História
As pessoas costumam admirar a inteligência quando ela já se transformou em história. Enquanto está viva e questionando nossas certezas, ela pode causar desconforto. Não porque a verdade seja necessariamente ofensiva, mas porque poucas coisas são tão desafiadoras quanto perceber que nossos castelos mais sólidos talvez tenham sido construídos sobre areia.
“Não confie cegamente no livro que conta a história; procure enxergar a mente que segurou a caneta, porque toda narrativa revela menos o acontecimento que descreve e mais a consciência de quem a descreveu.”
A era da liquidez transformou relações em rascunhos: ninguém quer construir uma história, todos querem apenas editar capítulos que não deram certo. A humanidade ficou tão preocupada em não sofrer que aprendeu a não sentir; tão ocupada em preservar a liberdade que perdeu a capacidade de criar raízes. A liquidez das relações humanas está liquidando a própria humanidade do humano.
Nunca houve tanta facilidade para encontrar pessoas e tanta dificuldade para encontrar presença. A tecnologia aproximou corpos, mas a superficialidade afastou almas. A liquidez das relações humanas criou uma geração que coleciona contatos, mas abandona conexões; que busca intensidade sem profundidade, prazer sem compromisso e amor sem responsabilidade.
“A autoria não está apenas na frase que se escreve, mas na história que comprova quem a escreveu primeiro.”
Face da existência
Cada rosto esconde uma história,
suas experiências de vida,
sua realidade, que é a sua verdade.
Rostos que sorriem,
mas que já se molharam em lágrimas;
rostos sisudos,
mas que já foram suaves;
rostos focados,
mas que já foram dispersos.
Rostos marcados por causas,
circunstâncias e pelo tempo.
Rostos experimentados.
Rostos humanos!
TELA GRANDE
Toda gente tem sua história,
e toda história merece passar em tela grande.
A luta de cada um é um enredo único,
embora muitas histórias permaneçam ignoradas.
Quem nunca se sentiu invisível por um instante?
Quem nunca desejou que alguém enxergasse
a batalha que travava em silêncio?
Certamente, assim como para respirar
é preciso inspirar e expirar,
para viver também se derramam lágrimas.
Todo mundo sabe o quanto já chorou,
mesmo que nem todos conheçam os motivos.
Todo mundo vive seus momentos
de altos e baixos,
de risos e de choros.
Hoje se ganha,
amanhã se perde.
Mas sempre encanta
quem se levanta e segue.
Aliás, é assim que a vida acontece.
O sentido de tudo,
por mais deslumbrante que seja a tela grande
pela qual se paga para apreciar,
está na mente de quem busca viver
e escrever a própria história no tempo.
Imitar a vida encanta;
viver a própria, porém,
de vez em quando complica.
Nas telas e nas páginas,
é na cabeça que nascem a música e as cores.
É lá que os sonhos ganham voz,
que os medos encontram forma
e que as lembranças permanecem vivas.
Senão,
tudo é cinza,
preto e branco.
A cidade apagada,
a cidade alagada,
a cidade quebrada,
a história acabada,
e a população maltratada.
Quantas memórias...
essa cidade faz parte da minha história!
Eu deixei esse lugar quando eu era ainda muito jovem e demorei muito para voltar. Não porque eu não queria, mas porque a minha cidade natal, na qual passei minha infância e juventude, me traz muitas lembranças de pessoas que já se foram. Então, retornar significa encara todas essas emoções e sentimentos não resolvidos.
Mas, finalmente, estou aprendendo a lidar com isso. Voltar não me traz muita dor, pelo contrário, me traz um certo alívio e conforto. Agora, ao passar por essas ruas, consigo me lembrar com menos aflição de pessoas e momentos que fizeram parte da minha história.
Em breve vou embora novamente, porém, valorizando minhas raízes. Jamais vou esquecer de onde eu vim.
Eu realmente estou cansada dessa mesma história. Já foi machucada o suficiente por você, pelo que aconteceu entre nós. Não vou mentir, ainda te amo e aceitaria você novamente, mas sei que nada por ser igual. Não há como esquecer tudo o que você fez.
Sabe aquela história de que o tempo cura tudo? É mentira. O tempo não cura; ele apenas anestesia a carne para que a gente consiga andar sem mancar tanto.
Foram três anos, quatro meses e dezenove dias. Eu sei a contagem exata porque, no início, cada amanhecer sem o som da sua respiração do meu lado parecia uma pequena cordilheira que eu precisava escalar descalço. O nosso término não teve gritos, pratos quebrados ou traições escandalosas. Foi pior. Foi aquele silêncio resignado de duas pessoas que se amam profundamente, mas que entenderam, no meio do caminho, que as suas rotas futuras não cruzariam o mesmo mapa. Ela precisava partir para buscar os seus sonhos longe; eu precisava continuar aqui, cuidando do meu trabalho simples e das minhas obrigações diárias. Nos abraçamos no portão da antiga estação, o perfume do creme do lindo cabelo crespo dela grudou na minha jaqueta de jeans e, quando ela soltou a minha mão, levou consigo metade do meu oxigênio.
