Limpar a Casa

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FREDERICO FIGNER.
Deixou sua casa aos 13 anos em busca de seus ideais e percorreu diversos países até estabelecer-se no Rio de Janeiro, em 1892. Ali fundou a célebre Casa Edison e contribuiu decisivamente para a difusão da máquina de escrever no Brasil. Após seu desencarne, recebeu numerosas homenagens, sendo lembrado pelo jornal “A Noite Ilustrada” como “o mais brasileiro de todos os estrangeiros”, além de filantropo dedicado e protetor dos necessitados.
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A CASA DO CAMINHO E O NASCIMENTO DA PRIMEIRA IGREJA EM JERUSALÉM.
Entre os anos 34 e 35 da era cristã, logo após a ascensão de Jesus Cristo aos planos superiores, delineia-se um dos momentos mais decisivos da história espiritual da humanidade. Não se trata apenas de um episódio histórico, mas de uma transição ontológica profunda, na qual o ensino direto do Mestre cede lugar à responsabilidade viva dos discípulos. Nesse intervalo singular, emerge a chamada Casa do Caminho, núcleo inaugural da primeira igreja em Jerusalém, constituindo-se como expressão concreta e operante da Boa Nova.
Os quarenta dias posteriores à crucificação possuem densidade espiritual ímpar. Nesse período, o Cristo ressurgido não apenas consola os corações aflitos, mas realiza uma obra de reorganização psíquica e moral em seus seguidores. Suas manifestações assumem caráter pedagógico, fortalecendo a fé, dissipando o temor e preparando os discípulos para a autonomia espiritual. Sem essa intervenção metódica, o movimento nascente sucumbiria à dispersão, diante das pressões religiosas e políticas do contexto. Há, portanto, um cuidado estratégico e providencial na forma como o Cristo conduz a transição de sua presença física para a atuação invisível.
Após a despedida no Monte das Oliveiras, conforme descrito em Atos 1:11, os discípulos retornam a Jerusalém e se reúnem no cenáculo, tradicionalmente associado à última ceia. Ali se encontram Simão Pedro, João, Tiago, além de Maria e outros membros do círculo íntimo do Mestre. Esse agrupamento constitui o embrião de uma comunidade espiritual organizada, sustentada por vínculos de fé e compromisso moral.
É nesse ambiente que se configura a primeira manifestação da Casa do Caminho. Sob a coordenação inicial de Pedro, o grupo estabelece encontros regulares marcados por oração, cânticos, leitura das Escrituras e rememoração sistemática dos ensinamentos do Cristo. Surge, então, a fraternidade conhecida como “os do caminho”, expressão anterior à designação “cristãos”, adotada posteriormente em Antioquia.
A Casa do Caminho não se restringia a um espaço físico. Era uma instituição dinâmica, integral e profundamente funcional. Operava como escola espiritual, posto de socorro, abrigo, oficina e núcleo de culto. Ali se exercia a caridade concreta, com partilha de alimentos, vestimentas e cuidados aos enfermos, além da manifestação de dons espirituais. Essas ações, porém, não eram fins isolados, mas instrumentos pedagógicos para a transformação moral. O auxílio material tornava-se via de acesso ao despertar da consciência.
Tal metodologia revela compreensão avançada da psicologia humana. O socorro imediato criava abertura para a assimilação dos valores espirituais. A caridade não era apenas virtude, mas método de elevação gradual do ser.
À medida que a reputação da Casa do Caminho se expandia, crescia o número de adeptos. O ambiente moralmente elevado atraía tanto necessitados quanto buscadores de sentido existencial. Consolida-se, assim, a primeira igreja de Jerusalém, não como instituição dogmática, mas como organismo vivo de fraternidade.
Essa realidade é descrita na obra Paulo e Estêvão, onde se observa o intenso movimento de assistência e a organização progressiva da comunidade cristã primitiva.
No que se refere à liderança, embora Pedro exercesse a coordenação prática, registros indicam Tiago, o Justo como dirigente formal da igreja em Jerusalém, conforme relatos preservados na História Eclesiástica. A liderança apresentava caráter colegiado, sendo Pedro, Tiago e João reconhecidos como “colunas” da comunidade, segundo Gálatas 2:9.
