Autobahn. Não tenho GPS, mas, de tanto... Gabriel Parice Lopes
autobahn.
Não tenho GPS, mas, de tanto memorizar filmes, me parece que estou na Autobahn. A música alta quase não deixa escutar o ronco do carro em que estou pilotando. Acho que estou ficando maluco, porque fechei os olhos, abaixei o volume e continuo dirigindo esse carro que, por algum motivo, deve ser meu. Sem me guiar pela visão, apenas pelo barulho reconhecido do motor, já devo estar batendo uns cento e noventa por hora.
Como eu vim parar aqui?
Nem precisei sair da minha cidade. Talvez tenha saído apenas da minha sanidade.
Quero sentir que o perigo que estou correndo de morrer vai queimar mais nas minhas veias com a junção do que está tocando ao fundo, porque talvez seja onde eu consiga chegar mais perto daquela sensação. Quero me afogar nesse sentido.
O que fizeram comigo?
Você é alguma espécie de droga?
Porque eu não consigo parar.
Talvez seja isso que uma droga faça. Não necessariamente aquilo que entra no corpo, mas aquilo que entra na cabeça e começa a convencer a gente de que, por alguns segundos, viver no limite é melhor do que viver normalmente.
A pista continua.
Ou talvez seja a minha cabeça que continue inventando uma pista.
Não vejo placas. Não vejo outros carros. Não vejo nada além daquele pedaço de estrada que minha imaginação decidiu construir para mim. E, ainda assim, tudo parece tão real que consigo sentir o volante vibrando nas minhas mãos.
Talvez eu esteja tentando fugir.
Engraçado.
Passei tanto tempo querendo ir embora daqui que agora nem sei mais se estou dirigindo para algum lugar ou apenas tentando chegar longe de mim.
A cidade ficou para trás.
As pessoas também.
Os planos, as promessas, os nomes que um dia significaram alguma coisa. Tudo parece pequeno quando visto pelo retrovisor, até desaparecer completamente.
A música muda.
Por alguns segundos, eu não reconheço a próxima faixa.
E isso me assusta mais do que a velocidade.
Porque eu sempre reconheci as músicas.
Sempre soube qual vinha depois. Sempre soube qual música ouvir quando alguma coisa doía, como um médico que receita exatamente o remédio para onde você precisa resolver a dor, qual colocar quando precisava lembrar de alguém, qual deixar tocar quando queria fingir que estava tudo bem.
Mas agora não reconheço.
Talvez eu esteja finalmente chegando em algum lugar que nunca conheci.
Acelero.
Não porque quero morrer.
Isso seria fácil demais de explicar.
Acelero porque quero sentir alguma coisa que não seja essa espécie de vazio educado que me acompanha todos os dias. Quero que o coração bata por alguma razão que não seja ansiedade. Quero que minhas mãos tremam porque estou vivo, não porque estou tentando entender por que ainda me importo com certas coisas.
Quero um motivo físico para sentir aquilo que já não sei explicar por dentro.
E então percebo que talvez eu tenha confundido intensidade com vida.
Talvez tenha passado tanto tempo procurando alguma coisa que me fizesse sentir que comecei a aceitar qualquer coisa que doesse o suficiente.
É por isso que você parece uma droga.
Porque eu sei que não deveria precisar de você.
E mesmo assim, quando você aparece, tudo fica mais alto.
As músicas.
As lembranças.
As vontades.
Até o silêncio.
Você não precisa fazer nada. Basta existir em algum canto da minha cabeça para que eu volte a ser aquele idiota que acredita que talvez dessa vez seja diferente.
Talvez seja por isso que eu estou nessa estrada.
Não estou fugindo da cidade.
Estou fugindo da possibilidade de que a minha vida tenha se acostumado demais com a ausência de certas coisas.
E talvez eu tenha vindo parar aqui porque precisava de um lugar onde ninguém pudesse me perguntar para onde estou indo.
Porque eu não sei.
Não sei onde termina essa estrada.
Não sei quem colocou essa música.
Não sei por que o velocímetro continua subindo.
Não sei por que ainda estou segurando o volante.
Só sei que, pela primeira vez em muito tempo, existe alguma coisa dentro de mim gritando.
E eu acho que estava com saudade de ouvir minha própria voz.
Então diminuo.
Não paro.
Apenas diminuo.
O suficiente para ouvir o motor.
Depois o vento.
Depois minha respiração.
E, por último, aquilo que eu vinha tentando calar desde o começo.
Meu próprio pensamento.
Talvez eu não precise morrer para descobrir que estou vivo.
Talvez eu só precise parar de correr como se a vida estivesse sempre alguns quilômetros à minha frente.
Olho para a estrada.
Dessa vez, com os olhos abertos.
E ela continua.
Longa, escura, absurda.
Como quase tudo que ainda não sei resolver.
Mas, pela primeira vez, eu não tenho tanta pressa de chegar.
Porque talvez o destino nunca tenha sido a parte mais importante,
E sim…
