Há pessoas tão imersas em sua própria... anandayasmin

Há pessoas tão imersas em sua própria bolha, em seu mar de ignorância, que vendem os próprios olhos. Calam-se, negam a realidade e contradizem os fatos da vida.


Por outro lado, há pessoas sábias, que não se vendem, não se privam da realidade para além da própria vida, buscam por mais e não se limitam apenas ao que confirma suas próprias convicções. Mas, no fim, quem é de fato feliz? Aquele que tudo vê e tudo busca compreender, ou aquele que nada vê, mas a tudo julga como se soubesse?


O ego do ignorante é insaciável. Sempre quer mais, sem nunca buscar ser mais. Afunda-se em sua própria escuridão, tendo como única superficialidade a própria vida, esmagando-se sob a pressão do próprio ego e morrendo espiritualmente de hipotermia, congelado pela própria incapacidade de sentir empatia e humildade.


Do outro lado do mundo, há mulheres cheias de potencial, silenciadas de todas as formas possíveis por extremistas que dizem estudar e defender uma verdade absoluta. Um pouco abaixo, mulheres e meninas são mutiladas contra a própria vontade, tendo sua intimidade arrancada sem jamais terem cometido qualquer erro.


Ao seu lado pode existir alguém de rosto fechado, que não quer conversar, e você a julga pela sua própria conveniência, enquanto ela sequer consegue sorrir porque está vivendo um luto. Mas você não sabe disso, não é?


Discernir é necessário. Julgar sem compreender é perigoso. Para que julgar? Você realmente entende aquilo que defende?


Tive o desprazer de estar do outro lado: o lado das pessoas ignorantes. Todas reunidas em um só ambiente. Inexoráveis. Olhares cansados, sombrios, disfarçando a própria intolerância através de um livro que nem sequer leram por inteiro. Sempre os mesmos, escondendo seus atos atrás de desculpas fúteis, suficientes apenas para aqueles que não suportam o esforço de abrir os próprios olhos, pois nasceram cegos pela criação de quem também escolheu se vendar.


Hoje eu lhe pergunto: quem realmente se importa?


É certo que somos protagonistas da nossa própria história, mas será que ela é apenas sobre nós mesmos? Ser protagonista não significa ser hipócrita.


Seu protagonismo só começa quando você olha para quem está ao seu lado e, também, para quem está do outro lado do mundo.


Seu protagonismo começa quando você é a voz de quem não tem voz. Começa quando encontra seu fulgor ao olhar pelos outros, compreende o que se passa, toma boas decisões e, acima de tudo, não julga, mas ajuda.


Nem sempre é bonito estar de olhos abertos, mas é necessário.


Há pessoas que jamais tiveram a oportunidade de abrir os próprios olhos, enquanto você escolhe mantê-los fechados, trancando o próprio potencial e escolhendo ser apenas mais um.


Há pessoas que sofrem imensamente de formas que talvez você jamais consiga imaginar em sua vida lúgubre, porque só dariam valor caso o problema fosse delas.


Você, homem ou mulher, se estivesse no lugar de uma afegã, sofrendo agressões legalmente toleradas, sem poder estudar, trabalhar, falar livremente, fugir ou sequer ser vista, sendo abusada independentemente da sua idade... o que faria?


Nada.


Porque, quando um problema dessa magnitude é seu, muitas vezes você já não tem voz.


É justamente aí que a empatia entra.


Quando você percebe que, por mais improvável que pareça, um desconhecido — desde um cão abandonado até uma mulher no Afeganistão — pode precisar de você, entende que sua ajuda pode ser a diferença. Você pode ser voz. Pode ser luz. Pode ser alguém de olhos abertos.


Não é bonito.


Mas é necessário.


E torna-se bonito quando você decide ser necessário.