Outro marco decisivo é o Pentecostes, descrito em Atos 2, interpretado sob a ótica espiritual como manifestação mediúnica coletiva, evidenciando a continuidade da orientação do Cristo por vias invisíveis.
A Casa do Caminho, portanto, não foi apenas o primeiro templo cristão, mas o paradigma da vivência evangélica autêntica. Sua essência residia na integração entre fé, trabalho e caridade, sem formalismos excessivos, mas com profunda substância moral.
Ao revisitarmos esse período, compreendemos que o Cristianismo nasceu como experiência vivida de fraternidade. Antes de qualquer formulação teológica, havia a prática concreta do amor.
E é nesse retorno às origens que surge uma exigência silenciosa e inevitável. Não basta a identificação nominal com o Cristo. Torna-se necessário reconstruir, no íntimo e nas ações, a mesma Casa do Caminho, pois somente aquele que transforma a caridade em prática constante e o Evangelho em conduta efetiva torna-se legítimo continuador da obra iniciada em Jerusalém.
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A CASA DO CAMINHO É A TUA LUZ INTERIOR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O gadareno estava cego.
Não a cegueira dos olhos da carne, que já havia deixado para trás com o corpo abandonado na Terra. Era uma cegueira diferente, feita de saudades, de espanto e de esperança. Havia despertado além da morte e caminhava por estradas que não conhecia.
Procurava uma casa.
Uma casa que ouvira mencionar muitas vezes nas regiões espirituais. Diziam que ali habitava a mais sublime de todas as mulheres. Aquela cujo coração fora berço do Cristo. Aquela que os aflitos chamavam simplesmente de Mãe.
Maria.
Por isso caminhava.
Procurava a residência da ternura, o lar da compaixão, a morada da misericórdia.
Mas, quanto mais procurava, mais se perdia.
Foi então que ouviu passos.
Não viu quem se aproximava.
A cegueira ainda o envolvia.
Contudo, quando a voz rompeu o silêncio, algo estremeceu dentro dele.
Ah, aquela voz...
Aquela voz não era apenas um som.
Era um hino.
Era uma lembrança.
Era uma luz.
Era a mesma voz que, séculos antes, atravessara os gritos da loucura e alcançara o homem que vivia entre os sepulcros.
A mesma voz que ordenara às sombras que se retirassem.
A mesma voz que lhe devolvera a dignidade perdida.
O gadareno caiu de joelhos.
Não precisava enxergar.
Reconheceu.
— Senhor...
O Cristo sorriu.
E o velho peregrino, agora Espírito, perguntou:
— Mestre, procuro a Casa do Caminho. Procuro a morada onde se encontra Maria. Procuro essa residência desde que despertei deste lado da vida.
Jesus o contemplou em silêncio.
Depois apontou para o próprio peito do gadareno.
— Ela está aí.
O homem não compreendeu.
Então percebeu.
Havia uma porta.
Sempre existira.
Uma porta luminosa.
Uma porta que se abria para dentro e para fora ao mesmo tempo.
Mas ele jamais entrava.
Jamais saía.
Permanecia diante dela, indeciso, como quem teme descobrir aquilo que procura.
— Senhor, onde está a chave?
O Mestre aproximou-se.
Seus olhos continham a serenidade das manhãs eternas.
Sua voz tinha a suavidade das águas tranquilas.
Então respondeu:
— A chave é a paz.
E acrescentou:
— A paz que nasce da confiança. A paz que floresce do perdão. A paz que aprende a amar sem exigir. A paz que um dia coloquei em teu coração.
Nesse instante, o gadareno compreendeu.
A Casa do Caminho não era um lugar distante.
Não estava escondida em alguma esfera inacessível.
Era um estado da alma.
Era o reino interior que o amor de Deus edificava silenciosamente desde o primeiro encontro com o Cristo.
A porta abriu-se.
A luz inundou tudo.
E lá estava ela.
Maria.
Mas antes que pudesse avançar, percebeu outra presença.
Alguém já o aguardava à entrada.
O mesmo Mestre.
Porque toda estrada da alma, cedo ou tarde, termina onde começou:
Nos braços daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
E o gadareno finalmente entrou em casa.

