Nao Alimentar Esperancas

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Hoje a gente bebe por tudo aquilo que a gente guarda e que não serve para mais nada, a não ser para machucar.

Para qualquer outra pessoa, é lixo; para mim, era a prova material de que o que eu vivi não foi um delírio da minha cabeça.

O silêncio dela não é falta de tempo, é escolha.

Hoje a gente bebe pra ver se o corpo esquece os caminhos que os pés não podem mais trilhar.

O soco no estômago é saber que, enquanto eu vou passar o dia evitando as redes sociais pra não ver foto de casal feliz, ela provavelmente vai estar ganhando flores...

Veio só aquele aperto seco no peito, tipo quem reconhece uma cicatriz antiga, aquela que já não sangra mas ainda dói quando aperta no lugar certo.

Não tô pronto pra dividir o mesmo aleatório com um fantasma no meio da semana.

Hoje a gente brinda pelas mensagens que a gente tem a decência de não mandar — porque às vezes o maior gesto de amor que resta é o silêncio que a gente escolhe segurar.”

Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.

Aquele gosto de ‘quase’ entalado, que dói até mais que um ‘não’ de verdade, porque o ‘quase’ fica ali, mofando, esperando uma próxima brecha de fraqueza.

O compasso hoje não foi só meu. Foi teu também — só que o teu ninguém escreve.

Talvez seja assim mesmo que a coisa funciona. Não é uma porta que fecha de um dia pro outro, é mais um instante aqui, um minuto ali, se somando devagar, sem pedir licença…

Não é uma sensação boa, mas confesso que também não é totalmente ruim. Depois de tanto tempo só sentindo falta, dói de um jeito diferente sentir raiva. Quase parece um sinal de vida.

O compasso hoje não desafinou. Ele mudou de ritmo. Ficou mais seco, mais duro, tipo bateria sem melodia por cima ainda.

O celular não sabe que dói. Ele só sabe contar os anos e mostrar de volta, feliz da vida, achando que tá me fazendo um favor.

O compasso hoje não desafinou por causa dela. Desafinou por causa do tempo mesmo — esse troço abusado que insiste em provar que oito anos não somem só porque a gente resolveu seguir em frente.

O compasso hoje não desafinou nem uma vez. Ele só ficou mais lento, tipo música de final de um show longo, quando a plateia já sabe que a noite tá quase acabando, mas ainda quer mais uma música antes de ir embora.

Uma curtida não desmancha convite de casamento nenhum. Mas o peito não entende essas contas direito, ele só sente o que sente, na hora que sente.

O compasso hoje bateu descompassado de um jeito novo — não de tristeza, nem de raiva. De esperança sem fundamento nenhum, que talvez seja o tipo mais perigoso de todos.

O compasso hoje não tocou música nenhuma. Ficou só o silêncio de depois, esse que às vezes diz mais que qualquer letra.