Nao Chega aos meus Pes
As maiores ameaças no mundo não partem das grandes inteligências usadas para o mal, mas dos ignorantes – inclusive os bem intencionados – que se mostram facilmente manipuláveis em seus objetivos. No confronto entre inteligentes ocorre um medição de forças em condições semelhantes, com chance de vitória para qualquer dos lados. Já com ignorantes a distribuição de forças é desigual e o resultado 100% imprevisível, pois que depende de quem os usa como meros braços executores, enquanto o cérebro pensante se mantém atuante e protegido. É como cortar tentáculos de um polvo que tenha o poder de regenerá-los continuamente por ação de uma cabeça invisível. Dessa forma, faz uso de estratégias e ataques que não podemos igualar, pois não se sabe de onde irão partir, quando irão ocorrer, e qual seu real poder de destruição.
Não me submeto a leis divinas nem humanas, mas tão somente às de minha consciência, as quais continuariam me norteando independente da existência de um Deus ou de governos que me sejam impostos com o intuito de tutelar as minhas prerrogativas de escolha.
De que modo entender sua posição no tabuleiro se ele não fosse todo dividido equitativamente entre casas pretas e brancas? E como imaginar o jogo sem se ter definidas as dimensões das casas que o compõem, se cada peça as desenhasse buscando supremacia no espaço sobre as outras ao longo de toda a disputa?
Preocupante não é ver “a instituição da família ser destruída por gays”, nem praticantes serem tolhidos no seu direito legítimo de professar livremente a sua fé. Assustador é como ambos podem fazer uso do direito que possuem para pregar o ódio uns contra os outros... mas, sobretudo como podem usar seu direito à liberdade para demonizar o que se mostre diferente; ou tentar antes ser-lhe indiferente, caso não consiga entendê-lo.
Não existem argumentos que consigam se mostrar mais inúteis do que os utilizados para demover-nos de uma decisão que nos tenha devolvido a qualidade de vida, ou contribuído de forma inequívoca para que nosso mundo se tornasse melhor do que antes de termo-la tomado.
Sempre se disse, e não há como desmenti-lo, que a criatividade é uma das mais importantes qualidades do ser humano. Mas seu excesso produz como efeito colateral um impacto paralisante sobre as rotinas obrigatórias, que lhe é contrária, mas que se prestam a garantir a estrutura onde a criatividade floresce. Se abrirmos espaço somente para o novo trazido por esta, a rotina que a sustenta entra em arriscada paralisia que acaba por inviabilizar a ambas. Há que encontrar tempo, portanto, para não tratar a uma como tortura e a outra como compulsão.
Ainda que passe tal impressão, arrogante é quem se arroga uma competência que não possui, ou esteja imbuído da pretensão de mostrar o que não consegue se impor como verdadeiro. Quem possui o conteúdo que exibe pode não agradar os desprovidos dele, mas nunca poderá ser taxado de impostor, ou ter subtraído o seu legítimo valor.
Não só se mostra desgastante quanto absolutamente improdutivo dispender energia medindo forças com quem se ocupe em esvaziar o valor de que te sabes detentor. Concentra-te apenas em deixar patente que tua inteligência é bem mais eficaz para defender-te do que a usada pelo oponente com o intuito de te sobrepujar.
O risco de não se dar tratamento digno e justo às pessoas é que, a partir da hora em que um primeiro se rebela, estabelece-se um referencial para que outros o imitem ao se perceberem na mesma situação de subserviência. No momento seguinte o agente dominante terá em todos os demais uma potencial ameaça de desmantelamento em cascata de sua estrutura de poder, tendo então que conviver com uma espada pendendo sobre sua cabeça durante todo o tempo em que permanecer repetindo com os que ficam os mesmos erros cometidos com o rebelado. Se for inteligente, restar-lhe-á então usar a experiência para mudar o rumo ou caminhar inexorável e seguramente para sua tragédia anunciada.
Não existe nada que se preste mais a resgatar o sentimento de justiça nas pessoas do que quando se vê alguém colocado no lugar onde sempre mereceu estar.
Ainda sonho com um mundo onde qualquer pessoa não precise mais temer expressar-se de forma diferente da maioria porque simplesmente não haverá mais minorias, mas tão somente igualdades. Onde as críticas não mais se voltem para o tema abordado na obra – que será apenas um dentre tantos possíveis – mas para o talento do autor ao criá-la. E onde este último não precise abrir mão desse talento por conta de pensamentos pequenos que não tiveram o mesmo privilégio com que o universo o presenteou para seguir em frente. A carruagem irá sempre preservar sua nobreza, independente dos cães que ladrem enquanto ela passa.
Não há como discordar de Umberto Eco quando defende que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecís que “antes falavam apenas num bar após uma taça de vinho, sem prejuízo para a coletividade". Mas há também que se considerar Max Ehmann, que séculos antes já nos lembrava de dar vez aos pobres de espírito, posto que eles também têm o que dizer. Na dúvida o bom senso nos pede ponderação entre levar a sério qualquer bobagem replicada muitas vezes ou assumir como premissa que tudo o que chega pelas redes não é digna de crédito.
Se procuras pelo líder que não irá trair teus ideais não te limites ao seu histórico: ele pode apenas não ter tido chance de mostrar a que veio até aqui. Também não te norteies pelo que promete realizar: quando alcançar o poder tudo pode se revelar o oposto. Insensato ainda apoiá-lo pelo que combate: talvez possa empreender ações bem piores que essas. Estejas, porém, muito atento às suas IDÉIAS: essas é que efetivamente falam do que ele poderá te oferecer!
Mostra-se absolutamente legítimo rebelar-se contra o poder do qual discordamos e que não aceitamos nos seja imposto. Mas vencida a contenda e cessada a submissão compulsória, moralmente não há mérito algum em tripudiar sobre uma ameaça que não mais existe, nem sapatear sobre um amor-próprio que a própria derrota já feriu o suficiente.
Você pode até não conseguir evitar uma rejeição interna por algo que seu sentimento denuncie possuir raiz em preconceito... mas, ao externa-lo, passa a responder no mesmo nível de quem se arrogar o direito de leva-lo para a prática.
Não confie em alguém cujo sorriso se mostre apenas uma contração labial em que os demais músculos da face não revelem o mais leve traço de sincera alegria.
Não é a ideologia que faz a pessoa, mas as pessoas é que deturpam e emburrecem as ideologias que abraçam.
Não há quem possa afirmar "não ter inimigos" apenas porque nunca quis levar prejuizo a outrem. Nossas mais nobres ações podem contrariar interesses e despertar o ódio de supostos atingidos. Assim, você pode tanto ser adorado quanto odiado pela mesma razão, pois tem mais a ver com o desequilíbrio do outro do que com todo o seu bom senso.
Solidariedade passa de virtude para conivência quando o beneficiado não contribui em coisa alguma para a mudança buscada e você gasta a energia de que outros tanto precisam.
