Mundo
Este mundo vai se acabar
Haverá um tempo em que existirão poucas pessoas e os poucos serão gente de qualidade, não muitos supérfluos. A propaganda não existirá para promover o muito, o inútil e o daninho à vida, ao contrário, virá do real desejo de preservar e promover o conhecimento da sua Natureza. Os materiais usados serão mínimos, ampliados pela imaginação, que será usada por todos para criar, através da arte, um mundo que realiza a sua beleza. Assim, só haverá Um. A doença da cobiça se findará e o dinheiro não será mais sinônimo de culpa e auto sabotagem. Apesar dos seus inúmeros defeitos, as pessoas encontrarão um denominador comum que as una, fazendo que parem de competir e se voltem ao apoio de todos por todos, acabando a inimizade recíproca. Isso é difícil de acontecer, mas é inevitável, sob a pena de não haver mais humanidade.
Leve
No mundo, todos podem ser poetas. Vão produzir poesias com ideias comuns, como são as pessoas comuns, que nunca se aprofundaram nas rimas. Isso eu pensava sentado à mesa do bar, comendo um bolinho de batata, acompanhado de um suco de melancia. Existiria uma situação mais adorável? Eu tentava, em vão, me convencer de que havia algum motivo para que eu saísse dali e fosse para casa. Em outro lugar, em qualquer lugar é a mesma coisa: onde eu estou é a perfeição, não há a necessidade de esse ir e vir interminável. É aqui que eu estou, carregando a minha felicidade para toda parte.
A ponte do arco-íris
Visitamos em sonho o mundo das formigas, onde não há o sexo. As formigas se recolheram, mas daqui a dois anos vão voltar e, através da ponte do arco-íris, Bifrost, vão chegar à Terra e instalar um reinado de trilhões de seres, aniquilando toda outra forma de vida. Não há escapatória, mas os homens tentarão de tudo para descobrir um modo de sobreviver. As espaçonaves ainda não estão prontas, e a única maneira é lacrar a ponte com aço e lutar.
Entidade fantasmagórico espectral
Não existe o lixo, existem coisas fora de lugar. O mundo pede que o coloquemos na ordem correta. A felicidade está em enxergarmos o conjunto que surge se nos detemos nas pequenas unidades. Alguém que eu não posso ver sorriu para mim atrás dos livros da estante.
Quando o Texto Me Lê
Eu pensei que escrevia
para dizer ao mundo.
Mas escrevo
para escutar
o que ainda não sei.
A palavra sai achando
que sabe o caminho,
desfila segura,
convencida.
Até que eu volto.
Leio.
E o texto me olha de volta.
Ler o que escrevi
é chegar atrasado
a mim mesmo.
Um espelho sem rosto,
só gesto,
só intenção escancarada.
O medo se esconde
em frases longas,
cheias de vírgulas,
com medo do fim.
A coragem aparece
sem alarde,
num verbo simples
que não pede desculpa.
Enquanto escrevo,
defendo ideias.
Quando leio,
negocio com elas.
Descubro palavras
que não eram minhas
apenas passaram.
E verdades pequenas
que se sentaram
e ficaram.
O texto pergunta,
com ironia mansa:
Era isso mesmo?
Às vezes dói reler.
A genialidade de ontem
vira eco vazio hoje.
Outras vezes assusta:
fui eu
que escrevi isso?
Sim.
Fui eu.
Naquele dia.
Com aquele peso.
Com aquela lucidez possível.
O texto não mente:
ele registra o movimento.
Escrever não acaba
no ponto final.
Começa
quando o autor
vira leitor.
Ali,
o texto também escreve.
Aponta.
Ensina.
Cutuca.
Não grita.
Mas fica.
Quem não relê
perde metade da aula.
Porque escrever é falar.
E reler
é escutar.
E quase sempre
é na escuta
que a gente aprende.
No fim,
eu queria ensinar alguém.
Mas o papel, paciente,
me mostrou:
o aluno
era eu.
