Inteira
Há pessoas que nunca enlouquecem, talvez porque tenham passado a vida inteira ocupadas demais em se adaptar ao que as destruía.
"Não quero ser como uma árvore que passa a vida inteira no mesmo lugar sem dar frutos, contando às folhas que secam, esperando que me usem antes que Eu apodreça".
"Quem acredita em papagaios piratas passará a vida inteira acreditando que vai encontrar um tesouro."
Passamos a vida inteira correndo atrás de algo que nem sabemos bem o que é, e no final da vida, a gente só queria afeto.
Disseram que eu deveria ser firme, previsível, inteira.
Mas escolhi ser movimento.
Entre certezas prontas e verdades impostas, prefiro a dúvida que ensina e o caminho que se refaz.
Não carrego o passado como âncora, nem o futuro como promessa.
Aprendi que existir é atravessar, não permanecer.
O erro me molda mais do que o acerto, porque nele há aprendizado, humildade e humanidade.
Não busco aplausos, nem lugares de destaque.
Meu valor está na travessia silenciosa de quem entende que chegar nem sempre é o objetivo.
Há beleza em não possuir, em não reter, em não se prender.
Enquanto o mundo cobra perfeição, escolho transformação.
Enquanto pedem raízes fixas, escolho asas conscientes.
Desapegar não é descuido, é maturidade.
É saber que algumas coisas passam porque cumpriram seu papel.
No fim, não sou feito de certezas,
sou feito de escolhas.
E a mais honesta delas é continuar mudando.
Nós passamos a vida inteira construindo coisas em cima de uma realidade que sabemos ser temporária. Casa, dinheiro, livros, projetos, relações, planos, sonhos. E, no fundo, sabemos que um dia teremos de deixar tudo.
Talvez seja justamente por isso que uma experiência de quase perder a própria vida possa mudar tanto a percepção de uma pessoa.
Depois de chegar perto do precipício, o simples fato de acordar no dia seguinte deixa de parecer banal.
O café deixa de ser apenas café.
Uma conversa deixa de ser apenas uma conversa.
Um animal deitado perto da gente deixa de ser apenas um animal.
Uma manhã comum começa a carregar uma espécie de solenidade.
Às vezes, “não sei” é intelectualmente mais honesto do que construir uma certeza inteira em cima de uma experiência subjetiva.
"Uma mulher rejeitada passa a vida inteira à procura de aprovação, até que encontra um homem que também foi rejeitado. Os dois se aceitam, e ele diz para ela: 'Agora você sabe o que é ser amada de verdade, desejada e protegida. Agora, vai lá viver sabendo que você não precisa provar nada para ninguém'."
A razão não promete possuir a verdade inteira; oferece algo mais honesto: um método para aproximar-se dela sem transformar a ignorância em certeza.