Capítulo Da Infância Sobre:
A infância velada de Camille Marie Monfort .

A casa era grande demais para uma criança pequena. Os corredores longos pareciam guardiões de um silêncio que não se quebrava, mesmo quando o vento batia as janelas e fazia as cortinas dançarem como fantasmas. Camille Marie Monfort caminhava por ali em passos leves, como se temesse acordar a própria casa, que mais parecia viva, respirando em sua solidão.

Desde muito cedo, sua infância não se assemelhava à das outras meninas. Enquanto as crianças vizinhas se ocupavam com risos em praças e bonecas de trapo, Camille preferia sentar-se no sótão, entre livros empoeirados que ela mal conseguia decifrar. Tocava as páginas com os dedos miúdos, como quem acaricia um segredo. Não lia, mas sentia. Era como se as palavras murmurassem dentro dela, em uma língua ainda inacessível, mas estranhamente familiar.

À noite, deitada em seu quarto, Camille sonhava com jardins que nunca vira. Sonhava com espelhos partidos em que não via o próprio reflexo, mas vultos que a olhavam em silêncio. Havia em seus sonhos algo lúgubre, mas nunca amedrontador. Era um chamado.

Um dia, encontrou no quintal uma boneca quebrada, de porcelana antiga, esquecida no chão úmido. O rosto rachado da boneca refletia uma dor muda, e Camille a tomou nos braços como quem recolhe um ser vivo abandonado. Desde então, guardou-a como seu tesouro. Quando estava só, falava com ela em voz baixa, como se fosse sua confidente:

— Não é feio estar quebrado, é apenas mais verdadeiro.

Essa frase repetida em segredo, dia após dia, moldava sua visão do mundo. Para Camille, a infância não era um lugar de esquecimento ou de fugas, mas um território de presságios.

Sua mãe, distraída em afazeres, estranhava vê-la tão calada. "É uma criança triste", diziam os adultos. Mas não era tristeza. Camille carregava dentro de si uma gravidade misteriosa, como se tivesse sido convocada a escutar os ecos da vida antes que os outros pudessem ouvi-los.

Nos raros momentos em que sorria, o riso vinha como relâmpago: breve, mas de uma claridade tão pura que iluminava por inteiro o ambiente. Era como se sua alma, por um instante, rompesse o véu e se deixasse ver em sua plenitude.

Camille crescia assim, entre o silêncio e os símbolos, entre os sonhos e as sombras. Sua infância, tão oculta e incomum, não era uma fuga da realidade, mas a preparação para compreendê-la com mais profundidade.

Talvez seja esse o maior legado de sua história para as crianças e adolescentes de hoje: não temer o silêncio, não desprezar os sonhos, não fugir das inquietações. Porque até mesmo os medos infantis podem ser mestres disfarçados, conduzindo o espírito a um entendimento mais amplo de si e do mundo.

Camille Marie Monfort, em sua infância velada, nos recorda que cada criança carrega não apenas uma promessa de futuro, mas também um fragmento de eternidade que se revela nos detalhes mais singelos.

