A Coragem do Talvez. Talvez algumas... Mannu Viana Rios
A Coragem do Talvez.
Talvez algumas conversas comecem como uma simples brincadeira e, sem que a gente perceba, acabem tocando em lugares que normalmente tentamos esconder até de nós mesmas.
Foi assim quando falamos sobre a razão e a vontade.
Porque algumas lembranças não ficam apenas na memória. Ficam na pele, na saudade, no peito e, principalmente, na vontade. E talvez seja justamente aí que more o conflito: quando a razão manda seguir em frente, mas alguma coisa dentro da gente continua puxando para o que sente.
Um conflito gostoso de enfrentar… ou perigoso.
Mas talvez, às vezes, o perigo sirva justamente para isso: para nos fazer viver algo que jamais imaginamos que um dia viveríamos.
Você disse que muita gente sente, mas poucos admitem.
Eu perguntei se você admitiria.
Você respondeu que seus desejos e suas vontades, sim.
Mas quando perguntei sobre sentimentos, veio aquela frase que ficou ecoando:
“Aí que mora o perigo.”
E talvez você tenha razão.
Porque admitir uma vontade pode ser simples. Admitir um sentimento é diferente. Sentimento traz consequências, muda certezas, bagunça aquilo que a razão passou tanto tempo tentando organizar.
E foi justamente aí que eu pensei: talvez o perigo não esteja em sentir. Talvez esteja em descobrir que aquilo que tentamos controlar já encontrou um lugar dentro da gente.
Você disse que prefere vivenciar a se fechar.
E eu acredito nisso também.
Porque às vezes só vivendo conseguimos entender aquilo que nenhuma explicação consegue traduzir. Só a experiência consegue responder perguntas que a razão insiste em fazer.
Você me perguntou se eu acreditava que valeria a pena.
E eu respondi que só vivenciando para entender tudo.
Mas, pensando bem, talvez já esteja valendo a pena.
Não necessariamente pelo resultado. Não por saber onde isso vai terminar. Mas pela coragem de não fingir que nada está acontecendo.
Você chamou isso de determinação.
Eu chamei de insistência.
Talvez sejam as duas coisas.
Porque, quando a gente quer alguma coisa e aquilo nos faz bem, por que simplesmente parar no caminho sem ao menos tentar?
Eu sou assim.
Prefiro tentar a passar a vida imaginando como teria sido.
E foi então que você disse algo que ficou comigo:
“Aqueles que conseguiram porque um dia tentaram e os que tentaram um dia conseguiram.”
Talvez seja isso.
Talvez algumas histórias só existam porque alguém teve coragem de dar o primeiro passo.
Talvez algumas vontades tenham aparecido para serem compreendidas, não escondidas.
E talvez alguns sentimentos cheguem justamente para nos ensinar que nem tudo na vida precisa ser explicado antes de ser vivido.
No fim, entre a razão e a vontade, existe sempre uma escolha.
E talvez o mais bonito — e também o mais perigoso — seja descobrir o que acontece quando, por um instante, a gente deixa o coração falar mais alto.
Porque algumas coisas passam.
Outras ficam na pele como tatuagem.
E existem aquelas que, mesmo sem saber o nome, a gente simplesmente sabe que valeu a pena sentir.
Então, vale o risco?
Você sabe que sim.
E sabe também que, desse risco, eu não estou correndo para longe.
Você perguntou sobre as consequências.
E eu pensei:
As consequências?
Que venham.
Porque só saberemos se serão boas ou ruins quando deixarmos, antes de tudo, aquilo que sentimos simplesmente existir.
Sem pressa para nomear.
Sem medo de compreender.
Sem tentar apagar antes mesmo de descobrir o que poderia ser.
Talvez o risco seja justamente esse:
dar espaço para aquilo que a razão tenta controlar,
mas que a vontade insiste em fazer florescer.
E, no fim, talvez não seja sobre saber onde isso vai chegar.
Talvez seja apenas sobre ter coragem de descobrir.
