*O Céu e o Inferno Funcionam em... Paulo H Salah Ad din

*O Céu e o Inferno Funcionam em Horário Comercial* - Naquela sexta-feira o bar estava cheio, como quase toda sexta-feira em que as pessoas precisam esquecer que passaram mais cinco dias fingindo que gostam da própria vida. Música baixa demais para ser ouvida e alta demais para permitir uma conversa decente. Um cantor sozinho, no fundo, brigava com o violão e com alguma música antiga que ninguém mais lembrava direito. Fumaça de cigarro subia entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenas provas de fracasso.

Eu estava no meu canto habitual do balcão. O lugar onde ninguém pergunta muita coisa e o barman já sabe que não precisa conversar comigo.

Foi então que dois casais se aproximaram. Sentaram perto demais. Não porque quisessem minha companhia. Apenas porque o bar estava cheio.

E quando quatro pessoas bebem juntas, em algum momento alguém decide que a verdade precisa ser dita.

Começaram falando de amor. Não sei por quê. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse sexta-feira. Talvez as pessoas só consigam falar de amor quando já estão cansadas de praticá-lo.

A mulher dizia que no começo era diferente. Havia mensagens de madrugada. Promessas. Planos. Juras de que nunca deixariam a rotina destruir aquilo que tinham encontrado.

O homem riu.

Não foi uma risada engraçada. Foi aquela risada curta de quem já decidiu que o outro está exagerando.

Ela continuou.

Disse que no começo ele queria saber onde ela estava. Perguntava como tinha sido o dia. Queria ouvir seus problemas. Fazia planos para o fim de semana. Dizia que ela era diferente das outras.

Depois vieram as contas.

O trabalho.

O cansaço.

A televisão.

O celular.

A cama.

A obrigação de acordar cedo.

A vida.

Aquela velha assassina silenciosa.

Ela disse que o amor tinha desaparecido dentro da rotina.

Ele respondeu que aquilo era frescura.

Mimimi.

Romantismo hipócrita.

Disse que ninguém consegue viver de declaração de amor. Que a vida real era outra coisa. Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando como foi seu dia.

Ela olhou para ele como se tivesse acabado de descobrir que dormia com um desconhecido.

Talvez tivesse.

O outro casal tentou amenizar.

Não funcionou.

A conversa ficou mais quente. Vieram acusações antigas. Coisas guardadas durante anos, esperando uma sexta-feira, quatro cervejas e um bar lotado para sair pela boca.

Eu continuei bebendo.

Não porque não tivesse opinião.

Eu tinha.

Tenho opiniões demais.

Esse é um dos meus problemas.

Fiquei pensando naquela história de amor que começou com promessas e terminou em planilhas, horários, boletos e silêncio.

Talvez o homem tivesse razão.

Talvez a mulher tivesse razão.

Talvez os dois estivessem errados.

O problema é que o amor costuma morrer muito antes de alguém perceber que ele morreu.

Não há funeral.

Não há certidão.

Ninguém aparece para dizer que acabou.

Ele simplesmente começa a ser substituído por pequenas coisas.

Uma resposta que não vem.

Um abraço que fica para depois.

Uma conversa que nunca acontece porque há alguma coisa mais importante na televisão.

Um beijo mecânico.

Um jantar em silêncio.

Uma cama dividida por dois corpos que já vivem em países diferentes.

E então alguém percebe.

Tarde demais.

Foi ali, ouvindo aquela mulher reclamar e aquele homem chamar tudo de frescura, que pensei em uma coisa bastante simples.

Nós passamos a vida procurando o Céu e tentando escapar do Inferno.

Como se houvesse uma porta em algum lugar.

Como se depois da morte alguém fosse entregar uma senha.

Como se Deus fosse um funcionário público sentado atrás de uma mesa cósmica conferindo documentos.

Talvez seja tudo muito mais simples.

Talvez o Céu e o Inferno não estejam esperando por nós.

Talvez já estejam aqui.

O Céu aparece quando conseguimos amar alguém sem transformar o amor em contrato.

Quando não fazemos carinho esperando receber carinho de volta.

Quando ajudamos sem guardar recibo.

Quando ouvimos sem preparar uma resposta.

Quando permanecemos ao lado de alguém não porque temos medo de ficar sozinhos, mas porque queremos estar ali.

Isso parece pouco.

Não é.

O mundo inteiro está cheio de gente fazendo negócios em nome do amor.

Eu te dou isso se você me der aquilo.

Eu faço isso por você, portanto você me deve aquilo.

Eu fui fiel, então você precisa ser fiel.

Eu trabalhei o dia inteiro, então você deve entender meu silêncio.

