Esquiva e subterfúgio. Eu me escondo... Gabriel Parice Lopes
esquiva e subterfúgio.
Eu me escondo pra fugir. Talvez essa seja a coisa mais honesta que alguém possa admitir quando já passou tempo demais fingindo que está tudo bem.
Não é covardia. Pelo menos não do jeito que as pessoas entendem. É só que chega uma hora em que ficar sozinho parece menos doloroso do que ser visto de verdade. Então você fecha a porta, apaga a luz, deixa o telefone virado para baixo e começa a desaparecer aos poucos, como quem acredita que se ninguém conseguir encontrar você, ninguém também vai conseguir tocar naquilo que ainda dói.
Eu me escondo porque fugir é mais fácil quando ninguém sabe onde você está.
E por um tempo funciona.
Você se convence de que está em paz. Diz que gosta da própria companhia. Que não precisa de ninguém. Que está focado em outras coisas. Que certas pessoas ficaram para trás e que determinadas histórias já não significam nada. Só que existe uma diferença entre estar sozinho e estar escondido. Quem está sozinho escolheu o silêncio. Quem está escondido está esperando alguma coisa não encontrá-lo.
E eu sempre estive esperando.
Esperando a lembrança passar. Esperando a saudade cansar. Esperando aquela versão de mim que queria tanto alguma coisa simplesmente morrer de fome. Esperando que, depois de algum tempo, eu pudesse sair do esconderijo sem precisar explicar por que desapareci.
Mas algumas coisas não desaparecem quando você corre delas.
Elas aprendem o caminho.
Entram no quarto quando ninguém está olhando. Sentam do seu lado quando a madrugada fica grande demais. Aparecem naquela música que você jurou que nunca mais ouviria, naquela conversa que você evita lembrar, naquele nome que você finge que não procura. E aí você percebe a verdade mais incômoda de todas: talvez eu não estivesse me escondendo do mundo.
Talvez eu estivesse me escondendo de mim.
Porque o mundo eu consigo enganar. Posso vestir qualquer cara, responder qualquer "tá tudo bem" com um sorriso, sair de casa como se nada tivesse acontecido. Posso parecer indiferente, ocupado, distante, até feliz. Mas existe um lugar dentro de mim onde não existe personagem, não existe postura, não existe fuga. E é justamente esse lugar que eu passo a vida tentando evitar.
Eu me escondo pra fugir, mas sempre acabo encontrando o mesmo homem no escuro.
O homem que queria ter ido mais longe. Que queria ter dito mais. Que queria ter amado sem medo. Que queria ter sido visto sem precisar se explicar. Que olhou para tantas possibilidades da própria vida e, em algum momento, começou a acreditar que talvez elas fossem grandes demais para ele.
E talvez seja por isso que fugir nunca resolveu nada.
Porque fugir pode afastar pessoas, lugares, memórias e até destruir pontes. Mas não consegue apagar aquilo que você sabe sobre si mesmo.
Uma hora a porta precisa abrir.
Não porque o mundo ficou mais seguro.
Mas porque continuar escondido começa a custar mais caro do que aquilo de que você estava fugindo.
E quando eu sair, talvez ninguém reconheça quem está vindo.
Ainda bem.
