A Lucidez do Desvio Agilson Cerqueira... Agilson Cerqueira

A Lucidez do Desvio


Agilson Cerqueira


Há dias em que tudo o que desejo é o vácuo: um instante absoluto de silêncio, onde o pensamento deixe de ser defesa e volte a ser apenas contemplação. Caminho sem pressa, guiado por desvios que não conduzem a lugar algum, porque nem toda busca precisa encontrar um destino. Alguns existem apenas para manter acesa a lucidez.


Quando a mente acredita ter alcançado a claridade, descobre que toda luz também ofusca. Então abandono a razão e permito que uma estranha estesia me conduza. Nesse estado, o mundo deixa de exigir explicações, e o mistério passa a ser suficiente.


Dormir torna-se um ritual. O sono não é descanso, mas uma fuga do caos, onde a alma dissolve os excessos do dia e devolve ao cérebro a possibilidade de recomeçar. Acordo sem certezas.


Sobreviver nunca foi uma vitória definitiva, é apenas o delicado equilíbrio de quem caminha sobre o fio invisível da própria existência.


Há um deserto que atravesso diariamente. Não é feito apenas de areia ou de sol escaldante, mas é nele que descubro meu único refúgio: digressionar. Nesse território íntimo, a realidade perde a rigidez das formas, e o impossível recupera o direito de existir.


A vida insiste na matéria, no peso do corpo, na dureza do concreto. Ainda assim, persisto em sonhar para além do que os sentidos alcançam. Talvez viver seja exatamente isso: alimentar a matéria enquanto o pensamento insiste em habitar o invisível.


Ser consistente diante da rotina não é sinal de grandeza; é apenas a condição silenciosa de todo ser que continua caminhando. Somos animais do tempo, condenados ao movimento, sustentados pela esperança de que a espera também produza sentido.


E, enquanto o mundo exige respostas, continuo escolhendo o desvio. Porque é no caminhar, e somente nele, que se encontra a liberdade de regressar a si mesmo.


Agilson Cerqueira