Os primeiros meses foram um borrão de sobrevivência. Eu via o rosto dela no reflexo das poças de água na rua, no letreiro do armazém, no sotaque das canções que tocavam no rádio de pilha. Tentei sair, conversar com outras pessoas, mas qualquer conversa parecia vazia. Eu voltava para a minha casa pequena e o silêncio dos cômodos me socava o estômago. Chorei até a minha garganta queimar, até não sobrar uma lágrima no reservatório da minha alma. Achei, de verdade, que morreria de saudade. Que o meu coração simplesmente pararia de bater por falta de motivo.
Mas a vida é teimosa. Ela continua acontecendo mesmo quando a gente quer que o mundo pare.
Devagar, quase sem perceber, a dor lancinante virou uma pontada crônica. Aprendi a guardar as fotos dela numa caixa de sapatos no fundo da gaveta e, mais tarde, no fundo da mente. Voltei a rir de bobagens na calçada. Voltei a focar na minha rotina, cuidei do jardim na frente de casa, adotei um cachorro vira-lata que me pedia atenção nos dias mais cinzentos. Aprendi a cozinhar para um só, a lavar a louça ouvindo o silêncio, sem achar que isso era uma derrota. Eu superei. Se alguém me perguntar hoje se eu estou bem, a resposta é um sim sincero e calmo. Eu simplesmente juntei os meus cacos e continuei a caminhar, aceitando a minha vida pacata.
Contudo, superar não significa esquecer.
Ontem à noite, uma chuva fina começou a cair e o vento trouxe um cheiro de terra molhada misturado com algo doce. Meu peito deu um nó instantâneo. Não foi uma recaída, foi uma constatação convicta. Eu posso viver mais cinquenta anos, envelhecer nesta mesma casa humilde, conhecer alguém legal e dividir os dias de forma tranquila. Sei que a vida segue e que sou forte o suficiente para ser feliz de novo. Mas ela sempre será o meu grande amor. Aquela cicatriz bonita que a gente olha com carinho, sabendo que foi ali que a vida nos marcou de verdade.
Eu superei o fim, segui em frente e arrumei a minha bagunça com a certeza de quem sabe quem é. Mas uma parte de mim, aquela mais pura e bonita, vai morar para sempre naquele abraço de despedida, congelada no tempo, amando-a em silêncio para todo o sempre.
Seus dias difíceis não anulam a sua história, eles são apenas a prova de que você tem resistido a batalhas que ninguém mais consegue ver; cure-se no seu ritmo, você ainda é maior do que tudo isso.
Guardei nossa história no avesso do meu peito, naquele universo bonito que só a gente entendia. Perder você não foi ver o amor acabar; foi ver o amor virar saudade viva, dessas que caminham comigo pela casa, tomam o café frio e me lembram, a cada segundo, que o coração até continua batendo, mas agora bate sem ritmo, tentando imaginar os passos de alguém que nunca mais vai voltar.
Há séculos, o mundo e a história tentam enclausurar a mulher brasileira em uma caixa de estereótipos. Tentam ditar a cor de sua pele, o formato de seu corpo, a fé que deve seguir e o papel que deve aceitar. Mas a verdade que a sociedade finge não ver é categórica: o Brasil simplesmente não existiria sem vocês.Vocês não são o "sexo frágil", nem o ornamento estético de uma cultura, tampouco o motor invisível que trabalha até a exaustão apenas para evitar o colapso do país. Vocês são a própria fundação estrutural desta nação. A verdadeira estética da mulher brasileira não habita as capas de revista ou os padrões de consumo; ela pulsa na firmeza de quem enfrenta o transporte público lotado, as jornadas triplas e a escassez de oportunidades com a cabeça erguida.Não importa o tom da pele, a textura do cabelo ou a ancestralidade. O mapa do Brasil está traçado nas linhas de suas mãos, que carregam a memória do trabalho e o instinto da sobrevivência. Seja de joelhos diante de um altar, saudando os terreiros, meditando no silêncio ou não acreditando em absolutamente nada: a vossa divindade se manifesta na capacidade quase milagrosa de gerar vida, afeto e dignidade onde o mundo só oferece desamparo.Magras, gordas, altas, baixas, marcadas pelo tempo ou cicatrizadas pelas batalhas diárias. Cada corpo é um território sagrado de resistência, que não deve explicações — e muito menos submissão — a padrão nenhum. O que a hipocrisia pública não admite é que a estrutura deste país é covarde com quem mais o sustenta. Vocês são cobradas a serem perfeitas, dóceis, incansáveis e belas, enquanto carregam nos ombros o peso de um sistema que falha em protegê-las.Por isso, esta não é uma homenagem romântica com flores baratas. É o reconhecimento definitivo de sua soberania. Vocês são a inteligência que move as empresas, a força que educa as próximas gerações, o afeto que cura as feridas sociais e a rebeldia que impede o Brasil de parar.Vocês são completas. Vocês são gigantes. E o mundo inteiro é pequeno demais para a imensidão de ser uma mulher brasileira.
Quem te viu chorar o fim de uma história não imagina o tamanho do capítulo que o destino está escrevendo em segredo.
Perder alguém não apaga o que foi vivido. A história continua sendo sua, o aprendizado é seu e a capacidade de transbordar afeto permanece intacta.
