Nao Alimentar Esperancas
E dói saber que não falhei em te amar,
falhei apenas em ser suficiente.
No amor, não vence quem mais se doa
— vence quem o outro sente.
Não perdi porque amei pouco,
perdi porque amar não garante lugar.
O coração não premia quem insiste,
ele só decide quem vai ficar.
Todavia,
não me importo nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, pois a entrego inteira ao que me atravessa
— ao amor que me desfaz,
à fé que me refaz, à chama que insiste mesmo quando tudo em mim é cinza.
Se caminho é porque
algo maior me chama pelo nome,
e aceito perder-me para que outros se encontrem em mim.
Que minha dor seja ponte,
que meu silêncio seja abrigo,
que meu cansaço ensine alguém
a descansar.
Não me pertenço
— e nisso encontro paz.
Vivo como quem se derrama,
não como quem se guarda.
Se algo em mim tiver valor,
que seja apenas isto:
ter amado até o fim,
sem poupar o coração.
Talvez a gente aprenda,
que amar não é porto pronto,
é vento que insiste e ensina.
Somos dois tentando o rumo,
errando juntos a bússola,
mas ainda assim seguindo.
Somos um barco,
feito de falhas e esperança,
rangendo sob o peso dos dias.
Teu nome é o remo que insiste,
minha fé é a vela rasgada
que só se abre quando confia.
O mar interior nos prova,
com ondas que não pedem licença.
A lição do mar é simples e dura:
ou afundamos sozinhos,
ou aprendemos,
de mãos dadas,
a flutuar no amor que fica.
Talvez não seja egoísmo —
talvez seja só o coração aprendendo, enfim, que amar o outro não exige
abandonar a si mesmo.
A luz não se apaga:
ela desiste.
Fica fraca demais para revelar a verdade.
Meus pensamentos apodrecem em silêncio,
como algo vivo que não quer morrer.
Há vozes que não falam — lembram.
Repetem meus nomes antigos,
meus erros intactos.
Cada memória é uma lâmina lenta,
cortando sem jamais sangrar.
Quando finalmente aceito o escuro,
entendo:
não estou perdido
— fui guardado aqui.
E a sombra que me observa
há tanto tempo sou eu,
esperando que eu não acorde.
Talvez eu tenha feito da solidão um abrigo, não por desprezo ao amor,
mas por respeito ao estrago que ele sabe fazer.
Porque perder alguém não é sobre despedidas, é sobre as partes de nós que nunca voltam.
Carrego um vazio
Aprendi a ficar só como quem aprende a respirar devagar,
não por falta de ar,
mas por medo de se afogar no excesso.
Já houve alguém, é verdade,
alguém que cabia no meu silêncio
e o chamava de casa.
Hoje, carrego um vazio que não grita,
ele apenas existe.
É um espaço onde as palavras moram sem som,
onde sentir demais virou um cansaço bonito,
dói, mas às vezes descanso nele
como quem aceita a própria sombra.
Talvez eu tenha feito
da solidão um abrigo,
não por desprezo ao amor,
mas por respeito ao estrago
que ele sabe fazer.
Porque perder alguém
não é sobre despedidas,
é sobre as partes de nós
que nunca voltam.
Então fico assim:
Intenso demais para passar ileso,
profundo demais para tocar sem cair.
Amar, para mim, sempre foi transbordar
— e nem todo transbordo salva,
alguns apenas ensinam
a nadar sozinho.
Há um lugar
Carrego uma terra inteira dentro do peito, não feita de mapas,
mas de lembranças que
insistem em voltar.
Há um lugar onde tudo soa mais vivo, onde o vento sabe meu nome
e o silêncio não pesa.
Aqui, as coisas existem,
mas não me reconhecem.
O céu é o mesmo, dizem,
mas não brilha igual ao
que mora em mim.
Sinto falta até do que nunca toquei,
porque a ausência também aprende a criar raízes.
Que eu não me perca antes de voltar,
nem desaprenda o caminho daquilo que me forma.
Que eu ainda veja,
nem que seja por dentro,
o lugar onde meu coração repousa.
