Ha de ser Forte sem Jamais Perder a Docura

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Enquanto houver suspeita amorosa, o amor aumenta; quando há razões que fundamentam a suspeita, o amor é expulso.

Há criaturas que chegam aos cinquenta anos sem nunca passar dos quinze, tão símplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepúsculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vêm ao mundo com a ruga da reflexão no espírito, - embora, sem prejuízo do sentimento, que nelas vive e influi, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreado; trota largo, vai a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o cavaleiro.

Machado de Assis
A Mão e a Luva (1874).

Rimas ricas

No céu da sua boca
Há um santo bem...
Que alivia meus males
Que controla meus desejos
Que desperta em mim estrelas!!!

No céu da sua boca
Há um gosto puro e doce
De um pecado perdoado
De uma reza inventada
Que não me deixa parar...

No céu da sua boca
Há milhões de diabinhos
Disfarçados de anjinhos
Que não param um só instante
Me fazendo delirar...

No céu da sua boca
Não existe noite nem dia
Não existem coisas de um céu comum
Mas há um deus de poesia
Que encaixa minhas rimas simples
Nas minhas rimas mais profundas
Num poema de saliva e amor...

No céu da sua boca...
Eu me perco no infinito
E me encontro se medo
Nesse nosso paraíso.

A vontade e a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque elas são as armas do forte, e a vitória é dos fortes.

Machado de Assis
A Mão e a Luva (1874).

Mas não gastes o coração, que há maiores surpresas na vida...

Machado de Assis
A Mão e a Luva (1874).

Tudo há seu tempo, as flores crescem geralmente na primavera, mas as mais raras é que brotam no inverno!

A porta

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!

Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

Vinicius de Moraes
A arca de Noé (1970).

UM RECANTO SEGURO

Há em cada criatura um recanto seguro
para falar ou escutar a Deus.
Uma paisagem desértica,
um jardim florido,
um córrego em festa...
Um amanhecer risonho,
uma tarde chuvosa...
Uma canção ao longe,
um rosto de criança,
um campo bucólico,
alguém em sofrimento...
A magia de um poema,
a glória de um amanhecer,
a policromia de uma pintura...
Uma frase da Bíblia,
uma conversação edificante,
um relato comovedor,
um gesto de sacrifício,
uma oração...
Há, em toda criatura,
um recanto seguro,
que se alcança através de algum
desses convites naturais,
onde se sente, se fala, se ouve a Deus,
e o Seu amor está
mais próximo, é mais envolvente.

Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

A um coração desenganado não há imediatamente compensações possíveis nem eficazes consolações.

Machado de Assis
Ressurreição (1872).

Há apenas duas maneiras de obter sucesso neste mundo: pelas próprias habilidades ou pela incompetência alheia.

Entre a brutalidade para com o animal e a crueldade para com o homem, há uma só
diferença: a vítima.

Definição

O corpo é onde
é carne:

o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.


Publicado no livro Canto e palavra (1965).

Tenha ânimo, e tudo se há de arranjar.

Machado de Assis
A Mão e a Luva (1874).

Um filósofo é, portanto, alguém que reconhece que há muitas coisas que não entende. E isso aflige-o. Deste ponto de vista, é porém mais sábio que todos os que se gabam do seu pretenso saber.

"Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.

Há quem busque o saber para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam a mordaz sátira que diz: 'Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes'.

Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.

Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência".

Há no amor um gérmen de ódio que pode vir a desenvolver-se depois.

Machado de Assis
A Mão e a Luva (1874).

Beleza sem conteúdo é como um livro com uma linda capa, mas em branco, não há nada de interessante para se ler, além disso, qualquer um com um lápis pode escrever nele o que quiser.

Há um grande amor que é a mais perfeita forma de sabedoria: amar em outrem a sua própria beleza.

Há mais mistérios entre pensamento e comportamento do que sonha a nossa púbere psicologia