Coleção pessoal de cerqueiraengenharia
Saudades do Rio
Agilson Cerqueira
O Rio Cachoeira já foi um pedaço do céu derramado sobre a terra. Suas águas corriam tão claras que o azul das manhãs parecia morar dentro delas. Entre pedras douradas pelo sol, a correnteza cantava baixinho, e os peixes deslizavam como versos vivos sob o espelho líquido do rio.
Nas margens havia música humana. O canto das lavadeiras se misturava ao bater da água nas roupas; os areeiros, com suas pás e seus animais, desenhavam o ritmo do trabalho; os pescadores conversavam com o silêncio das águas; e as crianças, livres de qualquer temor, mergulhavam antes mesmo de aprender o significado da palavra perigo. O rio não era apenas parte da cidade — era a própria infância respirando.
Eu me lembro do mergulho seguro. O corpo entrava na água como quem volta para casa. A correnteza nos envolvia com a ternura de um velho amigo, e, debaixo d’água, o mundo tremulava em transparência e luz. Havia cheiro de terra molhada, de mato fresco, de manhã recém-nascida. Tudo parecia eterno.
Lembro também dos jegues nas margens — Sobrado, Ponteiro e Arvoredo — companheiros silenciosos daquele cenário que hoje só existe inteiro na memória. O Sobrado caminhava com a imponência de quem conhecia o próprio valor; o Ponteiro era ligeiro e atento, sempre à frente; e o Arvoredo, com sua orelha quebrada pendendo para baixo, seguia devagar, como se tivesse aprendido a conversar com o tempo.
E como esquecer meu avô? Sua presença vinha junto com o cheiro do rio, com a vara de bambu nas mãos e o anzol unha-de-gato brilhando à luz da manhã. Quando o peixe fisgava, começava um pequeno balé sobre a água: a linha esticada, a vara vergando, o peixe riscando o espelho do rio numa resistência bonita, quase uma dança entre a liberdade e a captura.
Os pescadores voltavam com fieiras pesadas, com muitos peixes reluzindo ao entardecer. Os tarrafeiros lançavam suas redes como quem lançava esperança, e muitas famílias encontravam no Cachoeira o pão de cada dia. O rio alimentava corpos e também alimentava a dignidade.
Hoje, quando a estiagem chega, o leito parece respirar com dificuldade. Das águas cansadas sobe um cheiro triste, como se o rio tentasse expulsar a dor acumulada em tantos anos de abandono. O brilho desapareceu, os peixes se calaram, e as margens perderam a alegria das vozes que sabiam viver no compasso da correnteza.
É estranho sentir saudade de um rio que ainda atravessa a cidade. O nome continua o mesmo, o curso ainda insiste em seguir adiante, mas algo essencial se perdeu. É como olhar uma fotografia antiga desbotada pelo tempo: reconhecemos o contorno, mas as cores da vida já não estão lá.
Dentro de mim, porém, o Rio Cachoeira permanece cristalino. Ele corre intacto pelas lembranças de tardes intermináveis, de pés descalços na areia, de mergulhos sem medo e de horizontes que pareciam não ter fim. Na memória, suas águas continuam limpas, e talvez essa seja a última nascente que ainda não conseguiram poluir.
Ah, que saudade da vida do rio. Saudade do tempo em que a transparência das águas iluminava os olhos das crianças, amparava as lavadeiras, sustentava os areeiros e dava esperança aos pescadores. Saudade do meu avô à beira d’água, da vara de bambu apontada para o poente, e do silêncio dourado das tardes em que o Cachoeira parecia eterno.
Hoje, quando fecho os olhos, ainda escuto a correnteza chamando meu nome. E por um instante breve — tão breve quanto o brilho de um peixe saltando ao sol — volto a ser menino nas águas claras do rio que nunca deixou de correr dentro de mim.
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A Lucidez do Desvio
Agilson Cerqueira
Há dias em que tudo o que desejo é o vácuo: um instante absoluto de silêncio, onde o pensamento deixe de ser defesa e volte a ser apenas contemplação. Caminho sem pressa, guiado por desvios que não conduzem a lugar algum, porque nem toda busca precisa encontrar um destino. Alguns existem apenas para manter acesa a lucidez.
Quando a mente acredita ter alcançado a claridade, descobre que toda luz também ofusca. Então abandono a razão e permito que uma estranha estesia me conduza. Nesse estado, o mundo deixa de exigir explicações, e o mistério passa a ser suficiente.