“O Mundo e as Palavras”
Como fazer uma poesia se o mundo não vive uma poesia? Olho pela janela e vejo pressa, vejo indiferença, vejo gente passando por gente como se fossem sombras. Onde está o verso nesse corre-corre sem sentido? Onde está a rima nesse barulho que não cessa?
Como falar de amor se o mundo não ama mais? As pessoas tocam telas, não mãos. Enviam corações digitais, mas esqueceram como se abraça de verdade. O amor virou pressa, virou conveniência, virou algo que se descarta quando incomoda. E eu aqui, com palavras antigas tentando descrever um sentimento que parece fora de moda.
Como escrever histórias se o mundo não faz mais histórias bonitas que tocam o coração? Tudo é rápido, superficial, descartável. As narrativas viraram manchetes, os encontros viraram notificações, os sonhos viraram metas de produtividade. Ninguém mais se senta para ouvir uma história completa. Querem o resumo, a versão curta, o final sem o caminho.
Como prometer um mundo diferente se o mundo não quer mudar? Ele insiste nos mesmos erros, repete as mesmas dores, ignora as mesmas lições. Falo de esperança e me olham como se eu falasse língua estrangeira. Falo de transformação e dizem que sou ingênuo.
Mas talvez seja exatamente por isso que preciso continuar. Porque se o mundo não vive poesia, alguém precisa escrevê-la. Se não há amor suficiente, que eu possa oferecer o meu. Se as histórias não tocam mais, que eu insista em contar aquelas que fazem o coração lembrar que ainda bate.
Talvez mudar o mundo comece justamente quando nos recusamos a aceitar que ele não pode ser diferente.
“Além das Medidas”
O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo. Não cabe nos mapas, não se mede em quilômetros nem se pesa em balanças de ouro.
É um sentimento que escapa pelas frestas do possível, que transborda os oceanos e se derrama sobre montanhas invisíveis.
Quando te penso, o universo fica pequeno.
As estrelas são apenas pontos tímidos comparados ao brilho que carregas nos olhos. A vastidão dos mares se torna uma poça d’água diante da profundidade do que sinto. O mundo gira, mas meu amor permanece fixo, imenso, inalterável como uma constelação que só eu consigo ver.
Não há atlas que contenha este sentimento, não há horizonte que o limite. Ele existe num lugar próprio, numa geografia secreta onde só habitam duas pessoas: eu, que amo, e tu, que és amada. Ali, nesse território sem fronteiras, construímos uma dimensão maior que todas as outras feita de instantes, de silêncios partilhados, de promessas sussurradas ao vento.
O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo porque criou um mundo próprio, infinito, eterno.
Ainda Assim, Respiramos
Vimos tudo.
Mas não deixamos que tudo nos leve.
O mundo gritou alto demais,
rasgou papéis,
confundiu nomes,
trocou cuidado por ruído.
E nós, cansados,
ficamos olhando.
Não por covardia.
Por sobrevivência.
Há dias em que resistir
é apenas levantar da cama,
é continuar sentindo
quando sentir dói.
Somos testemunhas, sim.
Mas também somos silêncio fértil,
olhar atento,
memória que não se apaga.
Enquanto o palco treme,
há quem plante esperança nos cantos,
quem acenda pequenas luzes
longe dos holofotes.
Nem todo gesto é barulho.
Nem toda força é grito.
Às vezes, viver
já é um ato de coragem.
Às vezes, respirar
é a forma mais bonita de ficar.
E mesmo quando parece pouco,
é o suficiente
para que a manhã volte
devagar
mas volte.
O Labirinto que Construímos Dentro do Mundo
Há quem diga que o mundo é difícil. Há quem acorde pela manhã e veja no horizonte um campo de batalhas invisíveis: contas a pagar, afetos mal resolvidos, desigualdades antigas, dores que atravessam gerações, silêncios que pesam mais do que palavras. E então se conclui, quase sempre sem pensar: o mundo é complicado.
Mas será mesmo?
