não dorme,
pois manhãs preguiçosas viram tardes
e depois aceleram rumo às noites...
Uma vida requer algumas mortes,
marcas, cortes e muito sangramento,
nem por isso incentiva desistências...
Reticências apontam pro futuro;
só existe passado pra lembrança;
ponha nova esperança em sua grama...
VIROSE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um vírus pelo ar;
já se tornou overdose;
virou moda se virar;
se virar virou virose...
SÓ E SÓ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A solidão
do solo
e a solidez
da solidão,
são o que há
de mais concreto
neste abstrato
mundo cão
da minha falta
de afeto.
ENQUANTO HÁ VIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem se tranca lá no fundo insondável de suas angústias ainda que risonhas, com as sete chaves de alguém que as consagrou exatamente para lhe vender, tem um eu irremediavelmente reprimido. Não tem olhos pro mundo que o chama e ostenta, em vez de chaves, aquelas asas que podem ser suas.
Nunca existiu qualquer verdade salvadora para os que se proíbem de si mesmos, temerosos do castigo, seja ele presente ou futuro. Por serem escravos do escuro, para só assim merecerem a luz improvável nos túneis de sua opressão. De seus caminhos farpados pela contrição imposta.
Nenhuma jornada precisa ser cabisbaixa e dolorosa. Pode ser ao acaso, em momentos inevitáveis, mas não tem que ser assim, como prova irrefutável do mérito pessoal de quem segue. É perfeitamente louvável viver por conta própria enquanto existem caminho, perspectiva e vida.
O melhor de seguir está no direito de sonhar sem censuras prévias. De levantar outro voo sobre cada queda e procurar os acertos entre cada erro justificável pela busca do bem que faz bem a todos, a partir do íntimo. Morrer, mesmo em vida, é ceder à prisão e à renúncia da própria identidade.
INQUISIÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um grito matriz e seus ecos profundos,
que meu peito censura para me poupar,
tenho mundos ocultos e vidas de arquivo
por tirar do meu medo; minha solidão...
Trago sonhos perdidos de repor meu tempo
tantas vezes perdido em razão de ganhá-lo,
se me calo sem fim meu silêncio se avulta
e seu vulto me atira nos moldes dos olhos...
Sou alguém que precisa vencer quem estou,
pois estar me agoniza, porque piso em falso
pra viver o sossego dos que não têm paz...
Todos vivem cercados pela inquisição,
coração é masmorra que ninguém destranca,
todo mundo é a banca da moda corrente...
VIAGEM PERDIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Copiar os poderes apodrece a alma,
porque há nessas fontes uma lama imunda,
quem afunda seus passos nos mesmos caminhos
não encontra verdade pra se nortear...
O que há nos poderes é toda mentira
sobre cada esperança que se tem no ser,
onde chega o poder toda honra se avilta
ou escapa e se abriga em outros habitats...
Exercite o poder de zombar dos poderes
com seu dom de ser livre para ser alguém
que não vê no que tem o seu próprio valor...
Imitar os poderes é falir essência,
diluir a decência num poço sem fundo
e perder todo ensejo de se tornar gente...
EM NOME DA ÉTICA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um grande número de cidadãos focados especificamente no que a lei permite, proíbe ou manda. Isso é bom, porque muitos crimes, delitos e contravenções deixam de ser praticados, pela mera existência do temor da lei. Por existirem, ainda bem, essas pessoas temerosas das consequências diretas de seus atos, mesmo que lhes falte caráter para, no fundo, não desejarem praticar tais atos.
A realidade se complica, e muito, quando a ética está em jogo. Sendo ela o conjunto de posturas e atitudes que a lei não manda nem proíbe, muita gente boa, em princípio, porque não comete crime, abusa do atentado impune ao ser humano. Constrange, prejudica, passa para trás, engana, falta com a palavra, faz fofoca, dedura e até ganha pontos com quem lhe convém ou interessa agradar, mesmo que prejudique aquelas pessoas que não oferecem retorno, vantagem, promessa, ou das quais apenas não gosta.
Falta-se muito com a ética nos ambientes de trabalho, nas igrejas, agremiações e outros grupos, em troca de promoções, prestígio, atribuições, privilégios e cargos que pertencem a outros. Muitas vezes tão só para ficar bem aos olhos do líder, e ter a honra questionável de se tornar mais íntimo.
