A DÍVIDA IMPAGÁVEL A dúvida é uma... Carloseduardobalcarse
A DÍVIDA IMPAGÁVEL
A dúvida é uma dívida impagável.
Não porque não existam respostas, mas porque nenhuma resposta suficientemente examinada encerra definitivamente a possibilidade de uma nova pergunta.
Duvidar é contrair uma dívida com a própria consciência.
A partir do instante em que questionamos aquilo que acreditávamos saber, já não podemos retornar honestamente ao conforto anterior. Podemos até continuar acreditando na mesma coisa, mas agora precisamos saber por que continuamos acreditando.
A dúvida divide a certeza.
E aquilo que parecia inteiro revela suas fissuras.
É justamente nessa divisão que nasce a possibilidade do discernimento.
Pensar procura respostas.
Discernir examina inclusive as respostas que o pensamento encontrou.
Essa diferença é fundamental.
Porque uma resposta pode acabar com uma pergunta sem resolver aquilo que produziu a pergunta.
Existem respostas que esclarecem.
Existem respostas que apenas anestesiam dúvidas.
Por isso, a dúvida não deve ser paga com certeza.
Deve ser paga com discernimento.
E talvez jamais seja completamente quitada.
Cada conhecimento adquirido reduz uma ignorância e, ao mesmo tempo, revela outras.
Quanto mais a consciência amplia aquilo que sabe, mais amplia também a fronteira daquilo que percebe não saber.
Eis o paradoxo:
Quanto mais pagamos a dívida da dúvida, mais conscientes ficamos daquilo que ainda devemos.
Talvez sabedoria não seja possuir respostas suficientes para deixar de duvidar.
Talvez seja possuir discernimento suficiente para não transformar respostas provisórias em certezas definitivas.
A ignorância desconhece sua dívida.
A certeza acredita que já a pagou.
A consciência descobre que continuará devendo.
Por isso:
A DÚVIDA É UMA DÍVIDA IMPAGÁVEL.
Não devemos quitá-la.
Devemos honrá-la.
Carlos Eduardo Balcarse
14 de setembro de 2026
