Memória de Elefante
"Na minha morte, pelo amor da coerência, não quero a meio mastro hipocrisia tampouco silêncio de risos infames em favor de minha memória; quero amor e ódio presentes."
Quando você veio até mim, espontaneamente,
Oferecendo-me na infância sorrisos inocentes,
Bolas de beijos roubados, bijuterias de amores
Emprestados, trocas de palavras secretas e me
Acenando para salas antigas, aí ficaram minhas
Memórias ofuscadas, no decorrer dos meus dias.
A casa, o automóvel, o viaduto... tudo isso será tragado pelo grande sumidouro das coisas da vida. A nossa memória, não!
Tempo
Penso na beleza que há na ideia de nascer, renascer, reinventar-se, renovar-se, recomeçar...
No infindável ciclo!
Penso no tempo: imensurável, incontrolável, implacável, gênio indomável... mas permissivo e generoso.
Há tempo para tudo, não é mesmo? É belo o tempo de querer, de construir, de esperar, de doar, de sofrer, de sorrir, de amar, de renunciar, de curar e de sonhar...
Penso em chamas que, acesas, jamais poderão se apagar!
Penso no sorriso, na voz e naquele olhar, que viverão para sempre na memória, existirão eternamente na lembrança. E vida é pensamento...
Ao mesmo tempo, tudo é efêmero: há que se desfrutar da vida, tomar logo o que se quer, pois tudo passa em velocidade inebriante.
Oh! Mas é preciso saber parar! E "olhar os lírios do campo e as aves do céu" . E ouvir a música do mar e ter... tempo: para olhar o sol e mais estrelas, mirar a lua, buscar serenidade e respirar... respeitar a vida em toda a sua voluntariedade! E vida é tempo...
Penso no tempo que embrutece uns.
Penso no tempo que ensina outros a serem gentis, compassivos e delicados.
Penso no tempo que, a alguns, só pode ensinar que esperem o tempo passar.
No infindável ciclo!
Na verdade eu nem sei quanto tempo durou, porque o que realmente importa são as memórias inesquecíveis que o meu coração guardou.
Você logo descobrirá que, em questões do coração, as lembranças são muito mais gentis que a realidade.
Às vezes falo de coisas determinadas
afasto-me irremediavelmente do silêncio do horror das cosas
Está tudo a acabar e a começar no entanto o peso da memória instala-se em todas as coisas de dentro para fora
Cada um de nós carrega o mapa de nossas vidas em nossa pele, na maneira como caminhamos, até na maneira como crescemos.
Se você quiser ter um conhecimento sólido sobre as formas de um objeto, comece pelos detalhes e não avance para o próximo se não tiver gravado bem o primeiro na memória.
Sempre no final de tarde
Nos pagos do meu rincão
É momento de descanso
E hora do chimarrão
Peões e Prendas se juntam
Fazem festa no galpão
E o inverno é esquecido
Pelo fogo da paixão!
Minha infância é hoje
aquele peixe de prata
que me escorregou da mão
como se fosse sabão.
Mergulho no antigo rio
atrás do peixe vadio
– Quem viu? Quem viu?
Minha infância é hoje
aquele papagaio fujão
no ar, sua muda canção.
Subo nos galhos da goiabeira
atrás do falaz papagaio
– me segura, me segura
senão eu caio.
Deste tempo em que estamos
(de onde escrevo este relato),
uns dizem o fim de uma era,
outros, o início de um fraternal estágio.
Eu bebo meu chá.
Sou do tamanho da minha janela
e nela cabe até o mar.
Quando os cargueiros somem no horizonte
deixam de existir aos meus olhos carpinteiros.
Talho o mundo a minha medida.
Usei amores, naufrágios, despedidas,
e já não eram sentimentos,
eram versos.
Gosto muito de não registrar os acontecimentos da minha vida (não escrevo diários, não tiro muitas fotos) para poder recriá-los mais tarde nas minhas ficções com toda a liberdade, sem me preocupar com como realmente aconteceram, mas como me lembro deles. Eu realmente não me importo com a realidade dos eventos, mas como os vivi ou os senti.
A composição da água é parte oxigênio, parte hidrogênio, dizem, mas não sabem que é também parte memória. Cada pequeno evento em bilhões de anos ficou gravado em mim, desde os ruídos das arqueias flutuando solitárias em um mundo muito antigo até a primeira vez que um submarino tripulado chegou ao ponto mais fundo do oceano.
Afinal, as lembranças eram criaturas fantásticas - elas se erguiam com o mais leve sopro de alimento.
As lembranças no papel
podem sofrer contratempo,
amarelam ou se rasgam,
caem no esquecimento,
mas no peito essas memórias
não se apagam da história,
se eternizam pelo tempo.
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