Ha de ser Forte sem Jamais Perder a Docura

Cerca de 356178 frases e pensamentos: Ha de ser Forte sem Jamais Perder a Docura

A Cor da Pele


A cor da pele nunca foi destino,
apenas o primeiro verso do caminho.
Há quem enxergue fronteiras na superfície,
enquanto a alma desconhece esse artifício.


Minha pele guarda sol, vento e memória,
traz cicatrizes que também contam história.
Não mede caráter, coragem ou fé,
nem diz por onde um coração ficou de pé.


Quem aprende a olhar além da aparência
descobre no outro a própria essência.
Porque o corpo é só o lugar onde a vida mora,
mas o amor é a cor que nunca vai embora.


Lucci Santz

"Há pessoas que atravessam o mundo em busca de um lugar para existir. Eu percebi que o único lugar onde nunca fui abandonada foi dentro das palavras. É por isso que escrevo: porque a poesia acolhe até aquilo que a vida recusou."

Não há atraso para quem caminha. Há apenas caminhos diferentes, cicatrizes diferentes, e sonhos insistindo em nascer.


Perdemos horas tentando caber na pressa de quem nunca nos conheceu. Esquecemos que o relógio da alma não aceita ponteiros emprestados.


O ontem já cumpriu seu destino. O amanhã ainda escreve seus rascunhos. Só o agora conhece nosso nome e nos espera de braços abertos.


Que o medo não roube os dias, que a saudade não aprisione os passos, que a esperança seja a bússola quando tudo parecer distante.


Porque temos todo o tempo do mundo, mas não temos tempo a perder vivendo a vida que esperam de nós, quando a nossa ainda pede coragem.


E quando a noite parecer longa, lembra-te: o tempo nunca esteve contra ti. Ele apenas esperava que tu aprendesses a caminhar no compasso do teu próprio coração.


✍🏻 Lucci Santz

"Há caminhos que só revelam a direção depois que deixamos de correr."

"Há pessoas interessadas no que você oferece e poucas interessadas no que você é."

Há pessoas que voltam iguais, mas nós já não as provamos com a mesma boca. O tempo muda o sabor de quase tudo.

Há corações que não procuram um amor; procuram um lugar onde, enfim, possam deixar de partir.

Há pessoas que passam pela nossa vida como o vento. Outras ficam como raízes. A sabedoria está em não insistir no que foi levado, mas em cuidar daquilo que escolheu permanecer.

Há encontros que não aproximam ninguém de si.


São apenas dois vazios reconhecendo o mesmo endereço.


Quando uma pessoa diz ser o reflexo da outra, talvez não esteja falando de amizade, mas daquilo que ambas deixaram crescer sem perceber. O espelho não cria o rosto; apenas devolve o que encontra diante dele.


E há reflexos que não mostram quem somos. Mostram apenas aquilo que, por tempo demais, permitimos ocupar o nosso lugar.


Lucci Santz

"Há pessoas que vão embora levando apenas as malas. Outras esquecem um inverno inteiro pendurado no cabide da sala."

CONTO: A Última Batalha dos Heróis


Na cidade de Aurória, ninguém sabia quando os heróis haviam surgido.


Sabiam apenas que, sempre que o medo encontrava um endereço, eles apareciam.


Aurion dominava a luz.


Tempest, os ventos.


Titã possuía a força de uma montanha.


Lince atravessava sombras como quem atravessa uma cortina.


Durante décadas, venceram guerras, monstros e catástrofes.


Até que surgiu um inimigo diferente.


Ele não trazia armas.


Nem exércitos.


Chamava-se Esquecimento.


Por onde passava, as pessoas deixavam de acreditar nos heróis.


Não era magia.


Era indiferença.


Os jornais pararam de escrever.


As crianças deixaram de sonhar.


Os adultos passaram a dizer que heróis nunca existiram.


E, quanto menos eram lembrados, mais fracos se tornavam.


Aurion foi o primeiro a cair.


Sua luz tornou-se apenas um reflexo.


Depois Tempest já não conseguia mover uma folha.


Titã mal conseguia levantar a própria espada.


Restava apenas Lince.


Ela caminhou até o centro da cidade e encontrou uma menina desenhando com giz na calçada.


No desenho havia quatro figuras usando capas.


Lince sorriu.


Perguntou:


— Quem são eles?


A menina respondeu sem levantar a cabeça:


— São os heróis.


Minha avó disse que eles protegem quem ainda acredita.


Naquele instante, uma centelha percorreu o céu.


Aurion voltou a brilhar.


Os ventos obedeceram outra vez a Tempest.


Titã ergueu a espada como se nunca tivesse caído.


O Esquecimento percebeu tarde demais que jamais enfrentava músculos ou poderes.