Dormir torna-se um ritual. O sono não é descanso, mas uma fuga do caos, onde a alma dissolve os excessos do dia e devolve ao cérebro a possibilidade de recomeçar. Acordo sem certezas.
Sobreviver nunca foi uma vitória definitiva, é apenas o delicado equilíbrio de quem caminha sobre o fio invisível da própria existência.
Há um deserto que atravesso diariamente. Não é feito apenas de areia ou de sol escaldante, mas é nele que descubro meu único refúgio: digressionar. Nesse território íntimo, a realidade perde a rigidez das formas, e o impossível recupera o direito de existir.
A vida insiste na matéria, no peso do corpo, na dureza do concreto. Ainda assim, persisto em sonhar para além do que os sentidos alcançam. Talvez viver seja exatamente isso: alimentar a matéria enquanto o pensamento insiste em habitar o invisível.
Ser consistente diante da rotina não é sinal de grandeza; é apenas a condição silenciosa de todo ser que continua caminhando. Somos animais do tempo, condenados ao movimento, sustentados pela esperança de que a espera também produza sentido.
E, enquanto o mundo exige respostas, continuo escolhendo o desvio. Porque é no caminhar, e somente nele, que se encontra a liberdade de regressar a si mesmo.
Agilson Cerqueira
O Direito ao Vazio
Agilson Cerqueira
A existência reclama o direito ao vazio. Não como ausência, mas como espaço fértil onde a consciência pode repousar e reencontrar a si mesma.
Quando deixamos de refletir apenas o tumulto do mundo, descobrimos que o silêncio também é uma forma de conhecimento.
Por isso, é necessário suspender o excesso, desacelerar o pensamento e, por instantes, desabitar-se das certezas para acolher novas possibilidades.
A lucidez não se alicerça na rigidez das respostas, mas na coragem de alternar entre o entendimento e o mistério.
Há sabedoria em compreender, mas também em aceitar que nem tudo precisa ser explicado. A razão ilumina o caminho; a imaginação revela horizontes que a lógica, sozinha, jamais alcançaria.
Divagar devagar não é perder tempo. É devolver ao espírito a liberdade de criar, contemplar e reinventar o sentido da existência. Em um mundo que mede o valor das pessoas pela velocidade e pela produtividade, o devaneio preserva aquilo que há de mais genuinamente humano: a capacidade de admirar, imaginar e renovar a esperança.
O sono e o sonho não interrompem a vida; eles a restauram. Enquanto o corpo repousa, a mente reorganiza lembranças, cultiva afetos e prepara novos começos. É nesse território invisível que a sobrevivência floresce em plenitude e a existência reencontra sua delicadeza.
Viver, em sua expressão mais profunda, é harmonizar a firmeza necessária para enfrentar os desafios com a leveza indispensável para continuar sonhando.
Sobreviver fortalece o corpo; sonhar amplia a alma. Entre a realidade e o imaginário, entre a razão e a sensibilidade, descobrimos que existir é uma oportunidade permanente de crescimento.
Talvez a maior conquista da consciência não seja compreender tudo, mas conservar a capacidade de maravilhar-se. Enquanto houver espaço para o silêncio, para o sonho e para o pensamento livre, haverá também motivos para renovar o olhar, reinventar os caminhos e celebrar o simples privilégio de existir.
TEORIA DOS SIGNIFICADOS (Versando e Proseando)
VERSANDO
Com ótica,
Sem semiótica,
Visões sem linguagens mentais:
Analfabetos funcionais.
PROSEANDO
A visão inaugura o contato com o mundo, mas não o seu significado. Os olhos captam formas, cores e movimentos; entretanto, é a mente que lhes confere sentido. Entre o que se vê e o que se compreende existe um intervalo invisível, preenchido pelos signos, pela linguagem e pela experiência. Sem esse percurso, a realidade permanece apenas como fenômeno, jamais como conhecimento.
A ótica revela a existência das coisas; a semiótica revela aquilo que elas representam. Uma descreve a incidência da luz; a outra investiga a incidência do sentido. Quando a primeira existe sem a segunda, o mundo transforma-se em um inventário de imagens destituídas de significado. Vê-se tudo, compreende-se pouco.
