Inferno
Eu sou um homem bom, mas não brinque comigo, por tudo que eu passei carrego o inferno dentro do coração.
O "inferno" foi inventado pela igreja para controlar as pessoas pelo medo;
Da mesma forma que o "karma" é usado pelo espiritismo para controlar as pessoas pelo medo.
Sartre localizou o inferno no outro, mas a clínica precisa um passo a mais: o inferno se instala quando o sujeito constitui o olhar alheio como instância definitória de si. É a economia do falso self que Winnicott descreveu — a existência organizada em torno da performance para o outro, onde o valor próprio é continuamente terceirizado e, portanto, continuamente precário. O problema não é o outro: é a dependência estrutural de sua validação. A saída não é o isolamento narcísico — é a construção de um eixo interno suficientemente consistente para que a existência não precise ser encenada para ser reconhecida.
É preciso lutar, ir até o fim, sem olhar para trás e jamais desistir
Mandando pro inferno toda solidão, o medo, a angústia a dúvida e a depressão
MEU PURGATÓRIO É VOCÊ
Meu purgatório é você...
Meu inferno astral é tudo aquilo que pressupõe meu desejo.
Tudo e todos estão incutidos em mim:
As palavras, as ações, as aspirações e inspirações, tudo se volta como redemoinhos causados por inquietudes.
Porém, há algo novo dentro de mim.
Descobri minhas limitações e sorri de forma que deixei escapar um sorriso nervoso e triste, por saber que o super-homem que habita em mim falha todas as vezes que tenta salvar-me de perigos iminentes.
Desta forma, ando entre o certo e o duvidoso, só para saber se estou equilibrado. Mas cá entre nós: o que é e como equilibrar-se entre o tortuoso e o reto?
Eu já nem sei; só caminho e deixo-me pagar as dívidas cobradas pelo tempo.
Meu purgatório não é mais você; descobri ser eu mesmo, uma dualidade que não tem fim. Mas, insistindo em segurá-la para construir um paraíso só nosso, desvelando um inferno que se tornou só uma faísca no tempo perdido que resultou do contato de almas, eu me refiz.
Agora, almas que buscavam equilibrar-se na mesquinhez do ego saltam e dançam, ouvindo a música que toca em algum lugar fora do eixo dual de ambas!
Joguei fora para fora toda experiência de luz. Confrontei minhas trevas e não saí vencedor, mas descobri que em mim havia um lugar que não conhecia, um lugar sombrio, um limbo que descobri ter vários eus.
O purgatório se desfez, o inferno se foi e o paraíso não alcancei. Porém, segui meu caminho sabendo das novidades que existiam dentro do meu eu, e fui me equilibrando estrada afora. Sobre o quê?
Não sei. Só sei que fui, vou, estou e voei!
*O Céu e o Inferno Funcionam em Horário Comercial* - Naquela sexta-feira o bar estava cheio, como quase toda sexta-feira em que as pessoas precisam esquecer que passaram mais cinco dias fingindo que gostam da própria vida. Música baixa demais para ser ouvida e alta demais para permitir uma conversa decente. Um cantor sozinho, no fundo, brigava com o violão e com alguma música antiga que ninguém mais lembrava direito. Fumaça de cigarro subia entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenas provas de fracasso.
Eu estava no meu canto habitual do balcão. O lugar onde ninguém pergunta muita coisa e o barman já sabe que não precisa conversar comigo.
Foi então que dois casais se aproximaram. Sentaram perto demais. Não porque quisessem minha companhia. Apenas porque o bar estava cheio.
E quando quatro pessoas bebem juntas, em algum momento alguém decide que a verdade precisa ser dita.
Começaram falando de amor. Não sei por quê. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse sexta-feira. Talvez as pessoas só consigam falar de amor quando já estão cansadas de praticá-lo.
A mulher dizia que no começo era diferente. Havia mensagens de madrugada. Promessas. Planos. Juras de que nunca deixariam a rotina destruir aquilo que tinham encontrado.
O homem riu.
Não foi uma risada engraçada. Foi aquela risada curta de quem já decidiu que o outro está exagerando.
Ela continuou.
Disse que no começo ele queria saber onde ela estava. Perguntava como tinha sido o dia. Queria ouvir seus problemas. Fazia planos para o fim de semana. Dizia que ela era diferente das outras.
Depois vieram as contas.
O trabalho.
O cansaço.
A televisão.
O celular.
A cama.
A obrigação de acordar cedo.
A vida.
Aquela velha assassina silenciosa.
Ela disse que o amor tinha desaparecido dentro da rotina.
Ele respondeu que aquilo era frescura.
Mimimi.