QUANDO UM ANJO DORMIU EM MINHA CASA.
Era uma casa simples, situada numa rua tranquila onde o tempo parecia caminhar mais devagar. As paredes guardavam marcas de anos vividos, risos antigos e algumas lágrimas silenciosas. Ali morava um homem de espírito cansado, daqueles que carregam na alma mais perguntas do que respostas.
Certa noite, depois de um dia longo e pesado, ele apagou as luzes e deixou que a casa mergulhasse no silêncio. O vento tocava levemente as janelas, e a madrugada aproximava-se com aquela serenidade que somente as horas profundas sabem trazer.
Sentado na pequena sala, ele pensava na vida. Pensava nos caminhos que tomara, nos erros que ainda lhe doíam e nos sonhos que pareciam ter ficado para trás. Havia dentro dele uma mistura de cansaço e esperança, como se a alma buscasse algum sinal que lhe devolvesse confiança no amanhã.
Antes de dormir, fez algo que havia muito tempo não fazia. Curvou levemente a cabeça e falou em voz baixa, quase como quem conversa consigo mesmo.
“Se houver ainda alguma luz para mim, permita que ela encontre esta casa.”
Depois disso, recolheu-se ao quarto e adormeceu.
A noite passou silenciosa. Nenhum ruído estranho, nenhuma visão extraordinária, nenhum fenômeno que pudesse impressionar os sentidos. Apenas uma paz incomum que parecia repousar sobre o telhado, sobre as paredes, sobre cada objeto simples daquele lar.
Naquela madrugada, porém, algo sutil aconteceu.
Enquanto o corpo descansava, o espírito encontrou-se envolvido por uma serenidade profunda. Não houve palavras audíveis, nem formas visíveis. Houve apenas uma presença silenciosa, como se uma inteligência benevolente estivesse ali, velando pelo descanso daquele coração cansado.
Era como se uma luz suave tivesse atravessado a casa inteira sem acender lâmpada alguma. Uma presença que não perturbava, que não exigia atenção, que simplesmente permanecia.
E assim a noite seguiu tranquila.
Quando o amanhecer chegou, o homem despertou com uma sensação estranha. Não havia acontecido nada que pudesse explicar. A casa era a mesma. A mesa continuava no mesmo lugar, as janelas estavam fechadas como sempre.
Mas algo dentro dele havia mudado.
A inquietação que o acompanhava há tanto tempo parecia menor. O peso que carregava nos pensamentos estava mais leve. Ele levantou-se devagar e caminhou pela casa em silêncio, como quem percebe que aquele espaço simples estava diferente.
Não porque algo tivesse sido acrescentado.
Mas porque algo havia sido suavemente purificado.
Sem saber explicar por quê, ele sorriu pela primeira vez em muitos anos. Sentiu vontade de abrir as janelas, deixar a luz entrar e começar o dia de outra maneira.
Enquanto preparava o café da manhã, uma ideia atravessou-lhe o pensamento como um sopro delicado.
“Esta noite um anjo dormiu aqui.”
Talvez ninguém pudesse provar aquilo. Talvez nenhum olhar humano tivesse visto aquela presença silenciosa.
Mas certas verdades não precisam de testemunhas.
Elas revelam-se apenas através da paz que deixam no coração.
E naquela casa simples, naquela madrugada tranquila, alguém despertou para a vida com a certeza silenciosa de que, mesmo nas noites mais comuns, o bem ainda encontra caminhos para visitar aqueles que não desistiram completamente da esperança.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .

⁠A mentira é como um furacão que destrói a casa inteira, mas nunca o fundamento.

Um homem de bom caráter casa com uma mulher de bom caráter. 👨‍❤️‍👩

Eu e minha casa serviremos ao Senhor
📖 Josué 24:15


🛡️ Fortaleça sua vida espiritual:
🙏 Oração constante
🥖 Jejum regular
✨ Vida de santidade
📖 Estudo da Palavra
🚪 Renúncia ao pecado e às brechas


➡️ 🔥 A autoridade cresce quando o altar cresce.

⁠A Criança Que Não Aprende Ter Regras Em Casa, Não Vai Conseguir Seguir Regras Em Nenhum Lugar

“Quando só tem fubá em casa, não falta comida — falta escolha.”

Se alimentar, em pé.
Fazer leitura, com livro. De que forma? Em pé.
Arrumar a casa, em pé.
Para varrer com a vassoura,
precisa estar de pé.
Não dá para varrer, sentado(a).
Passar pano,com produto de limpeza.
Cozinhar perto do fogão, em pé.

