Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza 😉

Se a mĂșsica Ă© o alimento do amor nĂŁo parem de tocar. DĂȘem-me mĂșsica em excesso; tanta que, depois de saciar, mate de nĂĄusea o apetite.

O meu amor conhece cada gesto seu
Palavras que o seu olhar sĂł diz pro meu
Se pra vocĂȘ a guerra estĂĄ perdida
Olha que eu mudo os meus sonhos,
Pra ficar na sua vida.

Se esse amor ficar entre nĂłs dois
Vai ser tĂŁo pobre amor, vai se gastar

Se eu te amo e tu me amas
E um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
IrĂĄ gostar de todas
Porque todas sĂŁo iguais

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa no altar

Quando eu te escolhi para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma, ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi que além de dois existem mais

O amor sĂł dura em liberdade
O ciĂșme Ă© sĂł vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que Ă© que eu quero se eu te privo
Do que eu mais venero
Que Ă© a beleza de deitar

O amor Ă© pros que aguentam a sobrecarga psĂ­quica.

AQUELE AMOR

Ela pertence à espécie de mulheres que possuem um só amor em toda a sua vida. Ou amam de verdade apenas uma vez. Seria espécie de mulheres ou a maioria assim o é, mesmo sem o saber?
Também hå homens de eterno amor, embora o machismo e as deformaçÔes de sua cultura e comportamento nem sempre os convença de tal. Ou não convença a maioria. Ou serå que o fato de serem colocadores de semente por determinismo biológico os leva a não prestar a devida atenção à sua destinação para o amor?
No meio da conversa ela diz, de repente, que sĂł gostou de verdade de um homem e eis que vai buscar lĂĄ entre papĂ©is amassados, daqueles que esturricam o couro das carteiras, nĂŁo um mas trĂȘs retratos dele, que espalha, qual cartas de baralho, sobre a mesa do restaurante. E fala dele com a mistura de ternura e tristeza que assaltam as mulheres que nĂŁo lograram viver com o seu amor, casar-se com ele, ter seus filhos, viver em função dele e dela, unidos, pois esta Ă© a verdadeira vontade e destinação da mulher: viver ao lado do verdadeiro amor.
Sim, elas vivem de modo proibido se necessĂĄrio, casam-se com outro, tĂȘm filhos, os amam fundamente, mas a verdade de seu ser Ă© a do amor verdadeiro, atĂ© porque mulher vive para amar e por amor, o resto se ajeita. Podem atĂ© deixar seu amor dormitar por anos e parecer serenado. Volta, porĂ©m a qualquer apelo ou menção do nome dele, encontro fortuito na rua com um conhecido dos tempos do namoro ou da relação.
Como sĂŁo comoventes e lindas na sua integralidade bĂ­blica as mulheres quando expressam para os demais ou para si mesmas, o amor de suas vidas ou quando consultam, escondido, os retratos guardados, recortes, flores secas, a memĂłria Ășmida das restantes lembranças em momentos de silĂȘncio e solidĂŁo!
Abençoados sejam, porque sĂŁo, os homens e as mulheres que na passagem por esta vida receberam um dia de alguĂ©m, ou deram, um amor Ășnico, original e definitivo. Abençoados sejam e para todo o sempre. Como o amor que existe apesar de todas as ternas e dolorosas circunstĂąncias que nĂŁo impedem a sua verdade mas em muitos casos esmagam a sua plena realização.

A lua ficou tĂŁo triste
com aquela histĂłria de amor
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!

De longe te hei de amar
– da tranquila distñncia
em que o amor Ă© saudade
e o desejo, constĂąncia.

Do divino lugar
onde o bem da existĂȘncia
Ă© ser eternidade
e parecer ausĂȘncia.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrĂąncia
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogĂąncia?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violĂȘncia,
cumpre a sua verdade,
alheia Ă  transparĂȘncia.

CecĂ­lia Meireles
MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoĂ­sta e mau.
E a minha poesia Ă© um vĂ­cio triste,
Desesperado e solitĂĄrio
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imĂłvel, sem compreender
nada, numa alegria atĂŽnita...