Porque há saudades que não pedem distância —
pedem reencontro.
A senha do coração
Meu coração não abre com promessas,
ele pede gestos pequenos,
como quem gira a chave devagar
para não acordar o passado.
Cada batida é um código vivo,
feito de silêncios respeitados
e presenças que sabem esperar.
Quem tenta forçar a entrada se perde,
porque aqui amor não é invasão,
é reconhecimento.
É saber ler os sinais nas entrelinhas,
tocar sem ferir,
ficar sem possuir,
como quem acende uma luz
e não apaga a sombra.
E quando alguém descobre a senha,
não encontra um prêmio —
encontra responsabilidade.
Porque amar meu coração
é aceitar suas rachaduras como janelas,
seu medo como aviso
e seu amor como casa:
não se entra para passar,
entra-se para permanecer.
Quando Amar é Calar
Há amores que não se contam,
há amores que não se compartilham,
há amores que vivem em segredo,
há amores que marcam,
e há amores que temos
medo de enfrentar.
Medo de a amizade acabar,
medo de tocar no que sustenta,
pois há amores que o tempo entrelaça, e outros que o tempo,
em silêncio, desentrelaça.
No fim,
amar também é escolher o silêncio,
quando o coração grita por coragem,
mas a alma entende
que certas verdades mudariam tudo.
Não me importa se às vezes não recebes, meu amor é chama que
não se apaga, queima mesmo na distância, e retorna a mim em
doces lembranças tuas.
Não se entristeça se nem todos sabem receber, o amor verdadeiro não se mede em retorno.
O que você doa com ternura
e paixão volta suavemente,
Feito abraço ao luar.
Se a noite é breve,
o sentimento não é.
Final de semana acaba,
mas o amor insiste em ficar.
E enquanto o mundo dorme,
meu coração acorda
só pra te amar um pouco mais.
Date
Marcamos um date sem promessas exageradas, apenas o desejo silencioso de não estar só.
Antes do filme, dividimos qualquer coisa na mesa, mas o que realmente se partia ali era o medo bonito de sentir demais.
As mãos frias entregavam verdades que a voz escondia, a timidez pesava nos intervalos do silêncio.
No escuro do cinema,
você encostou em mim
como quem pede abrigo sem saber se pode, e eu deixei
— porque naquele instante,
teu corpo entendia o meu mais do que palavras.
Brincamos tentando enganar o fim da noite, ursinhos viraram promessa que ninguém disse em voz alta.
Te deixei na porta com um beijo que não queria ser último,
fui embora carregando tua ausência no peito, e em casa, tua mensagem me atravessou:
“o date foi perfeito”.
Alguns encontros não pedem continuação — eles marcam a gente para sempre.
Às vezes quero desaparecer por algumas horas,
não pra morrer, não pra ir embora,
só pra não precisar ser nada.
Queria um lugar onde eu pudesse chorar sem culpa,
gritar sem explicação,
ficar em pedaços sem ter que me recompor rápido demais.
Eu digo que tô bem
como quem fecha a porta devagar.
Por dentro,
tudo faz barulho.
Não é dor,
é cansaço de existir acesa.
Queria um lugar sem nome,
onde eu pudesse cair
sem ninguém me pedir força.
Se eu ficar em silêncio,
talvez eu me encontre.
Não há tempestade que nos separe,
nem vento que leve a força que sinto.
Teu amor é abrigo que nunca desaparece,
um fio invisível que me liga ao infinito.
Estou com estabilidade com a conexão,
Não só da rede que nos mantém juntos,
Mas da chama que acende no coração,
Do toque suave que dissolve todos os pontos.
Cada palavra tua é sinal constante,
Que me alcança mesmo na distância e no tempo,
E sinto o mundo inteiro mais vibrante,
Quando me perco no teu silêncio
e alento.
Não há falha,
queda ou interrupção,
Que apague a força do
que temos em nós,
Porque a tua presença
é a minha razão,
Meu porto seguro,
meu rastro de luz e voz.
E assim, com cada gesto e intenção,
Reafirmo, com amor e devoção,
Que mais que uma conexão de transmissão,
És a frequência pura do meu coração.
