Inteira

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⁠O QUE APRENDI A SENTIR


Passei a vida inteira tentando sentir
o amor que eu via, mas não alcançava.
Minha mãe cuidava, e eu via o cuidado,
mas algo em mim não se aquecia.


Cresci me perguntando:
“Será que o amor existe
ou é só uma palavra bonita
que as pessoas dizem pra se sentir melhores?”


Na vida adulta, vieram alguns “eu te amo”,
vieram mãos dadas, promessas, planos.
Mas na primeira dificuldade,
o silêncio ocupava o lugar deles.
E eu aprendi.


Aprendi a amar sem me entregar inteira,
a cuidar sem criar raízes,
a ficar presente…
mas deixando uma parte de mim
sempre de mala pronta.


Com amigos, com filhos, com qualquer um:
eu amo, eu faço, eu estou.
Mas quando me distancio,
o peito não dói,
o nome não ecoa,
a saudade não vem.


Às vezes penso que sou fria.
Outras, que sou quebrada.
Mas talvez eu só tenha aprendido cedo
que sentir demais dói,
e que não sentir nada
é um jeito de sobreviver.


Hoje, olho para trás
e não me culpo mais.
Fiz o que dava com o que tinha.


E se agora eu escrevo sobre isso,
é porque uma parte de mim
ainda acredita
que é possível, um dia,
sentir o amor
e não só vê-lo passar.

O amargo é pouco atraente, mas impossível de ignorar. Nada dura uma vida inteira.

Se o seu amor fosse um oceano, eu passaria a vida inteira submersa, porque respirar sem a intensidade do que sinto por você já não é mais suficiente.

*Galho*

No móvel do quarto
só tua imagem em uma foto 3X4 cabe inteira de saudade
ocupando o cômodo todo.

Na última página do caderno,
escondido como quem pede socorro,
um rabisco insiste:
"... de um galho nasce o bem querer,
e eu te quis como um louco."

Do galho torto da lembrança
brotou essa febre mansa.
Não escolhi. Nasceu.
E quis. Como quem não tem escolha.
(Saul Beleza,)

*inteira pela metade*

prefiro te imaginar rindo inteira
em outro abraço,
do que te ter aqui
pela metade.
metade não me aquece,
metade me confunde,
metade me faz ficar
onde já não estou mais.
se for pra ser minha,
que seja inteira.
se não for pra ser inteira,
que seja livre.
e que eu aprenda,
mesmo doendo,
a amar o que você se tornou
longe de mim.
(Saul Beleza)

condenado sem culpa.

que culpa ela teve
se eu não soube amar?
nenhuma.
ela veio inteira,
eu vim com medo.
ela veio com tempo,
eu já vinha atrasado.
A vida foi curta
para nós dois,
e longa demais
para o que eu não fiz.
Agora carrego
o que não dei:
o amor que ficou preso
na garganta.
e ela se foi
leve,
sem culpa.
e eu fiquei,
condenado
não por ela,
mas por mim, que não soube dizer o quanto amei.
(Saul Beleza)

⁠Quem liga o som para a vizinhança inteira ouvir é só um qualquer um que pode votar em qualquer outro.


Parece apenas uma simples frase sobre barulho, mas talvez diga muito mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.


Porque, no fundo, o problema nunca foi apenas o volume da música…


É a ideia de que o meu prazer pode ocupar o espaço do outro sem eu precisar perguntar se ele concorda.


Há quem aumente o volume do som porque pode.


Há quem fale mais alto porque acredita que sua voz merece prevalecer.


Há quem acelere no trânsito porque considera o tempo dos outros menos importante que o seu.


E há quem escolha seus representantes pelo mesmo impulso: não pelo que constroem, mas pelo que gritam.


A Democracia, curiosamente, coloca nas mãos desse mesmo “qualquer um” um poder enorme: o direito de escolher quem falará em nome de muitos.


E talvez seja justamente por isso que pequenas atitudes cotidianas deveriam nos fazer pensar.


Antes de exigir respeito dos que governam, seria razoável perguntar quanto respeito oferecemos a quem divide espaço conosco na rua, no prédio, no bairro e na cidade.


O voto acontece de tempos em tempos.


A convivência acontece todos os dias.


Talvez maturidade cidadã comece quando percebemos que liberdade não é fazer tudo aquilo que podemos fazer.


É compreender que, ao nosso lado, existem outras pessoas com os mesmos direitos, os mesmos incômodos e a mesma dignidade.


No fim, aquele que liga o som para a vizinhança inteira ouvir continua sendo apenas um qualquer um.


Mas é justamente esse qualquer um que, diante da urna, ajuda a decidir os rumos de todos.


E talvez a pergunta mais incômoda não seja em quem ele vai votar.


Seja que tipo de cidadão ele escolhe ser quando ninguém está contando os votos.

“O maior medo do ser humano não é descobrir quem é; é descobrir que passou a vida inteira defendendo a máscara que o impediu de ser.”

“A maior tragédia da vida humana é que o homem nasce sendo um ser, passa a vida inteira tentando se tornar alguém e morre sem perceber que o personagem que construiu para existir foi exatamente aquilo que o afastou da humanidade que nasceu para viver.”

Há pais que passam a vida inteira chamando de amor aquilo que, na verdade, é a mais refinada forma de sabotagem. Blindam os filhos contra a dor, contra a disciplina, contra o “não”, contra as consequências… e depois se espantam ao descobrir que criaram adultos incapazes de enfrentar a própria existência. Quem elimina todos os obstáculos do caminho do filho não facilita a caminhada; elimina o caminhante. No lugar de consciência, instala dependência. No lugar de caráter, conveniência. No lugar de responsabilidade, vitimismo. E, quando os pais já não conseguem sustentar o peso que criaram, a vida apresenta uma conta que nem dinheiro, nem patrimônio, nem herança conseguem pagar. Porque a pior pobreza não é faltar recursos; é faltar estrutura para existir sem alguém que continue sustentando aquilo que a educação nunca construiu.