Romantismo hipócrita.
Disse que ninguém consegue viver de declaração de amor. Que a vida real era outra coisa. Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando como foi seu dia.
Ela olhou para ele como se tivesse acabado de descobrir que dormia com um desconhecido.
Talvez tivesse.
O outro casal tentou amenizar.
Não funcionou.
A conversa ficou mais quente. Vieram acusações antigas. Coisas guardadas durante anos, esperando uma sexta-feira, quatro cervejas e um bar lotado para sair pela boca.
Eu continuei bebendo.
Não porque não tivesse opinião.
Eu tinha.
Tenho opiniões demais.
Esse é um dos meus problemas.
Fiquei pensando naquela história de amor que começou com promessas e terminou em planilhas, horários, boletos e silêncio.
Talvez o homem tivesse razão.
Talvez a mulher tivesse razão.
Talvez os dois estivessem errados.
O problema é que o amor costuma morrer muito antes de alguém perceber que ele morreu.
Não há funeral.
Não há certidão.
Ninguém aparece para dizer que acabou.
Ele simplesmente começa a ser substituído por pequenas coisas.
Uma resposta que não vem.
Um abraço que fica para depois.
Uma conversa que nunca acontece porque há alguma coisa mais importante na televisão.
Um beijo mecânico.
Um jantar em silêncio.
Uma cama dividida por dois corpos que já vivem em países diferentes.
E então alguém percebe.
Tarde demais.
Foi ali, ouvindo aquela mulher reclamar e aquele homem chamar tudo de frescura, que pensei em uma coisa bastante simples.
Nós passamos a vida procurando o Céu e tentando escapar do Inferno.
Como se houvesse uma porta em algum lugar.
Como se depois da morte alguém fosse entregar uma senha.
Como se Deus fosse um funcionário público sentado atrás de uma mesa cósmica conferindo documentos.
Talvez seja tudo muito mais simples.
Talvez o Céu e o Inferno não estejam esperando por nós.
Talvez já estejam aqui.
O Céu aparece quando conseguimos amar alguém sem transformar o amor em contrato.
Quando não fazemos carinho esperando receber carinho de volta.
Quando ajudamos sem guardar recibo.
Quando ouvimos sem preparar uma resposta.
Quando permanecemos ao lado de alguém não porque temos medo de ficar sozinhos, mas porque queremos estar ali.
Isso parece pouco.
Não é.
O mundo inteiro está cheio de gente fazendo negócios em nome do amor.
Eu te dou isso se você me der aquilo.
Eu faço isso por você, portanto você me deve aquilo.
Eu fui fiel, então você precisa ser fiel.
Eu trabalhei o dia inteiro, então você deve entender meu silêncio.
Eu pago as contas, portanto tenho direito a não prestar atenção em você.
Eu sou seu marido.
Eu sou sua mulher.
Eu sou sua família.
Eu sou seu.
É aí que começa a desgraça.
Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.
Mas nós gostamos de possuir.
Casas.
Carros.
Pessoas.
Opiniões.
Memórias.
Até os mortos nós queremos possuir.
Dizemos que alguém é nosso.
E depois reclamamos quando essa pessoa começa a respirar longe de nós.
O homem do bar dizia que aquilo era romantismo hipócrita.
Talvez fosse.
Mas existe uma hipocrisia ainda maior: fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.
Há casamentos que são funerais com financiamento imobiliário.
Há relacionamentos que continuam apenas porque ninguém quer explicar aos outros que acabou.
Há pessoas que dormem juntas durante vinte anos e nunca mais se encontram.
E há outras que se encontram por uma hora e conseguem lembrar uma à outra que ainda estão vivas.
O Inferno talvez seja isso.
Não o fogo.
Não o demônio.
Não as correntes.
É olhar para alguém que um dia foi importante e perceber que você construiu uma muralha entre vocês, tijolo por tijolo, usando orgulho, ressentimento, silêncio e pequenas crueldades.
Depois sentar diante da muralha e perguntar por que ninguém mais consegue chegar até você.
O ódio também funciona assim.
Ele começa pequeno.
Uma mágoa.
Uma injustiça.
Uma palavra.
Depois cresce.
Você começa a dividir o mundo.
Os bons e os maus.
Os que merecem.
Os que não merecem.
Os que são como você.
Os outros.
E quando percebe, seu coração virou uma repartição pública.
Entrada proibida.
Documentação obrigatória.
Atendimento mediante agendamento.
O curioso é que quase ninguém percebe quando entra no Inferno.
As pessoas continuam trabalhando.
Pagando contas.
Postando fotografias felizes.
Comemorando aniversários.
Trocando presentes.
