Sangue. Tem coisa que a gente só... Gabriel Parice Lopes

sangue.

Tem coisa que a gente só acredita depois que dói.

Você pode passar a vida inteira ouvindo que o sangue é vermelho, pode ver em filme, em fotografia, no corte de outra pessoa, pode até saber disso de cor. Mas existe uma diferença brutal entre saber alguma coisa e descobrir alguma coisa dentro da própria pele.

Sabe quando você tem que sangrar pra saber que a cor do seu sangue é vermelho?

Talvez algumas verdades sejam assim.

Elas não chegam quando a gente está preparado. Não batem na porta, não pedem licença, não vêm acompanhadas de uma explicação bonita. Elas rasgam alguma coisa. E é só quando aquilo começa a escorrer que você entende que certas coisas só podem ser aprendidas pelo preço de senti-las.

Foi assim com quase tudo que realmente mudou alguém.

A queda ensina que o chão existe. A ausência ensina o tamanho de uma presença. A perda mostra o peso de algo que, enquanto estava ali, parecia leve. E algumas pessoas precisam ir embora para que você finalmente perceba quantas vezes estava se diminuindo só para que elas continuassem por perto.

A gente passa muito tempo tentando evitar o corte, como se não sangrar fosse a mesma coisa que estar inteiro. Mas às vezes o corte já aconteceu faz tempo. A diferença é que você ainda está tentando fingir que não viu.

Então um dia a pele abre.

E você olha.

Vermelho.

Não é bonito. Não é poético. Não tem música tocando ao fundo. É só a prova de que alguma coisa dentro de você era real o bastante para doer.

E talvez seja isso que assuste tanto na verdade: ela não precisa ser bonita para ser verdadeira.

Tem coisa que a gente só entende depois que perde. Só acredita depois que quebra. Só valoriza depois que sente falta. Só aprende depois que sangra.

E talvez amadurecer seja justamente parar de perguntar por que precisou doer tanto para entender.

Porque algumas respostas nunca estiveram escondidas.

A gente só ainda não tinha sangrado o suficiente para enxergá-las.

Sigo estancando minhas hemorragias.