A Saída do Parido

Há quem passe a vida inteira
procurando uma saída,
sem perceber
que construiu a própria prisão.

Corre para o mundo
e se perde de si.

Acumula coisas
e desperdiça a única que nunca poderia perder:
a consciência.

A mente mente.

E quem acredita em todas as mentiras da mente
corre o risco de tornar-se demente.

Vivemos na era da velocidade,
mas não da direção.

Nunca houve tantos caminhos.

Nunca houve tão poucos destinos.

Aprendemos o alfabeto das palavras,
mas permanecemos analfabetos de nós mesmos.

Sabemos ler livros.

Mas desaprendemos a ler a alma.

Esquecemos o Bê-à-Bá da Vida.

Trocamos valores por custos.

Presença por aparência.

Conhecimento por informação.

Sabedoria por opinião.

Espiritualidade por religiosidade.

O essencial pelo urgente.

E chamamos isso de evolução.

Que involução sofisticada.

Somos paridos biologicamente.

Mas poucos nascem para a própria consciência.

Respiram…

Mas não vivem.

Existem…

Mas nunca chegam a ser.

Afinal, nascer não é sair do ventre.

É deixar o ego.

Porque há corpos vivos

que carregam consciências sepultadas.

O mundo nos ensinou a conquistar territórios.

Mas nunca nos ensinou

a habitar a própria alma.

Passamos anos perguntando:

— Para onde devo ir?

Quando a única pergunta capaz de mudar uma vida sempre foi:

— Quem estou me tornando?

Nossa consciência…

É o único GPS

que não depende de satélites,

mas de silêncio.

Quem se desconecta dela

perde o sinal de si mesmo.

E quem perde o sinal de si,

encontra qualquer destino…

menos o próprio.

O tempo não passa.

Quem passa somos nós.

E cada segundo que chamamos de amanhã

é um pedaço da vida

que já começou a morrer.

Penso,

logo resisto.

Resisto ao barulho

que me impede de ouvir o silêncio.

Resisto às respostas prontas

que matam as perguntas necessárias.

Resisto à multidão

quando ela caminha em direção ao abismo

aplaudindo a própria queda.

Porque a maior alienação

não é deixar de pensar.

É terceirizar a consciência.

Descobri tarde

que o maior retorno

não é voltar para casa.

É voltar para dentro.

O Retorno ao Real

não é geográfico.

É existencial.

A saída nunca esteve no mundo.

O mapa nunca esteve nas mãos.

Sempre esteve na consciência.

E o destino…

jamais foi um lugar.

Foi um estado de ser.

No fim,

descobri que Deus nunca esteve distante.

Distante

estava eu.

Porque o Cristo Interior

jamais deixou de habitar o homem.

Foi o homem

quem decidiu morar do lado de fora de si mesmo.

E então compreendi

o Bê-à-Bá

que o mundo fez questão de esquecer:

a vida começa quando o ser humano deixa de apenas existir.

Nesse instante,

o parido nasce.

O retorno acontece.

E a única saída

revela-se, enfim,

como sempre foi:

para dentro.



Carlos Eduardo Balcarse

11/06/2026

⁠A mentira é como um furacão que destrói a casa inteira, mas nunca o fundamento.

Amar a si mesma é o início de
um romance que dura a vida inteira. Se cuide, se honre e se priorize todosos dias

O que se aprende na mocidade dura a vida inteira.
do livro: Aforismos Vol. 6

1523
"Nada, sempre, é para a vida inteira. A menos que a abordagem seja mais Filosófica do que exatamente Prática!"

Se eu fosse crente, meu maior medo não seria o diabo, mas um dia descobrir que rezei a vida inteira para o deus errado!

Minha vida inteira foi marcada pela dor, e, por isso, nunca houve espaço para uma divindade.

Ela passou a vida inteira preocupada com a limpeza das superfícies, polindo paredes, cuidando do brilho exterior, enquanto a sujeira da alma lhe escapava. Racismo sutil, desprezo pelos pobres, pequenas hostilidades que se acumulavam como sombras invisíveis. Entre panos e escovas, ignorava que a verdadeira limpeza exige coragem para encarar o próprio coração.

Deus castiga quem cedo madruga, humanos foram feitos para dormir de dia e ficar a noite inteira acordados...

O teu perfume alucinógeno
tem inteira me alcançado,
Causa trêmula e voluptuosa
desta paixão inescrupulosa
que em sossego não tem deixado.


Mergulho no segredo de verão
ardente que leva a marca
dos teus olhos preciosos,
Que são os meus sonhos
extravagantes e deliciosos.


Ondulante o apelo de prazer,
e a luxúria sussurra onírica
neste envolvente alvorecer
que saúda o Jequitibá-rosa,
Onde partilho as confissões
femininas de tanto te querer
ser a melhor notícia que está
no caminho para acontecer.

Tua aura silenciosa e magnética
pouco a pouco tem me colocado
na direção dos teus passos,
Do teu encanto todo sensual
não consigo prever o quê
não seja diferente do perenal.


Desconfio que estou em delírio
porque sussurros crepitantes
neste instante ouvi que parecia
a realidade de néctar consentido,
Que até parecia que tu estava
absolutamente atado comigo.


Tomada pelo calor abrasador
do desejo deste brilho sedutor
na chegada da noite de poemas,
este fascínio não tão oculto assim,
Que nas entrelinhas tenho evocado
que te quero inteiramente para mim.