Nao Amplie a Voz dos Imbecis

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POR QUE SABER MAIS PODE NOS FAZER PERCEBER O QUANTO NÃO SABEMOS?

Existe uma ideia intuitiva de conhecimento segundo a qual aprender significa reduzir dúvidas.

Muitas vezes acontece o contrário.

Quanto mais profundamente conhecemos determinado assunto, mais percebemos suas exceções, limites, controvérsias e perguntas ainda abertas.

A ignorância pode ser confortável porque simplifica.

O conhecimento frequentemente complica.

Isso não é defeito. É maturidade epistemológica.

Quem conhece pouco pode enxergar duas alternativas. Quem conhece mais talvez perceba vinte.

Quem conhece pouco pode exigir certeza. Quem conhece profundamente talvez saiba exatamente por que determinada certeza não é possível.

Por isso, confiança e conhecimento não caminham necessariamente na mesma proporção.

Existe uma competência importante em conseguir calibrar aquilo que sabemos com aquilo que acreditamos saber.

Essa capacidade é fundamental para discernimento.

Não basta acumular conhecimento. Precisamos reconhecer seus limites.

A frase “não sei” pode representar ignorância.

Mas também pode representar uma das formas mais sofisticadas de conhecimento.

Há pessoas que não sabem porque não aprenderam.

E há pessoas que sabem o suficiente para reconhecer aquilo que ainda não podem afirmar.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador

QUANDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMEÇA A PENSAR POR NÓS

A inteligência artificial não precisa dominar o ser humano para diminuir sua autonomia. Basta que o ser humano deixe de dominar aquilo que delega a ela.

A grande questão do nosso tempo talvez não seja se as máquinas conseguirão pensar como nós, mas se continuaremos pensando quando elas puderem pensar por nós.

Pensar com uma máquina não é o mesmo que entregar à máquina aquilo que deveríamos continuar pensando.

A tecnologia pode ampliar a inteligência sem ampliar a consciência. Pode acelerar a resposta sem acelerar a compreensão. Pode entregar conhecimento sem entregar discernimento.

E aqui mora o periGO: aquilo que nos ajuda a PENSAR também pode, silenciosamente, começar a PENSAR por nós.

Quanto mais pronta a resposta, maior deveria ser nossa disposição para perguntar.

Porque uma resposta pode estar pronta sem estar certa.

Pode estar CERta e ainda nos tornar inCERTos sobre aquilo que realmente sabemos.

A inteligência artificial produz respostas. O problema começa quando transformamos produção em comprovação.

PRODUZIR não é PROVAR.

INFORMAR não é FORMAR.

RESPONDER não é compreender a PERGUNTA.

Saber utilizar uma ferramenta não significa saber avaliar aquilo que a ferramenta utiliza para nos convencer.

É por isso que tenho insistido, em minha produção acadêmica sobre discernimento, educação, metacognição e autonomia, numa diferença aparentemente pequena, mas decisiva: receber informação não significa conceder autoridade à informação.

A mente recebe.

A consciência percebe.

O discernimento pesa.

E aquilo que não PESAMOS pode acabar PESANDO sobre nós.

Talvez este seja o paradoxo da inteligência artificial: quanto mais inteligente se torna a ferramenta, mais inteligência precisamos desenvolver para não terceirizarmos a nossa.

Não devemos ter medo de máquinas que aprendem.

Devemos prestar atenção em seres humanos que desaprendem porque as máquinas aprenderam por eles.

DESaprender pode ser necessário para REaprender.

Mas desaprender a pensar para aprender a pedir respostas é outra coisa.

Quando perguntamos tudo, corremos o risco de deixar de perguntar a nós mesmos.

Quando terceirizamos todas as respostas, podemos terceirizar também as perguntas.

E quem terceiriza a pergunta talvez já tenha terceirizado parte do pensamento antes mesmo de receber a resposta.

Por isso, não basta prestar atenção na resposta produzida pela inteligência artificial.

É preciso prestar atenção na ATENÇÃO que estamos prestando à resposta.

Depois, é necessário ir além.

Precisamos observar os critérios com os quais julgamos aquilo que observamos.

Porque pensar sobre o pensamento ainda é pensamento.

Discernir exige decidir quanto poder aquilo que pensamos continuará tendo para pensar por nós.

A pergunta do futuro, portanto, não será apenas:

“O que a inteligência artificial consegue fazer?”

Será também:

“O que deixamos de conseguir fazer depois que ela começou a fazer por nós?”

A inteligência artificial pode ser uma extraordinária ferramenta de emancipAÇÃO.

Mas toda emancipAÇÃO tecnológica exige responsabilidade sobre a própria AÇÃO.

Caso contrário, aquilo que deveria ampliar nossa AUTOnomia poderá apenas automatizar nossa HETEROnomia.

A máquina não precisa nos substituir.

Basta que, pouco a pouco, substituamos a nós mesmos.

O verdadeiro desafio não é impedir que a inteligência artificial aprenda a pensar.

É impedir que o ser humano aprenda a NÃO pensar.

Porque talvez o maior risco da inteligência artificial não seja uma máquina adquirir consciência.

Talvez seja o homem, cercado de inteligência, abrir mão da própria.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador

A mente não precisa MENTIR para nos enganar; basta que acreditemos nela sem interrogá-la.

Carlos Eduardo Balcarse

O pensamento que não aceita ser PENSADO acaba, silenciosamente, pensando por nós.

Carlos Eduardo Balcarse

Quem não examina o próprio pensamento transforma opinião em prisÃO e convicção em carcereiro.

Carlos Eduardo Balcarse

Não basta mudar de ideia; é preciso descobrir se fomos nós que mudamos a ideia ou se a ideia mudou quem somos.

Carlos Eduardo Balcarse

A pergunta mais perigosa não é a que não tem resposta, mas a que recebe uma resposta antes de merecer confiança.

Carlos Eduardo Balcarse

Não somos livres porque pensamos; somos mais livres quando conseguimos decidir quanto poder conceder ao que pensamos.

Carlos Eduardo Balcarse

A ideia que não pode ser interrogada já não pede compreensão: exige submissÃO.

Carlos Eduardo Balcarse

A verdade não precisa parecer VERDADEira; a mentira, quase sempre, precisa.

Carlos Eduardo Balcarse

Saber muito não impede o erro; às vezes apenas oferece ao erro um vocabulário melhor.

Carlos Eduardo Balcarse

O excesso de informação não elimina a ignorância; pode apenas torná-la mais bem INFORMADA.

Carlos Eduardo Balcarse

Conhecer a resposta não significa conhecer o caminho que tornou a resposta conhecível.

Carlos Eduardo Balcarse

A evidência não deve servir à certeza; a certeza é que deve aprender a SERVIR à evidência.

Carlos Eduardo Balcarse

O saber que não suporta revisão não quer ser conhecimento; quer ser autoridade.

Carlos Eduardo Balcarse

Uma crença pode sobreviver à falta de evidência; uma investigação séria não deveria sobreviver à falta de dúvida.

Carlos Eduardo Balcarse

O fato não precisa concordar conosco; somos nós que precisamos aprender a discordar de nós diante do fato.

Carlos Eduardo Balcarse

Usar inteligência artificial não é deixar de pensar; deixar de pensar porque a usamos é que pode ser inteligência ARTIFICIAL demais e autonomia humana de menos.

Carlos Eduardo Balcarse

A resposta instantânea pode economizar minutos e custar anos de capacidade não exercitada.

Carlos Eduardo Balcarse

A IA não precisa substituir o ser humano; basta que o ser humano se acostume a substituir a si mesmo.

Carlos Eduardo Balcarse