Talvez o mundo, em sua essência, nunca tenha sido complicado. A manhã nasce simples. O sol não hesita em nascer. A chuva não faz discursos antes de cair. A árvore não questiona se deve crescer para cima ou para os lados. O rio não perde tempo odiando a pedra que encontra no caminho; ele apenas contorna e segue. A natureza inteira parece conhecer uma sabedoria silenciosa que nós, humanos, tantas vezes desaprendemos.
O complicado talvez não esteja no mundo. Esteja em nós.
Somos nós que transformamos diferenças em muros. Somos nós que pegamos aquilo que era apenas diverso e chamamos de ameaça. A cor da pele, a língua, a fé, o sotaque, o lugar de origem, o modo de amar, a forma de pensar. O que poderia ser riqueza vira conflito. O que poderia ser encontro vira disputa. O que poderia ser aprendizado vira preconceito.
O mundo oferece matéria-prima. Nós escolhemos a forma.
Pegamos o tempo, que era só passagem, e o transformamos em ansiedade. Pegamos o amor, que era só entrega, e o transformamos em posse. Pegamos o trabalho, que era dignidade, e o transformamos em prisão. Pegamos a política, que deveria ser serviço, e a transformamos em guerra. Pegamos a fé, que poderia ser consolo, e a transformamos em julgamento.
E depois culpamos o mundo.
Há uma ironia triste nisso tudo: complicamos a vida tentando controlá-la. Queremos prever tudo, garantir tudo, vencer sempre, nunca perder, nunca sofrer, nunca errar. Queremos uma existência lisa, sem rachaduras, sem tropeços, sem despedidas. Mas viver nunca foi isso. Viver é atravessar incertezas com coragem. É aceitar que algumas portas fecham, que algumas pessoas partem, que algumas respostas nunca virão.
O simples nos assusta porque exige humildade.
É mais fácil criar teorias do que oferecer perdão. É mais fácil discutir grandes ideias do que pedir desculpas. É mais fácil falar de humanidade do que tratar bem quem está ao lado. É mais fácil reclamar da escuridão do que acender uma vela.
Talvez por isso o mundo pareça tão pesado: carregamos pesos desnecessários. Orgulho antigo. Mágoas colecionadas. Competições inúteis. Aparências mantidas a custo da alma. Queremos parecer fortes, enquanto por dentro estamos apenas cansados.
Mas existe um caminho de volta.
Ele começa quando entendemos que nem tudo precisa ser guerra. Nem toda opinião contrária é inimiga. Nem toda diferença é ameaça. Nem toda demora é fracasso. Nem toda lágrima é fraqueza. Nem todo silêncio é vazio.
Há beleza no que é simples: sentar e ouvir alguém de verdade. Dividir o pão. Cumprimentar com respeito. Trabalhar com honestidade. Amar sem teatro. Reconhecer erros. Recomeçar sem vergonha. Olhar para o outro e lembrar que ele também carrega dores invisíveis.
Talvez a pergunta correta não seja “qual é a diferença no mundo?”, mas qual diferença temos criado dentro de nós e entre nós.
Porque o mundo, no fundo, continua girando com a mesma serenidade antiga. O céu continua abrindo espaço para as estrelas. O mar continua beijando a areia. A terra continua oferecendo frutos. O vento continua visitando janelas esquecidas.
Quem se perdeu fomos nós.
E ainda assim há esperança. Porque se fomos nós que complicamos, também somos nós que podemos simplificar. Se erguemos muros, podemos abrir portas. Se espalhamos ruídos, podemos semear silêncio. Se criamos ódio, podemos escolher respeito.
O mundo talvez nunca tenha pedido tanto de nós. Talvez ele peça apenas isto: menos máscaras, menos vaidade, menos medo… e mais humanidade.
Desabroche, mas no seu tempo
Existe uma pressa no mundo que, às vezes, nos adoece sem fazer barulho. Uma pressa que olha para o relógio como quem olha para um juiz. Uma pressa que inventou a mentira de que há idade certa para começar, idade certa para vencer, idade certa para sonhar, idade certa até para ser feliz.
