Nao Existe mal que Dure pra Sempre

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O meu sonho é dever muito, não ter nada e, o resto, deixar para os pobres.

Basta sentir que se poderia viver sem escrever para já não se ter o direito de fazê-lo.

Não dês a ninguém aquilo que te peça, mas aquilo que achas que necessita; e suporta logo a ingratidão.

Não poderá a velhice chegar tão depressa que não tenhamos de fazer meio caminho para ir ao seu encontro? De resto, o que é que nos faz velhos? Não é a idade, são as doenças.

Nada desejamos tanto como aquilo que não nos é consentido.

A grande coisa neste mundo não é saber onde estamos, mas para que direção estamos indo.

Os homens são poucas vezes o que parecem; eles trabalham incessantemente por parecer o que não são.

A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores.

Os homens medíocres cumprem um importante papel nos grandes acontecimentos unicamente porque não se encontram lá.

Muitos teriam podido chegar à sabedoria se não se tivessem achado já suficientemente sábios.

Quem está em boa paz não suspeita de ninguém.

Para o homem, apenas há três acontecimentos: nascer, viver e morrer. Ele não sente o nascer, sofre ao morrer e esquece-se de viver.

As coisas, em si mesmas, não são grandes nem pequenas, e quando nós consideramos que o universo é vasto, trata-se de uma ideia meramente humana.

Não é da abundância de bens que brotam riquezas, mas, sim, de uma mente contente.

Depois da liberdade desaparecer, resta um país, mas já não há pátria.

Não devemos julgar os homens por aquilo que eles ignoram, mas por aquilo que sabem, e pela maneira como o sabem.

Quem ganhar dinheiro com rapidez, se com rapidez não o guardar, com rapidez passará fome.

O homem em tempo de guerra chama-se herói. Pode não ser mais corajoso e fugir a toda pressa. Mas, ao menos, é um herói que bate em retirada.

A felicidade solitária não é felicidade.

Boris Pasternak
Doutor Jivago

As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a desvanecida
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Servem-nos, como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que partimos em um momento.