A sĂșbita, a dolorosa alegria de um espantalho inĂștil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

Canção do Sonho Acabado

JĂĄ tive a rosa do amor
- rubra rosa, sem pudor!
Cobicei, cheirei, colhi,
mas ela despetalou
e outra igual, nunca mais vi.
JĂĄ vivi mil aventuras,
me embriaguei de alegria;
mas os risos da amargura,
no limiar da loucura,
se tornaram fantasia...
JĂĄ sonhei felicidade,
- mĂŁos dadas, fraternidade
ideal e sem fronteiras.
Utopia! Voou ligeira
nas asas da liberdade...
Desejei viver! Demais!
Segurar a juventude;
Prender o Tempo, na mĂŁo;
Plantar o lĂ­rio da Paz!
Mas nem mesmo isto, eu pude:
Tentei, porém, nada fiz...
... Muito, da vida, eu jĂĄ quis.
JĂĄ quis... mas nĂŁo quero mais!...

Helenita Scherma
Antologia Delicatta (2006).

Conhecimento auxilia por fora, mas sĂł o amor socorre por dentro.

O amor é uma força, uma energia, que se manifesta
Na alma como um sentimento de lembrança de algo
Que a alma jĂĄ teve, mas perdeu.

O amor Ă© a Ășnica força capaz de transformar um inimigo em amigo.

Pelo brilho nos olhos, desde o começo dos tempos, as pessoas reconhecem seu verdadeiro amor.

Toda hora eu sinto:
( ) dor e sofrimento por um amor nĂŁo correspondido
(x) preguiça, sono e fome.

Lira do amor romĂąntico
Ou a eterna repetição

Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor Ă© o beijo roubado.

Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciĂșme.

Atirei um limão n’água
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dĂłi uma paixĂŁo!

Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
NĂŁo se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que jĂĄ sofri.

Atirei um limão n’água,
antes nĂŁo tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água,
de tĂŁo baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem nĂŁo amou.

Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água,
pedindo Ă  ĂĄgua que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se Ă© amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água,
nĂŁo fez o menor ruĂ­do.
Se os peixes nada disseram,
tu me terĂĄs esquecido?

Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zĂĄs-trĂĄs.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trĂĄs.

Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes jå sabem:
vocĂȘ nĂŁo ama: tortura.

Atirei um limão n’água
e caĂ­ n’água tambĂ©m,
pois os peixes me avisaram,
que lĂĄ estava meu bem.

Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
HĂĄs de amar eternamente.

Carlos Drummond de Andrade
ANDRADE, C. D. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

Tentando um novo amor

Para curar uma dor de amor, digam o que quiserem, só conheço um remédio: um amor novinho em folha. Enquanto nosso coração não encontrar outro pretendente, ficaremos cultivando o velho amor, alimentando-o diariamente, sofrendo por ele e, no fundo, bem no fundinho, felizes por ter para quem dedicar nossos ais e nossa insÎnia. A gente só enterra mesmo o defunto quando outra pessoa surge para ocupar o posto.

Se isso lhe parece uma teoria simplista, toque aqui. É simplista sim. Isso de enterrar o defunto do dia pra noite sĂł funciona quando o defunto era apenas uma paixonite, um entusiasmo, fogo de palha. PorĂ©m, se era algo realmente profundo, um sentimento maduro, aĂ­ o efeito do novo amor pode revelar-se um belo tiro pela culatra. Ele acabarĂĄ servindo apenas para dar a vocĂȘ a total certeza de que aquele amor anterior era realmente um bem durĂĄvel. E a dor voltarĂĄ redobrada.

Um beijo que deveria inaugurar uma nova fase em sua vida pode trazer à tona lembranças fortes do passado, e nem é preciso comparar os beijos, apenas as sensaçÔes provocadas. Quem jå vivenciou isso sabe o constrangimento que é beijar alguém e morrer de saudades do antecessor.

Um novo amor pode transformar o que era opaco em transparĂȘncia: vocĂȘ nĂŁo sabia exatamente o que sentia pelo ex, se era amor ou nĂŁo, entĂŁo surge outra pessoa e vocĂȘ descobre que sim, era amor, caso contrĂĄrio nĂŁo sentiria esse abandono, essa perturbação, essa forte impressĂŁo de que estĂĄ fazendo uma tentativa inĂștil, de que nĂŁo conseguirĂĄ ir adiante.

Mas o que fazer? Encarar uma vida monĂĄstica, celibatĂĄria? Nada disso. Viva as tentativas inĂșteis! Uma, duas, trĂȘs, atĂ© que alguma delas consiga superar de vez a inquietação do passado, que venha realmente inaugurar uma nova fase em sua agenda amorosa, que deixe vocĂȘ tranqĂŒilo em relação ao que viveu e ao que deve viver daqui pra frente.