Também se falta muito com a ética em nome de um destaque na família... da disputa pela preferência geral. Nos dissídios e nas intrigas envolvendo proles. Algumas vezes, pela simples curiosidade ou desejo de cutucar desafetos do outro lado, por intermédio de alguém mais frágil, dependente ou ingênuo, que no fim das contas é igualmente prejudicado sem nem saber a razão.
São muitas as crueldades. Os atos perniciosos não previstos em lei. E a ética, intocável para o jugo da lei, em nome da graça, do arbítrio e da liberdade responsável do ser humano, fica seriamente comprometida. Uma sociedade sem lei é truculenta; brutal... sem ética, é hipócrita e nojenta.
POR UM MUNDO MELHOR
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Há um mundo melhor onde as pessoas
dão lugar, auxiliam, facilitam;
não amarram, não turvam nem delongam
ou incitam tensões desnecessárias....
Tenha boa vontade, se permita
Sem o peso das vãs burocracias,
dessas vias de acessos conturbados
e destinos feridos de má fé...
Uma vida mais leve não tem cruz,
quem a leva sem fúria e sem rancor
faz a dor não fazer profundo estrago...
A verdade não tem que ser espinho
nem ser guerra, o caminho mais doente;
quando a gente complica o mundo emperra...
MUNDO NARCISISTA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ninguém há de negar que a globalização tornou o próximo mais próximo do que nunca. Mas o amor, por sua vez, tomou a direção oposta. Está mais distante do que nunca, em razão das diferenças. Da constatação definitiva do quanto o ser humano é diverso. Raramente amamos o próximo, a menos que o próximo seja nossa réplica, em todos os sentidos. O mundo moderno excede no narcisismo.
EXTRA-QUADRO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um ser de quem tudo se fez e sustenta;
uma base, a raiz, a provisão do espaço,
mas não faço menção de saber quem ou quê,
nem me deixo supor que alguém saiba por mim...
Já venci a crendice no Deus previsível
que se rende ao discurso do nosso elogio,
tem um cio implacável de gestos contritos
e de servos entregues à sua vontade...
Seja Deus, outro nome, acredito num ser
sem nenhuma legenda nos livros impostos,
nem a postos pra todos que lhe rendem cultos...
É alguém, talvez algo, muito longe ou perto;
gritará no deserto e na treva total,
qualquer um que pretenda rotular um Deus...
A MULHER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Todo mundo procura o que há muito encontrei;
a mulher cujos olhos vão além das vistas;
que não sei definir, apesar de poeta,
pois excede o poder das palavras buscadas...
Encontrei a mulher que me acolhe aos pedaços,
recompõe o mosaico e depois me relê,
reanima os meus passos pra recaminhar
e me faz merecer o que há tempos me deu...
É alguém que me aceita, mas rejeita em mim
o que só me apequena e se põe contra nós,
cria em nós tantos nós e nos ata pra vida...
A mulher que algum dia perdi pra mim mesmo,
mas me achou novamente quando fui ao fundo
e fiquei tão sem mundo, num mundo sem ela...
EXPRESSO 666
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um Cristo forjado entre seres de bem;
uma crista que aguça exaltações febris;
um além prometido pra este momento
em que todos precisam de alguma miragem...
Multidões enaltecem a lenda fugaz;
bradam raivas ungidas, fanatismo pátrio;
pregam paz e guerreiam redundantemente,
por efeito maciço de alguma hipnose...
Um rebanho tangido por gritos de ordem;
umas tristes ovelhas alegres de tontas;
todas prontas pro dia de seus holocaustos...
São regidas por ódio e por frases sagradas,
vão marcadas pra terem uns dias de glória
e depois amargaram seus anos de culpa...
CASTOS DE FESTIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há quem viva no céu da hipocrisia;
tenha mente regida contra o mundo;
agonia sem fim, porque o saber
tem maldades; doutrinas de pagãos...
Gentes vagas, enchidas pelo vento,
não se mesclam no reino dos pensantes;
são rascantes, têm medo de novelas,
porque podem querer novelizar...
Este mundo é pesado pros fingidos,
pros ungidos, os castos de festim
que vigiam caminhos; pés alheios...