Eu pago as contas, portanto tenho direito a não prestar atenção em você.

Eu sou seu marido.

Eu sou sua mulher.

Eu sou sua família.

Eu sou seu.

É aí que começa a desgraça.

Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.

Mas nós gostamos de possuir.

Casas.

Carros.

Pessoas.

Opiniões.

Memórias.

Até os mortos nós queremos possuir.

Dizemos que alguém é nosso.

E depois reclamamos quando essa pessoa começa a respirar longe de nós.

O homem do bar dizia que aquilo era romantismo hipócrita.

Talvez fosse.

Mas existe uma hipocrisia ainda maior: fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.

Há casamentos que são funerais com financiamento imobiliário.

Há relacionamentos que continuam apenas porque ninguém quer explicar aos outros que acabou.

Há pessoas que dormem juntas durante vinte anos e nunca mais se encontram.

E há outras que se encontram por uma hora e conseguem lembrar uma à outra que ainda estão vivas.

O Inferno talvez seja isso.

Não o fogo.

Não o demônio.

Não as correntes.

É olhar para alguém que um dia foi importante e perceber que você construiu uma muralha entre vocês, tijolo por tijolo, usando orgulho, ressentimento, silêncio e pequenas crueldades.

Depois sentar diante da muralha e perguntar por que ninguém mais consegue chegar até você.

O ódio também funciona assim.

Ele começa pequeno.

Uma mágoa.

Uma injustiça.

Uma palavra.

Depois cresce.

Você começa a dividir o mundo.

Os bons e os maus.

Os que merecem.

Os que não merecem.

Os que são como você.

Os outros.

E quando percebe, seu coração virou uma repartição pública.

Entrada proibida.

Documentação obrigatória.

Atendimento mediante agendamento.

O curioso é que quase ninguém percebe quando entra no Inferno.

As pessoas continuam trabalhando.

Pagando contas.

Postando fotografias felizes.

Comemorando aniversários.

Trocando presentes.

Dizendo “eu te amo”.

Tudo perfeitamente normal.

É por isso que o Inferno funciona tão bem.

Ele não precisa parecer Inferno.

Basta parecer rotina.

Olhei para o casal outra vez.

Ela estava chorando agora.

Ele olhava para o celular.

Aquilo me pareceu mais cruel que qualquer grito.

Porque existem momentos em que o desprezo é mais violento que a raiva.

A raiva ainda reconhece a existência do outro.

O desprezo simplesmente desliga a luz.

O cantor no fundo começou outra música.

Ninguém prestou atenção.

O barman recolheu alguns copos.

A fumaça continuava subindo.

A sexta-feira continuava funcionando.

O mundo não tinha parado para assistir ao fim daquele pequeno amor.

Nunca para.

É uma das coisas mais humilhantes sobre estar vivo.

Você pode estar destruindo alguém por dentro e, do lado de fora, o garçom continua servindo cerveja.

Talvez seja por isso que eu não acredito muito nessa conversa de esperar o Céu.

Se existe algum lugar melhor, talvez ele comece quando aprendemos a não transformar a vida dos outros em nosso campo de batalha.

Talvez comece quando paramos de cobrar amor como quem cobra uma dívida.

Talvez comece quando conseguimos dizer “eu errei” sem acrescentar um “mas você também”.

Talvez comece quando percebemos que algumas pessoas não precisam de uma solução.

Precisam apenas que alguém fique.

E talvez o Inferno já esteja funcionando quando transformamos toda relação em uma disputa para descobrir quem sofreu mais.

No fim, ninguém vence.

Só sobra alguém com razão e outro sozinho.

Terminei minha bebida.

Levantei.

Antes de sair, olhei mais uma vez para os quatro.

A discussão continuava.

Talvez continuasse até o fechamento.

Talvez até a manhã seguinte.

Talvez por mais vinte anos.

Não sei.

O que sei é que todos nós temos uma escolha pequena e diária.

Podemos amar.

Ou podemos negociar.

Podemos perdoar.

Ou podemos colecionar dívidas emocionais.

Podemos abrir a porta.

Ou construir outra parede.

O Céu não parece exigir muita coisa.

O Inferno também não.

Ambos são baratos.

Funcionam vinte e quatro horas.

E não precisam de religião, sacerdote ou julgamento final.

Basta olhar para a pessoa ao nosso lado.

Se ainda conseguimos amá-la sem exigir pagamento, talvez por alguns minutos estejamos no Céu.

Se precisamos odiá-la para justificar nossa própria existência, provavelmente já chegamos ao outro lugar.

E o pior é que ninguém precisa morrer para descobrir.

Basta continuar vivendo exatamente como está.

Isso costuma ser suficiente.