Napoli. Eu ainda não conheço Napoli. E... Gabriel Parice Lopes
napoli.
Eu ainda não conheço Napoli.
E talvez seja justamente por isso que Napoli tenha conseguido existir tanto dentro de mim.
Antes de conhecer uma cidade, a gente inventa uma versão dela. Junta fotos, histórias, músicas, filmes, partidas de futebol, prédios antigos, ruas que nunca atravessou e um mar que só conhece pela tela. Vai montando, aos poucos, um lugar que talvez nem exista exatamente daquele jeito.
Mas existe Napoli.
Pelo menos a Napoli que eu imagino.
Napoli, para mim, começa antes do avião pousar.
Começa naquele instante em que eu imagino sair de algum lugar e simplesmente caminhar sem saber direito para onde estou indo. Napoli sendo o nome das placas, o idioma nas conversas, as roupas penduradas entre os prédios, o barulho das pessoas atravessando uma rua estreita enquanto alguma janela permanece aberta.
Eu imagino Napoli assim.
Imperfeita.
Viva.
Um pouco suja, um pouco caótica, um pouco triste.
Bonita justamente porque não parece estar preocupada em ser.
Napoli não é uma foto que eu quero visitar.
É uma sensação que eu quero descobrir se existe.
Eu penso em Napoli e penso no Vesúvio.
Não pelo vulcão em si, mas pela ideia de uma cidade inteira vivendo diante de alguma coisa que poderia destruí-la e, ainda assim, acordando todos os dias para continuar.
Isso me fascina.
Talvez porque eu goste de lugares que carregam uma ameaça sem precisar falar sobre ela.
Napoli parece ter alguma coisa disso.
Uma cidade que sabe que o chão pode tremer, que o passado pode voltar em forma de cinzas, que o mar pode guardar histórias demais, mas que ainda assim existe café pela manhã, futebol à tarde e gente voltando para casa à noite.
É assim que eu imagino Napoli.
Não como um paraíso.
Como um lugar humano.
Eu imagino o futebol em Napoli quase como uma religião antiga. Imagino o nome de Maradona ainda atravessando paredes, camisas, conversas, crianças que talvez nem tenham nascido quando ele jogava, mas cresceram ouvindo que houve um homem que fez uma cidade acreditar em alguma coisa.
E talvez seja isso que eu procuro quando penso em Napoli.
Não uma cidade perfeita.
Uma cidade que acredita.
Napoli acredita no futebol.
Napoli acredita no mar.
Napoli acredita na própria história.
Napoli acredita até nas próprias contradições.
E talvez eu queira acreditar também.
Às vezes penso em como seria estar em Napoli sem ter nada para fazer.
Sem roteiro.
Sem obrigação.
Sem aquela pressa de transformar cada lugar em foto.
Só estar.
Sentar em algum lugar e observar uma cidade que eu passei tanto tempo imaginando finalmente existir na minha frente.
Talvez eu olhasse para o Vesúvio.
Talvez para o mar.
Talvez para uma rua qualquer.
E provavelmente pensaria:
"Então era isso que eu estava tentando imaginar."
Mas existe uma coisa ainda mais bonita em não conhecer Napoli.
Eu ainda posso sonhar.
Ainda posso colocar em Napoli tudo aquilo que procuro no mundo.
A possibilidade de recomeçar.
A sensação de estar longe o suficiente para ouvir meus próprios pensamentos.
A liberdade de ser desconhecido.
A melancolia de perceber que uma vida pode caber em outro lugar.
Eu não sei se Napoli é assim.
Talvez não seja.
Talvez eu chegue lá e descubra que algumas das coisas que inventei nunca existiram.
Talvez o café seja apenas café.
Talvez as ruas sejam mais barulhentas do que bonitas.
Talvez o Vesúvio não pareça tão imenso.
Talvez Napoli não tenha nada da Napoli que eu criei.
E tudo bem.
Porque existe uma beleza estranha em desejar um lugar antes de conhecê-lo.
Você começa a construir uma casa dentro de uma cidade onde ainda não colocou os pés.
Napoli é essa casa, por enquanto.
Uma casa imaginada.
Um nome repetido.
Napoli.
Napoli.
Napoli.
Como se repetir fosse uma maneira de aproximar.
E talvez um dia eu chegue…
Talvez eu desça do avião, respire aquele ar pela primeira vez e perceba que a cidade real é completamente diferente da cidade que construí na cabeça.
Mas talvez, no meio de alguma rua qualquer, com o Vesúvio aparecendo ao longe e o mar existindo onde eu só conhecia por fotos imaginárias, eu entenda uma coisa
Alguns lugares a gente visita pela primeira vez duas vezes.
A primeira é quando chega.
A segunda é quando percebe que passou anos sonhando com aquele momento.
E quando esse dia chegar, eu não vou querer que Napoli seja exatamente como imaginei.
Vou querer apenas olhar para ela e pensar:
Napoli.
Então era você.
A cidade que eu conheci antes de chegar.