E então muita gente acredita.
Acredita que, depois de certo tempo, tudo fica mais difícil. Que o coração envelhece junto com o corpo. Que os sonhos criam ferrugem. Que a coragem passa a morar só na juventude. Como se a vida colocasse uma placa invisível diante de nós dizendo: “até aqui você podia; daqui para frente, apenas aceite”.
Mas a vida não fala assim.
A vida fala por estações. E cada estação tem sua beleza, seu peso, seu fruto e sua revelação. Há flores que se abrem cedo, quase ainda de madrugada. Há outras que precisam de mais sol, de mais chuva, de mais silêncio. Nem por isso são menos belas. Nem por isso erraram o tempo. Apenas obedeceram ao ritmo secreto com que Deus, o destino ou a própria existência as chamou para florescer.
Desabrochar não é correr. É amadurecer.
Há pessoas que só descobrem a própria força depois das perdas. Há quem encontre sua voz depois de anos de silêncio. Há quem só aprenda a amar de verdade depois de ter juntado os cacos do próprio peito. Há quem comece uma nova história quando todos ao redor já tinham decretado o fim do livro.
E como é bonito isso.
Porque viver não é cumprir calendário; viver é acender sentido. Não importa se alguém começou aos vinte, aos quarenta, aos sessenta ou aos oitenta. O que importa é que começou. O que importa é que ainda houve chama, ainda houve desejo, ainda houve entrega. Enquanto houver fôlego, há tempo de nascer por dentro outra vez.
Talvez o grande erro de muita gente seja confundir idade com limite. Idade não é muro; é estrada. Não é sentença; é experiência. Não é fechamento; é acúmulo de céu e de chão dentro da alma. Em muitos casos, é justamente o passar dos anos que nos devolve a coragem mais bonita: a de viver sem pedir licença ao medo.
Chega uma hora em que a gente entende que não precisa provar nada para ninguém. Precisa apenas não desistir de si. E isso muda tudo. Porque, quando alguém decide acreditar novamente em si mesmo, até os dias comuns começam a florescer de outro jeito.
Por isso, desabroche. Mas no seu tempo.
Sem se comparar com a primavera do outro. Sem invejar o jardim alheio. Sem achar que sua hora passou só porque o mundo resolveu medir a vida com réguas apressadas. O fruto que amadurece no tempo certo tem mais doçura. A flor que respeita o próprio processo tem mais raiz.
Acredite: não ficou tarde demais.
Ainda há beleza esperando sua coragem. Ainda há caminhos esperando seus passos. Ainda há instantes que a vida quer lhe entregar como quem diz baixinho: “veja, ainda não terminei com você”.
E talvez a maior sabedoria seja justamente esta: receber cada momento como uma nova oportunidade de existir com inteireza. Viver o agora com gratidão. Abraçar o que chega. Honrar o que passou. E seguir, não com pressa, mas com presença.
Porque a vida não premia quem corre mais.
A vida revela seus milagres a quem permanece.
A quem acredita.
A quem, apesar de tudo, ainda escolhe florescer.
O Suave Ritmo da Persistência
Persistir não significa correr sem parar ou carregar o mundo nas costas com desespero. A verdadeira persistência é mansa: é a decisão silenciosa de dar mais um passo, por menor que ele seja, logo após um dia de cansaço. A desistência sempre nos oferece um caminho que parece mais fácil e sem esforço, mas ela também apaga a nossa luz e estaciona a nossa alma. Quando as forças parecerem poucas, não desista; apenas diminua o passo, respire fundo e confie que o Criador renova as energias de quem escolhe continuar caminhando no bem.
O mundo caminha com um falso equilíbrio, onde as oportunidades de uns surgem do sofrimento de muitos.
Muitos lutam a vida inteira para serem lembrados pelo mundo, mas viver pela família é a única forma de não ser esquecido.
O homem mais rico do mundo trocaria tudo por mais um dia de vida; o mais sábio cuida-se hoje para viver melhor amanhã.