Dizendo “eu te amo”.
Tudo perfeitamente normal.
É por isso que o Inferno funciona tão bem.
Ele não precisa parecer Inferno.
Basta parecer rotina.
Olhei para o casal outra vez.
Ela estava chorando agora.
Ele olhava para o celular.
Aquilo me pareceu mais cruel que qualquer grito.
Porque existem momentos em que o desprezo é mais violento que a raiva.
A raiva ainda reconhece a existência do outro.
O desprezo simplesmente desliga a luz.
O cantor no fundo começou outra música.
Ninguém prestou atenção.
O barman recolheu alguns copos.
A fumaça continuava subindo.
A sexta-feira continuava funcionando.
O mundo não tinha parado para assistir ao fim daquele pequeno amor.
Nunca para.
É uma das coisas mais humilhantes sobre estar vivo.
Você pode estar destruindo alguém por dentro e, do lado de fora, o garçom continua servindo cerveja.
Talvez seja por isso que eu não acredito muito nessa conversa de esperar o Céu.
Se existe algum lugar melhor, talvez ele comece quando aprendemos a não transformar a vida dos outros em nosso campo de batalha.
Talvez comece quando paramos de cobrar amor como quem cobra uma dívida.
Talvez comece quando conseguimos dizer “eu errei” sem acrescentar um “mas você também”.
Talvez comece quando percebemos que algumas pessoas não precisam de uma solução.
Precisam apenas que alguém fique.
E talvez o Inferno já esteja funcionando quando transformamos toda relação em uma disputa para descobrir quem sofreu mais.
No fim, ninguém vence.
Só sobra alguém com razão e outro sozinho.
Terminei minha bebida.
Levantei.
Antes de sair, olhei mais uma vez para os quatro.
A discussão continuava.
Talvez continuasse até o fechamento.
Talvez até a manhã seguinte.
Talvez por mais vinte anos.
Não sei.
O que sei é que todos nós temos uma escolha pequena e diária.
Podemos amar.
Ou podemos negociar.
Podemos perdoar.
Ou podemos colecionar dívidas emocionais.
Podemos abrir a porta.
Ou construir outra parede.
O Céu não parece exigir muita coisa.
O Inferno também não.
Ambos são baratos.
Funcionam vinte e quatro horas.
E não precisam de religião, sacerdote ou julgamento final.
Basta olhar para a pessoa ao nosso lado.
Se ainda conseguimos amá-la sem exigir pagamento, talvez por alguns minutos estejamos no Céu.
Se precisamos odiá-la para justificar nossa própria existência, provavelmente já chegamos ao outro lugar.
E o pior é que ninguém precisa morrer para descobrir.
Basta continuar vivendo exatamente como está.
Isso costuma ser suficiente.
Sentir-se perdida é um inferno.
Quando a única coisa que te faz fugir da realidade, por mais curto que seja o tempo, é também o que você não pode ter.
Tão perto dos olhos,
tão longe das mãos.
Para ir para o inferno, você não precisa fazer nada. Basta seguir o próprio coração.
A Bíblia não nos ensina a seguir o coração, mas a submetê-lo a Deus.
O coração humano, entregue a si mesmo, é enganoso e inclinado ao pecado.
Por isso, quem vive apenas pelos próprios desejos caminha para longe da vontade de Deus.
O maior engano desta geração foi acreditar que o coração é um guia confiável.
A Palavra de Deus diz que ele é enganoso e corrupto.
Quando o homem faz da própria vontade sua bússola, inevitavelmente se afasta de Deus.
A salvação nunca esteve em seguir a si mesmo.
Ela está em negar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir a Cristo.
Não siga o seu coração.
Submeta-o ao Senhor.
Todos os que estão no inferno escolheram a separação de Deus em vida, iludindo-se com a falsa esperança de que se arrependeriam no futuro — esquecendo-se de que, após a morte, cessa o tempo da misericórdia divina.
O INTERIOR
O céu,
o inferno,
ou o meio-termo,
estão dentro do próprio coração.
Antes de crer na grandeza do universo,
é preciso ponderar o que existe dentro da própria cabeça.
Fazem-se perguntas para as quais ainda não se está pronto para as respostas.
Criam-se expectativas que, muitas vezes, rasgam as próprias entranhas.
A vida boa é no passo do gado:
pastando, remoendo,
na sombra, vendo o sol se pôr.
A eternidade, a doce eternidade,
é assunto da crença de cada um.
Se não crê no inferno,
mas não destrua o céu dos outros.
Muitos perguntarão: o que fiz para acabar no inferno? O diabo responderá: A pergunta e a resposta são o que você deixou de fazer.
