Dona. Há músicas que a gente escuta. E... Gabriel Parice Lopes
dona.
Há músicas que a gente escuta.
E há aquelas que parecem ter guardado uma parte da nossa vida dentro delas.
Talvez seja por isso que, quando essa música toca, eu não escute apenas uma melodia. Eu escuto uma voz. A sua voz. Como se o tempo, por alguns minutos, esquecesse de continuar e devolvesse aquilo que um dia foi nosso.
Você cantava pra mim.
E talvez você nunca tenha percebido o tamanho disso.
Porque enquanto você cantava, eu não estava apenas ouvindo uma música. Eu estava vivendo uma pequena eternidade. Havia alguma coisa naquele momento que fazia o mundo parecer menos urgente. As coisas podiam esperar. A noite podia durar um pouco mais. E, por alguns instantes, parecia que nós dois éramos suficientes para preencher tudo aquilo que existia.
A música fala sobre sermos donos do amanhã se estivermos juntos.
E eu acho bonito pensar que, naquela época, nós realmente acreditávamos nisso.
Não porque éramos iguais, nunca fomos. Talvez justamente porque não éramos. Havia diferenças demais entre nós, distâncias demais, caminhos que às vezes pareciam apontar para lugares completamente diferentes. Mas existia uma coisa estranha e bonita mesmo sem sermos iguais, conseguíamos dividir o mesmo idioma, os mesmos sonhos.
As mesmas noites.
As mesmas ruas.
Os mesmos silêncios.
E, principalmente, a mesma história.
Hoje eu entendo que algumas pessoas entram na nossa vida como quem chega a uma cidade desconhecida e, sem perceber, começa a colocar placas nas ruas. Depois de um tempo, você já não sabe mais onde termina a cidade e onde começa a pessoa.
Você esteve em muitos lugares da minha.
Talvez seja por isso que lembrar de você nunca tenha sido simplesmente lembrar de alguém.
É lembrar de uma época.
De quem eu era.
De quem você era.
Daquilo que acreditávamos que seríamos.
E de tudo que ainda não sabíamos que perderíamos.
A vida, depois, colocou seus dragões na nossa frente.
Vieram as distâncias, os erros, as palavras que deveriam ter sido ditas e não foram, as verdades que demoraram a chegar, os caminhos que se separaram sem pedir licença. E nós fizemos o que quase todo mundo faz quando precisa sobreviver, seguimos andando.
Mas algumas histórias não desaparecem quando terminam.
Elas apenas mudam de lugar.
Deixam de morar no presente e passam a morar em algum canto silencioso da memória, onde continuam existindo sem exigir nada.
Você ficou ali.
Não como uma promessa.
Não como uma espera.
Mas como parte daquilo que fui.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de amar alguém que já não caminha ao nosso lado, aceitar que a pessoa pode deixar de pertencer a nossa vida sem deixar de pertencer a nossa história.
Porque você foi história.
E algumas histórias não precisam continuar para terem sido verdadeiras.
Às vezes eu penso naquela frase sobre a lua dançar.
E penso que talvez a lua tenha visto tudo.
Tenha visto duas pessoas jovens demais para entender a dimensão do que estavam vivendo, acreditando que algumas noites nunca terminariam. Tenha visto você cantar para mim enquanto eu guardava aquilo sem saber que um dia sentiria falta até da sua voz dizendo coisas que, naquele momento, pareciam tão simples.
Hoje, se eu pudesse voltar aquela noite, eu não pediria para mudar nada.
Nem os erros.
Nem o fim.
Nem aquilo que machucou.
Eu apenas ficaria mais alguns minutos.
Prestaria mais atenção.
Olharia para você enquanto cantava.
Porque existem momentos que só descobrimos que eram eternos depois que se tornam passado.
E você foi um desses momentos.
Talvez eu nunca mais encontre exatamente aquilo que existia entre nós. Não porque tenha sido perfeito, mas porque era nosso. E coisas verdadeiramente nossas não possuem substitutos.
Podemos amar novamente.
Podemos sorrir novamente.
Podemos construir outras histórias.
Mas nunca conseguimos voltar a ser exatamente aquelas duas pessoas que dividiram aquelas noites, aquelas ruas e aqueles sonhos.
E tudo bem.
Talvez crescer seja aprender que algumas pessoas não ficam.
Algumas pessoas nos atravessam.
E você me atravessou.
Deixou marcas que o tempo não apagou, apenas tornou mais silenciosas.
Por isso, quando essa música tocar, talvez uma parte de mim ainda procure a sua voz no meio dela.
E talvez eu sorria.
Porque um dia você esteve aqui.
Porque um dia nós fomos jovens, fomos intensos, fomos imperfeitos e fomos felizes de um jeito que só conseguimos compreender depois.
E se existe alguma coisa que eu gostaria de brindar hoje, não é ao que poderíamos ter sido.
É ao que fomos.
A nossa história.
As noites que ninguém pode nos devolver, mas também ninguém pode nos tirar.
E, principalmente, a menina que um dia cantou essa música para mim e, sem saber, fez com que ela deixasse de ser apenas uma música.
Ela virou memória.
Virou saudade.
Virou um pedaço de céu guardado dentro de uma canção.
E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos caminhos, quando eu ouço aquelas palavras, ainda existe uma pequena parte de mim que olha para a lua e pensa:
que bom que, em algum momento da vida, você esteve aqui.
Nossa história.
Nossa história.
E, onde quer que o tempo tenha levado cada um de nós, essa parte ninguém consegue apagar.
Você fez eu gostar mim,
Dona.
Dona do meu pensamento.
Você.
Nossa história. e se puder, me faça tocar o céu, Lua... venha sorrir de novo pra mim.