Existe uma casa, para eu morar.
Existe um lugar, para eu dormir.
Existe um lugar;
para me proteger da chuva,
do sol,
e do frio.
Existe uma comida e
uma bebida,
que me dá vida.
Existe movimento, no meu corpo.
Um dia eu nasci,
eu vivo,
sei que vou morrer um dia.
Eu fui no Hospital,
lá existe gente que trabalha.
Fico feliz, com o pouco.
Durmo, e acordo.
O tempo passa.
Vejo terra, no chão.
Vejo montanha.
Eu estava em um lugar, fui para outro.
O carro, precisou consertar.

Tem dias que a ausência não é uma falta; é uma presença física dentro de casa.

Quem quer liberdade não ama, quem quer privacidade não casa

A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos Exércitos; e neste lugar darei a paz, diz o ­Senhor dos ­Exércitos.

*EU ME QUERO DE VOLTA*


Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar.


Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço.


A estrada de serra estava quase vazia.


Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem.


Eu gostava disso.


Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário.


Atualizando.


Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo.


Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira.


Dizem para estudar.


Trabalhar.


Construir.


Casar, talvez.


Ter filhos.


Comprar uma casa.


Ser alguém.


A gente acredita.


Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele.


Eu cumpri algumas partes.


Outras fiz pela metade.


E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido.


Foi só muito depois que percebi isso.


Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia.


A gente sofre.


Depois chama aquilo de experiência.


É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada.


Continuei subindo.


Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais.


Ele não tinha pressa.


Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores.


Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida.


Homens cansados.


Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar.


Gente que bebia todos os dias.


Gente que trabalhava todos os dias.


Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo.


Eu costumava olhar para essas pessoas de fora.


Agora começo a reconhecê-las por dentro.


Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer.


Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando.


O homem que você julgava acomodado.


Você.


A mulher que você achava que tinha desistido.


Você.


O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida.


Você.


É uma espécie de justiça tardia.


A vida não manda boleto.


Manda espelho.


Voltei para a estrada.


Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra.


Parei.


Fiquei olhando.


Não senti nenhuma revelação.


Ainda bem.


Tenho desconfiança de revelações.


Quase sempre elas duram até o próximo problema.


O que senti foi uma coisa mais simples.


Cansaço.


Um cansaço antigo.


Não do corpo. O corpo estava funcionando.


Era outro.


O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir.


Quando somos jovens, procuramos respostas.


Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores.


E algumas perguntas não querem resposta.


Querem companhia.


Segui pela estrada litorânea.


Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum.


Talvez ele soubesse alguma coisa.


Talvez não.


Essa é outra mentira da idade.


A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais.


Nem sempre.


Às vezes só chegou mais longe.


Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás.


Não pessoas exatamente.


Momentos.


A adolescência.


Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta.


Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes.


Uma rua.


Um quarto.


Uma conversa idiota.


Uma música tocando num rádio ruim.


Uma tarde sem obrigação.


A sensação de que ainda havia muito tempo.


É curioso.


Quando temos tempo, queremos futuro.


Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes.


Não quero voltar a ser adolescente.


Isso seria uma estupidez.


Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente.


Não necessariamente melhor.


Diferente.


Talvez seja isso que eu tenha perdido.


Não a juventude.


A capacidade de acreditar antes de exigir garantias.


Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto.


E algumas coisas corretas fizeram estragos.


Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi.


Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece?


Você trabalha.


Paga contas.


Cumpre compromissos.


Evita escândalos.


Engole algumas vontades.


Adia outras.


Diz “depois”.


Diz “agora não”.


Diz “é o melhor”.


E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era.


Não houve uma explosão.


Não houve música triste.


Ninguém percebeu.


Foi acontecendo.


Depois que sangra, seca.


O problema é que a pele fica diferente.


Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido.


Uma relação.


Uma amizade.


Uma possibilidade.


Uma versão de mim.


Aquilo não me matou.