Não é a ausência da visão que empobrece o pensamento, mas a incapacidade de atribuir significados ao que se apresenta diante de nós. A ignorância mais profunda não reside na falta de informações, mas na impossibilidade de interpretá-la. O analfabetismo funcional nasce precisamente nesse espaço: onde há percepção sem compreensão, leitura sem interpretação, informação sem consciência.
Toda civilização se alicerça menos sobre aquilo que enxerga do que sobre aquilo que é capaz de significar. O ser humano não habita apenas o universo das coisas, mas, sobretudo, o universo dos sentidos que cria para elas. Quando os significados desaparecem, a realidade permanece visível, porém intelectualmente inacessível.
Ver é um ato biológico. Compreender é um ato filosófico. Entre ambos se ergue a linguagem, não apenas como instrumento de comunicação, mas como a própria arquitetura do pensamento. É nela que o mundo deixa de ser apenas visto para tornar-se verdadeiramente conhecido.
Átomos Ambulantes
Agilson Cerqueira
Sou átomos ambulantes.
Nasci da combinação de partículas,
que se uniram em moléculas,
formaram tecidos,
ergueram órgãos
e deram abrigo à consciência.
Sou feito de matéria
forjada em mundos distantes,
de átomos com origem planetária e estelar.
Sou subproduto de antigas explosões,
herdeiro do fogo de uma supernova.
Já existi há bilhões de anos,
como energia vagando entre estrelas,
antes de me tornar matéria,
antes de me tornar eu.
Fui moldado por processos de fusão,
por encontros e separações,
por atrações inevitáveis
e expulsões orbitais.
Carrego em mim a memória das estrelas:
daquelas que se fundiram,
das que nasceram,
das que morreram lentamente
ao esgotarem seu combustível.
Hoje caminho sobre a Terra,
mas minha origem permanece no infinito,
Sou poeira estelar organizada,
um breve arranjo de átomos
que contempla o próprio universo
do qual nasceu.
Agilson Cerqueira
Mente inquieta
Agilson Cerqueira
O prumo quebrado,
A régua que não mede o abismo.
Se a lógica farta é prisão,
O delírio é o único batismo.
Não se divide a alma em fatias,
Nem se doma o que é correnteza.
Quem busca a norma, vicia;
Quem busca o salto, tem a certeza:
Só o atrito acende a luz.
Alguns enxergam durante o dia,
Outros vislumbram estrelas.
Há os que só vivem de sentimentos,
E há quem viva de razão.
Intensidades do ser em todos momentos.
Entre o lirismo e o ceticismo existencial:
Alegria, riso, choro e decepção.
Mente inquieta - tensão essencial!
Agilson Cerqueira
Iluminâncias
Agilson Cerqueira
Luz que estrutura o traço,
geometria viva do pensar.
A lógica não habita o isolamento,
mas a ponte: a coexistência de propósitos.
Pensar é tensionar as margens,
operar na fricção do múltiplo,
onde o real é apenas um ensaio
e o possível nunca se esgota.
Toda idéia que nasce, inacabada,
convoca o horizonte do que ainda não foi.
Só se esculpe o agora
no avesso do que virá.
Adimensionais
Agilson Cerqueira
A construção do raciocínio não se organiza em linha uniforme;
Ele se espalha em várias dimensões (suposições dimensionais).
Sem métricas mensuráveis (suposições qualitativas).
Em tentativas explicativas,
avança por múltiplas direções, como se cada ideia abrisse um novo espaço
dentro de si mesma a qualquer tempo.
Não se mede o pensamento.
Não basta seguir um percurso — é preciso percorrer dimensões, tocar o que é possível e também o que ainda não se deixa compreender.
Pensar, então, é habitar simultaneamente várias formas de sentido, mesmo quando elas parecem não caber umas nas outras.
Pensamentos sem sentidos (?).
Dimensões indefinidas!
Dimensões conceituais
Agilson Cerqueira
O pensamento não caminha —
irradia
Recusa a linha,
desdobra-se em planos
que não se deixam nomear.
E, ainda assim, exige:
ser inteiro
em cada fragmento
de si.
MANDACARUS DO MEU JARDIM
Agilson Cerqueira
Quando o mandacaru floresce,
Todos nós ficamos cheios de alegria,
Pois há poesia no nordeste.
É uma flor de um dia,
Mas é a certeza da beleza por um dia!