Enfrentava a memória.


E memória nenhuma pode ser apagada enquanto existir alguém disposto a contá-la.


Quando tudo terminou, os heróis desapareceram novamente.


Mas, desde então, sempre que uma criança desenha uma capa, uma máscara ou um símbolo em uma folha de papel...


Aurória sorri.


Porque sabe que, em algum lugar, um herói acaba de nascer.




Lucci Santz

Até quando alguém importa quando já não pode lhe servir?


Há quem ame a presença.
Há quem ame a utilidade.


O verdadeiro afeto aparece quando você já não pode oferecer nada e, ainda assim, alguém escolhe ficar.
Porque quem só permanece enquanto precisa de você não ama sua essência. Ama aquilo que você entrega.

“Há quem confunda impunidade com destino. Faz o mal tantas vezes que esquece: a vida também sabe cobrar aquilo que ninguém teve coragem de cobrar.”

⁠“Há três classes de pessoas no universo:
As Inferiores, que são aquelas que se acham superiores às outras; As medíocres, que têm como meta serem normais; E as elevadas que são as que lutam para não se enquadrarem nas duas classes anteriores.”
Ney P. Batista
Apr/26/2022

“Há duas verdades: a concreta e a abstrata. A diferença é que a primeira admite a relatividade, a outra — não, é absoluta.”
Autor: Ney Paula Batista

Na rica literatura bíblica de sabedoria, o Rei Salomão nos ensina que há um tempo determinado para cada propósito debaixo do céu: “há tempo de nascer e tempo de morrer”(Eclesiastes 3:1-2). No entanto, a mesma tradição nos alerta em Provérbios que nossas escolhas diárias têm o poder de gerar vida ou morte (Provérbios 18:21). A verdadeira sabedoria não está em antecipar o fim, mas em honrar o tempo presente. Gastar a mente com a certeza da finitude é inverter a ordem das estações; é escolher o inverno na primavera da vida. Portanto: “Pensar na morte não é perda de tempo — é perda de vida."
Autor: Ney Paula Batista

Quando o Mundo Perde a Graça


Há dias em que o mundo se cala por dentro.
Não é ausência de som, é ausência de eco.
O céu continua azul, mas é um azul sem memória,
como se nunca tivesse guardado um grito de criança ou um beijo roubado.
O vento passa, mas não traz cheiro de terra molhada;
traz apenas a notícia de que está passando.
E a gente sente, no peito, um silêncio que não explica.


A graça se perde devagarinho, quase com educação.
Primeiro a gente para de correr atrás do caminhão de gás só para ouvir a musiquinha.
Depois deixa de desenhar corações no vapor do vidro do banheiro.
Um dia olha para o mar e pensa em conta de luz.
No outro, vê uma pipa rasgada no céu e calcula o tempo que falta para a reunião das três.
Crescer, descobrimos, é aprender a traduzir encantamento em utilidade.


A gente vai trocando os olhos de vidro por olhos de adulto,
e o vidro, coitado, não reflete mais arco-íris.
A gente aprende que rir alto é exagero,
que chorar é fraqueza disfarçada,
que dançar sozinho na cozinha é loucura que não se assume.
E assim, com jeitinho, vamos nos tornando pessoas sérias,
pessoas que precisam de motivo monumental para se permitir um sorriso sem destino.


Quando foi que desaprendemos de nos espantar com quase nada?
Quando foi que um passarinho pousado no fio virou mero pássaro,
uma criança fazendo bolha de sabão virou estorvo,
um velho segurando a mão da mulher depois de meio século virou apenas “casal de idosos”?
A gente troca a capacidade de ver milagre pela habilidade de ver problema.
E chama isso de maturidade.


Mas há instantes, raros, em que a cortina se abre sozinha.
Um homem entra no vagão tocando violão desafinado,
cantando com a voz rachada de quem já perdeu muito.
Todo mundo finge que não é com ele.
Até que uma senhora de coque branco e rugas profundas
começa a bater palma fora do tempo,
e canta junto, tão baixo que quase é prece.
De repente o vagão inteiro se lembra de que tem coração.
Alguém sorri sem permissão.
Outro deixa cair uma lágrima que não explica.
E por trinta segundos o mundo volta a ter graça,
como quem volta para casa depois de anos sem endereço.


Nessas horas eu entendo:
o mundo nunca perdeu a graça.
Ele apenas se cansou de oferecê-la a quem já não sabe receber.
A graça continua ali, inteirinha,
escondida no jeito que a luz atravessa a folha da árvore,
no som do portão rangendo como se dissesse “bem-vindo de novo”,
no cheiro de bolo que vem da casa de alguém que a gente nem conhece.