Não educam seus filhos a contento
e por isso não podem lhes expor
ao evento real que a vida é...
QUAL É A SUA?
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Há corações que só batem;
corações que apanham;
sonham; têm fantasias...
As cabeças vazias,
mas também as cabeças
que têm mentes.
Tem consciências em paz
e consciências dopadas...
ou só dormentes.
CÁLICE PÓS-CHICO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um cálice novo; é preciso afastá-lo,
pois os tempos são outros; deveriam ser;
tem um ralo que suga os direitos mais nossos
pra mostrar que viver é artigo de luxo...
Não me calo apesar deste cálice amargo;
minha voz kamikaze se atira no escuro,
pula o muro do medo e resiste à tensão,
ao embargo diário que tudo me faz...
Mas também sou poder a partir do meu grito
contra o mito maciço que cegou a massa;
que fez tantos escravos dormentes pra vida...
Rejeitar a cicuta que o cálice traz
é a paz de minh´alma sob o corpo gasto;
há um pasto ilusório pro gado passivo...
DOCE VIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um mundo melhor quando bala perdida
é de anis, hortelã, tamarindo, morango,
pra que a vida nos faça degustar sabores;
converter nosso tango em terreiro de samba...
O que tem de ser bom seja em dobro; bombom
e assim rezaremos Ave-Mariola
em um tom colorido; risonho; fluente;
num suspiro de amor ou de creme de ovos...
Quando nossa esperança teimar em dar bolo,
vamos ser confeiteiros de bolo de festa,
porque sempre nos resta uma nova ilusão...
Tudo pode ser doce, apesar das mazelas;
saborize o viver com rodelas de sonhos
de amizades, de amores e de padaria...
Quando a espada oprime a cruz... a música fere a dança... e o rumo certo é a contramão: há um túnel no fim da luz... um gafanhoto sobre a esperança... uma mudança sem caminhão.
NA SELVA DA ESTABILIDADE PRIVADA
Demétrio Sena - Magé
Há grande mérito em se prestar um concurso, ser aprovado e admitido em uma empresa pública. Dificilmente se conquista um emprego dessa natureza, sem empreender esforços admiráveis, muito estudo e disciplina. Infelizmente, muitos não repetem ao longo da carreira os méritos iniciais, conscientes de que o poder público não é muito criterioso com quem já ingressou na máquina pública e passou pelo período de aprovação. Com isso, os funcionários públicos competentes e trabalhadores permanecem, mas os incompetentes e alguns que até pasaram de formas inexplicáveis, também. A menos que cometam algo muito grave.
Na empresa privada, os empregos são escorregadios. As hierarquias ostensivas e permanentes testam a cada dia os nervos, a estabilidade emocional, a inteligência psíquica e a competência específica de cada funcionário, sempre com o sinal de alerta de que a vaga está na corda bamba. É como se houvesse um reconcurso diário, para reafirmação da garantia do emprego. A concorrência está sempre ao lado e a capacitação permanente que o próprio trabalhador se obriga, não é apenas para promoção. É para não ceder o seu lugar ou não ser incluído entre os passageiros do próximo navio de cortes para economias diversas.
Como existem alguns funcionários públicos inexplicavelmente aprovados, muitos funcionários da iniciativa privada não foram, inexplicavelmente, aprovados na máquina pública. São esses, os que só saem de seus empregos quando querem ou por falência das empresas. Pessoas que por inteligência psíquica; neural; por méritos diários, reincidentes, critérios e capacidade sem fim, conquistam a estabilidade que a lei não lhes assegura. Trabalhadores que se constroem ao longo da vida e ajudam a construir ou elevar "suas" empresas aos patamares que elas alcançam.
Minha total admiração aos funcionários públicos que fazem jus - mesmo estando seguros em suas vagas - aos empenhos e desempenhos que os efetivaram de uma vez por todas, lá no início. E de forma especial, minha total admiração a todos os que fazem de suas aposentadorias, cinturões de lutadores pesos pesados que lutaram a vida inteira, quase ao pé-da-letra, sem amparo definitivo nem trégua e sob os olhares constantes dos que podem, de uma hora para outra, dar um tombo frio e cruel em suas carreiras.