Mas algo naquele dia morreu em mim.


Demorei para entender.


Ou talvez ainda não tenha entendido.


A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo.


Porque existe gente madura.


E existe gente apenas cansada.


Existe gente tranquila.


E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida.


Existe gente que aprendeu a viver.


E existe gente que aprendeu a não reclamar.


Às vezes eu não sei em qual grupo estou.


Talvez nos dois.


Continuei rodando.


O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado.


Foi bom.


Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável.


Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos.


Nunca fui exatamente uma pessoa simples.


Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito.


Hoje já não sei.


Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender.


Eu sempre vou ser uma confusão.


Não digo isso com orgulho.


Também não digo com vergonha.


É apenas um diagnóstico sem médico.


No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena.


Não havia quase ninguém.


Tirei o capacete e sentei num banco.


O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada.


Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida.


Talvez a amnésia resolvesse o problema.


Esquecer algumas coisas.


Esquecer algumas pessoas.


Esquecer certas versões de mim.


Mas logo percebi que seria inútil.


Porque não é o passado que continua nos perseguindo.


Somos nós que continuamos voltando até ele.


Voltei para a moto.


Ainda não sabia para onde iria dormir.


Também não sabia o que faria no dia seguinte.


Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça.


Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada.


Tudo correu como eu não planejei.


E, apesar disso, cheguei até aqui.


Não é uma vitória.


Também não é uma derrota.


É apenas o lugar onde estou.


A estrada continuava pela costa.


Eu podia seguir.


Podia parar.


Podia voltar.


Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta.


Ainda bem.


Passei anos demais obedecendo placas.


Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro:


eu me quero de volta.


Não o homem que fui.


Isso seria impossível.


Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo.


Antes de transformar desejo em obrigação.


Antes de confundir responsabilidade com abandono.


Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”.


Talvez viver seja justamente isso.


Perder algumas versões de si.


Encontrar outras.


E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento.


Parar.


Olhar.


Não tentar trazê-la de volta.


Apenas agradecer.


Depois subir na moto e continuar.


Porque existir é pouco.


É preciso viver.


Mesmo sem saber exatamente como.


Mesmo carregando perguntas.


Mesmo fazendo errado.


Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos.


Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo.


O motor pegou na primeira tentativa.


Pus o capacete.


Acelerei.


Vamos, vida.


Me surpreenda.


Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.

Salmos 52:8

Mas eu sou como a oliveira verde na casa de Deus; confio na misericórdia de Deus para sempre, eternamente.

"A misericórdia de Deus é a raiz que nenhuma tempestade consegue arrancar."

eu tenho medo. muito medo.
medo de tudo, medo de respirar, medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo de estar com muita gente, medo de ser amada, medo de ser odiada.

mas o meu maior medo eh que ele me deixe, que ele me olhe da mesma forma que eu me olho e perceba que não vale a pena. que não vale o esforço.

eu sou quebrada, sou traumatizada, sou louca, paranoica, imatura, descontrolada, desequilibrada e mesmo assim ele segue comigo, mas ate quando? ate a que ponto esse amor vai?

um dia, ele vai acordar, vai olhar pra mim e pensar "o que eu to fazendo aqui?" porque eh a mesma pergunta que eu me faço todos os dias.

Minha mulher de uns tempos pra ca tem falado aqui em casa o idioma Mandarim
que em português acho que significa;
"Mandarimim"

Todos temos momentos ruins na vida: uma desilusão amorosa, problemas em casa, no trabalho, algo indesejado... Isso tudo nos desanima e não sentimos mais vontade de viver, queremos fechar os olhos e não acordar mais. Queremos nos isolar de tudo e lamentar sobre nosso nascimento. Mas, não temos que ser fracos e se entregar a tristeza. Temos que alcançar nossos métodos e objetivos, mesmo se eles não derem certo pelo menos você dirá com muito orgulho e prazer: "eu tentei, estive lá e presenciei o melhor e o pior do que aconteceu e o que poderia ter acontecido".