Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
O amor nunca falha, havendo profecias serĂŁo aniquiladas, havendo ciĂȘncias cessarĂŁo.
Eu acredito no amor. Não como uma salvação.
Mas como um prĂȘmio de quem consegue se achar.
E se conhecer.
Amor (...) é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor verdadeiro, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusÔes.
Nota: Trecho da crĂŽnica Atualidade do ovo e da galinha (II).
...MaisCada noite que Deus dĂĄ
meu amor, que esta no céu
despetala uma estrelinha
para ver se ainda o quero.
A Fome e o Amor
A um monstro
Fome! E, na Ăąnsia voraz que, ĂĄvida, aumenta,
Receando outras mandĂbulas a esbangem,
Os dentes antropĂłfagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!
Amor! E a satirĂasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danaçÔes sexuais que abrangem
A apolĂnica besta famulenta!
Ambos assim, tragando a ambiĂȘncia vasta,
No desembestamento que os arrasta,
SuperexcitadĂssimos, os dois
Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!
SABES RECEBER O AMOR?
Do ponto de vista de quem recebe, o amor ganha contornos bem diferentes daqueles existentes do ponto de vista de quem dĂĄ. E Ă© tĂŁo raro o empate entre dar e receber! HĂĄ pessoas absolutamente incapazes de receber o amor. Outras hĂĄ que filtram o amor recebido segundo a sua maneira de ser, reduzindo (ou ampliando) o afeto ganho atravĂ©s de suas lentes (existenciais) de aumento ou diminuição. Quem pode dizer com segurança que sabe avaliar o amor recebido? Outras hĂĄ, ainda, que sĂł conseguem amar quando recebem amor, nĂŁo admitindo dar sem receber. HĂĄ, tambĂ©m, o tipo de pessoa que nĂŁo darĂĄ (amor) jamais, pois sĂł sabe receber. E existe aquela outra que quer e precisa receber, porĂ©m nĂŁo sabe o que fazer quando (e quanto) recebe e transforma-se, entĂŁo, numa carĂȘncia viva a andar por aĂ, em todos despertando (por insuspeitadas habilidades) o desejo de algo lhe dar.
Receber o amor é como saber gastar (gostar?). Jå reparou que hå pessoas que não sabem gastar? Muitas sabem ganhar muito dinheiro, mas depois não o sabem gastar. Receber o amor é como saber gastar (gastar o amor de quem lhe estå dando). à necessårio fazer com que o investimento recebido renda frutos, juros e dividendos em que o recebe, para novos investimentos e lucros humanos. Hå quem o saiba fazer (ou seja, saiba receber). Hå quem não o saiba e gaste o (amor) recebido de uma só vez, sem qualquer noção do quanto custou para quem o deu.
O problema de receber o amor é fundamental, porque ele determina o prosseguimento ou não da doação.
O nĂșcleo do problema estĂĄ na forma pela qual cada pessoa recebe o amor, modelando-o.
De que valerå um amor maior do que o mundo, se a forma pela qual se o recebe é diminuta? Um amor de pequena estatura doado a alguém pode ser recebido como a dådiva suprema. Serå (soarå), então, enorme!
DaĂ que amor estĂĄ tambĂ©m, alĂ©m de dar, em saber receber. Saber receber, embora pareça passivo, Ă© ativo. Receber, se possĂvel avaliando a intensidade com que Ă© dado e, se for mais possĂvel, ainda, retribuir na exata medida. Saber receber Ă© tĂŁo amar quanto doar um amor.
Se todos soubessem receber, não haveria a graça infinita dos desencontros do amor, geradores dos encontros.
Receber o amor Ă© tĂŁo difĂcil quanto amar! Ă que amar desobriga e receber o amor parece que prende as pessoas, tutela-as e aprisiona-as quando deveria ser exatamente o contrĂĄrio, pois saber receber Ă© tĂŁo grandioso e difĂcil quanto saber dar.
Amor Ă© quando vocĂȘ sabe tintim por tintim as razĂ”es que impedem o seu relacionamento de dar certo, Ă© quando vocĂȘ tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, Ă© quando vocĂȘ nĂŁo tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda nĂŁo impede de fazĂȘ-lo chorar escondido quando ouve uma mĂșsica careta que lembra os seus 14 anos, quando vocĂȘ acreditava em milagres.
Tanto amor querendo fazer alguém feliz. Tanto amor querendo escrever uma história, mas só escrevendo este texto amargurado
SĂł que precisa cuidado pra perceber que olhar sĂł pra dentro Ă© o maior desperdĂcio. O teu amor pode estar do seu ladoâŠ
Ainda Ă© cedo e eu preciso de amor. SĂł um pouquinho de amor... Quero que ele veja o quanto mudei por causa dele, na esperança de que seu riso congelado saia do automĂĄtico e eu ganhe um Ășnico sorriso verdadeiro... Talvez meu amor tenha aprendido a ser menos amor sĂł para nunca deixar de ser amor.
Hå sempre um perigo no amor que tem utilidade. Enquanto o outro exerce uma função na nossa vida, corremos o risco de não experimentar o amor gratuito(...) A utilidade pode parecer amor, mas não é. Amor que se fundamenta na utilidade que o outro tem corre o risco de se transformar em abandono num futuro próximo.
Os botĂ”es fragrantes ĂĄs vezes dĂŁo abrigo a lagartas; o amor devorador, de igual maneira, demora nos espĂritos sublimes.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se vocĂȘ nĂŁo conseguiu, se a vida nĂŁo deu, ou ele partiu â sem o menor pudor, invente um. Pode ser NatĂĄlia Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessĂvel, que vocĂȘ possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do PacĂfico Sul, GrĂ©cia, CancĂșn ou Miami, ao gosto do freguĂȘs. Que se possa sonhar, isso Ă© que conta, com mĂŁos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convĂ©s Ă lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Nota: Trecho da crÎnica SugestÔes para atravessar agosto, publicada originalmente no jornal "O Estado de S. Paulo", em 6 de agosto de 1999.
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