Ela espera apenas um olhar que ainda tenha coragem de ser criança,
um coração que aceite se surpreender sem pedir certidão de utilidade.
Porque a graça não mora nas coisas grandiosas.
Mora exatamente onde a gente desaprendeu a olhar.


E talvez a única revolução possível
seja voltar a se espantar com quase nada,
voltar a correr atrás do caminhão de gás,
voltar a desenhar no vapor,
voltar a dançar na cozinha sem plateia.


Talvez o mundo só volte a ter graça
no dia em que a gente parar de ter vergonha
de ter alma.

O Clamor Da Desesperança


Há um clamor no fator desesperança
que não se ouve com os ouvidos,
mas com a pele inteira,
como se a noite inteira se encostasse na gente
e sussurrasse, sem pressa, a mesma frase antiga:
“Não há mais depois.”


É um som que não ecoa,
porque não há parede que o devolva.
É um grito que não rasga o ar,
porque o ar já se cansou de ser rasgado.
É o silêncio que se faz tão denso
que começa a pesar nos ossos
e a gente carrega o próprio vazio
como quem carrega um filho morto nos braços.


A desesperança não grita.
Ela instala-se.
Ela toma o lugar do sangue,
circula devagar,
vai pintando de cinza os sonhos que ainda ousam nascer.
Ela não nega o amanhã;
ela simplesmente o torna irrelevante.
É o único deus que cumpre todas as promessas:
promete nada
e entrega exatamente nada.


E, no entanto,
dentro desse clamor sem voz
há uma pulsação quase imperceptível,
um tremor que não se rende.
É a parte de nós que ainda lembra
que o abismo também olha para trás
e que, às vezes,
o abismo pisca primeiro.


Porque a desesperança é absoluta
só enquanto não for olhada nos olhos.
No instante em que a encaramos,
sem desviar,
sem pedir licença,
ela perde o monopólio da verdade.
Começa a rachar
como parede velha que já não aguenta
o peso de tantas ausências.


Há um clamor no fator desesperança,
sim.
Mas há também,
no meio do peito que se calou,
uma brasa teimosa
que não pede permissão para continuar queimando.
Ela não ilumina o caminho inteiro.
Ilumina apenas o próximo passo.
E isso,
contra todo o escuro que se acha eterno,
já é rebelião suficiente.


Porque o desespero é grande,
mas o ser humano
é especialista em fazer nascer jardins
exatamente onde juraram
que nada mais cresceria.


E é aí,
na fenda mínima entre o “nunca mais” e o “quem sabe”,
que a vida,
essa contrabandista insolente,
sempre volta a passar.

NAS ENTRELINHAS DA ROTA

Nas entrelinhas da rota
​Se há pormenores
Nas entrelinhas da vida,
Há de haver também
Inúmeras circunstâncias
Que recalculam as rotas.

​Num destrinchar de atitudes
Pitorescas, malogradas e bem-sucedidas,
O olhar se divide entre o observado e o observador,
Na constante linha tênue da vida.

​Quando tudo converge
Ao esquecimento e à memória,
Descobrimos que ambos andam de mãos dadas,
E não haverá bifurcação
Que os impeça
De cumprir o destino
Rotativo que os fortaleceu
No caminho...

Ysrael Soler

CHÃO PRETO II




Há um lugar distante
onde a relva perdeu a cor,
a seiva já não percorre as entranhas
e a chuva não umedece o chão.


O arado corta a terra,
finca as pontas como a rasgá-la
e diz:


“Tu és chão e terra preta
onde fornicas com as sementes
de onde nascem abrolhos
e não pureza.”
Teu chão é preto
como um coração amargurado.
Seca, já não recebes
o orvalho das manhãs
que outrora encantavam
teus pomares.


Vieste do seio da terra
e abdicaste da formosura.
Como a praga que emudece
e rouba a clorofila das plantas,
assim estás entre os picados
pelo besouro de prata:
secaste, cegaste,
planta que fenece sem luz.


E desse esvaziamento nasceu
teu intento, abrasivo e tenro,
prostituindo a alma,
despertando forças obscuras,
beijando o sinete do rei
que te fez algoz
da própria sorte.
Jaz adormecido
esplêndido
na tua bolha.


A cantiga que o vento soprava
e te fazia dançar
hoje te quebra
no limiar das pétalas.
Entre tantos adubos,
restou-te apenas
tornar-te mais um.


Ergam as mãos
e atire a primeira pedra
quem saiu ileso.
Evoquem os deuses
e, em assembleia abstrata,
certifiquem a falsa epopeia
dos grandes vassalos
que, com retóricas altivas,
oprimem esta terra
e fazem dela
chão pisado.


Ysrael Soler