No entanto, quanto mais escrevo, mais me dou conta de que nĂŁo hĂĄ fĂłrmula que dĂȘ garantia para nossas atitudes, de que nĂŁo hĂĄ pessoa neste mundo que nĂŁo possa nos surpreender, de que tudo o que vivemos sĂŁo tentativas, e que inĂștil, inĂștil mesmo, nenhuma Ă©.

Martha Medeiros
CrĂŽnica "Tentando um novo amor", 2004.

Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas GĂȘmeas, a 8 de novembro de 2004.

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Consiste a monstruosidade do amor...
Em ser infinita a vontade, e limitados
os desejos, e ato escravo do limite...

Amo-te tanto.
E nunca te beijei...
E nesse beijo, amor, que eu nĂŁo te dei, guardo os versos mais lindos que te fiz.

Amor Ă© quando Ă© concedido participar um pouco mais.
Amor Ă© a grande desilusĂŁo de tudo mais.
Amor Ă© finalmente a pobreza.
Amor Ă© nĂŁo ter.
Inclusive amor Ă© a desilusĂŁo do que se pensava que era amor.
E nĂŁo Ă© prĂȘmio, por isso nĂŁo envaidece.

Clarice Lispector

Nota: Adaptação de trecho da crÎnica Atualidade do ovo e da galinha (II).

A verdade sobre Romeu e Julieta

Sabem porque Romeu e Julieta são ícones do amor? São falados e lembrados, atravessaram os séculos incólumes no tempo, se instalando no mundo de hoje como casal modelo de amor eterno?
Porque morreram e nĂŁo tiveram tempo de passar pelas adversidades que os relacionamentos estĂŁo sujeitos pela vida afora. SenĂŁo provavelmente Romeu estaria hoje com a Manoela e Julieta com o RicardĂŁo.
Romeu nunca traiu a Julieta numa balada com uma loira linda e siliconada motivado pelo impulso do ĂĄlcool.
Julieta nunca ficou 5 horas seguidas esperando Romeu, fumando um cigarro atrĂĄs do outro, ligando incessantemente para o celular dele que estava desligado.
Romeu nĂŁo disse para Julieta que a amava, que ela especial e depois sumiu por semanas. Julieta nĂŁo teve a oportunidade de mostrar para ele o quanto ficava insuportĂĄvel na TPM. Romeu nĂŁo saia sexta feira a noite para jogar futebol com os amigos e sĂł voltava as 6:00h da manhĂŁ bĂȘbado
Julieta não teve filhos, engordou, ficou cheia de estrias e celulite e histérica com muita coisa para fazer.
Romeu não disse para Julieta que precisava de um tempo, que estava confuso, querendo na verdade curtir a vida e que ainda era muito novo para se envolver definitivamente com alguém.
Julieta nĂŁo tinha um ex-namorado em quem ela sempre pensava ficando por horas distante, deixando Romeu com a pulga atrĂĄs da orelha.
Romeu nunca deixou de mandar flores para Julieta no dia dos namorados alegando estar sem dinheiro.
Julieta nunca tomou um porre fenomenal e num momento de descontrole bateu na cara do Romeu no meio de um bar lotado.
Romeu nunca duvidou da virgindade da Julieta. Julieta nunca ficou com o melhor amigo de Romeu.
Romeu nunca foi numa despedida de solteiro com os amigos num prostĂ­bulo.
Julieta nunca teve uma crise de ciĂșme achando que Romeu estava dando mole para uma amiga dela.
Romeu nunca disse para Julieta que na verdade só queria sexo e não um relacionamento sério, ela deve ter confundido as coisas.
Julieta nunca cortou dois dedos de cabelo e depois teve uma crise porque Romeu não percebeu a mudança.
Romeu nĂŁo tinha uma ex- mulher que infernizava a vida da Julieta.
Julieta nunca disse que estava com dor de cabeça e virou para o lado e dormiu.
Romeu nunca chegou para buscar a Julieta com uma camisa xadrez horrĂ­vel de manga curta e um sapato para lĂĄ de ultrapassado, deixando- a sem saber onde enfiar a cara de vergonha...
Por essas e por outras que eles morreram se amando...

Francine Bitencourt de Oliveira
RÓNAI, C. Caiu na rede: os textos falsos da internet que se tornaram clássicos. Agir, 2006.

Nota: O texto Ă© muitas vezes atribuĂ­do, de forma errĂŽnea, a LuĂ­s Fernando VerĂ­ssimo.

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