A flor do mandacaru
Desafia a todos por um sorriso,
Ainda que seja timido,
Pois, o mandacaru em flor,
É a flor da alegria, com sua flor de um dia.
Os mandacarus do meu jardim
Vão florescer por mais dias,
Não sei se sorrirei,
Mas os mandacarus do meu jardim
Vão florescer por mais tempo,
Aguardando o meu
Tempo de sorrir!
O Labirinto do Pensar e o Vazio do Ter
Agilson Cerqueira
As decepções, em sua marcha lenta, vão desbotando o nosso romantismo até que reste apenas o esqueleto da realidade.
Vivemos engolidos por uma luta diária que não nos concede o privilégio das horas; passamos uns pelos outros como vultos despercebidos e estranhos em uma multidão.
No fim, você acaba se tornando o produto exato da insignificância daquilo que escolhe significar, enquanto busca, tateando no escuro, respostas que o mundo esqueceu de formular.
Talvez a lucidez seja um fardo pesado demais, e por isso todos deveríamos nos permitir o desvario — embriagar a alma duas, três ou inúmeras vezes, até sermos apenas o "bêbado conhecido" que habita as esquinas do próprio ser.
Afinal, o pensamento é uma criatura que nasce do ócio, e sem o tempo vazio para o florescer das ideias, somos meros subprodutos de uma ignorância consequente.
Às vezes, o peso é tanto que me debruço sobre os absurdos do meu próprio "eu", isolando-me em um exílio onde as perguntas não encontram eco.
Ali, o espelho não mente: você é, apenas e irremediavelmente, você.
Contudo, mesmo nesse mergulho intrínseco, a pluralidade nos persegue; o "nós" nasce desse singular ferido, e a vida insiste em nos lembrar que não se caminha só.
O perigo se apresenta quando o pensamento se torna um espelho narcísico; quando o desejo de "ter" para "poder" sufoca a coragem de simplesmente "ser", revelando a mediocridade de quem vive para a vitrine.
Entenda: se você ousa pensar, você inevitavelmente incomoda a ordem das coisas.
Vivemos tempos aflitos, onde o pensamento parece ter perdido o caminho para o cérebro, deixando-nos à deriva entre o poder e o existir.
Diante das incertezas, escolha a lógica do absurdo que preserva a sua essência, mas nunca deixa de habitar-se.
Agilson Cerqueira
Açaimei-me
Agilson Cerqueira
Não me acontecem epifanias.
Não há clarões, nem súbitas compreensões que reorganizem o mundo.
O que há é a permanência — sólida, repetida — da estupidez.
Ela se infiltra nas falas, nas certezas, nos gestos automáticos.
Diante disso, não argumento, não confronto, não elaboro.
Reduzo-me ao essencial: calo.
Não por sabedoria, mas por economia.
Não por virtude, mas por recusa.
Dúvidas do viver
(Ensaio de Prosa Poética em golpes secos)
Agilson Cerqueira
Não sei.
E não importa.
Penso.
E não sai do lugar.
Produção,
Nome bonito pro vazio.
Sinto.
Não explica.
Razão falha.
Sentimento também.
Sem saída.
Cético —
De quê?
Prático —
Pra quê?
Nada sustenta.
Nem povo,
Nem Intelectual.
Ciente inconsciente.
Nem isso.
Não ser —
Sem drama.
Querer ser —
Erro.
O ser não falta.
Nunca houve.
Inquietude corrói.
Insatisfação gasta.
Nada constrói.
Tudo desgasta.
Resta —
Nem resto.
Nem nada.
O Estado de ser e os problemas do Ser
Agilson Cerqueira
Inebriar-se ou embriagar-se não é fugir — é um método.
Um experimento contra a tirania da inconsciência.
Pois existir, quando plenamente percebido, não é um dado — é um privilégio.
A lucidez não ilumina: ela expõe.
E o que ela expõe não é o mundo, mas a impossibilidade de habitá-lo sem fissuras.
Há, portanto, uma tensão irreconciliável:
entre o esquecimento, que dissolve o ser, e a consciência, que o torna insuportavelmente nítido.
Não se trata de escolher entre dois estados, mas de reconhecer que ambos falham.
O esquecimento falha porque não sustenta.
A lucidez falha porque sustenta demais.
O sujeito, então, não é algo estável —
é um movimento de oscilação.
Um pêndulo sem centro.
Aquilo que se chama “eu” não passa de um intervalo entre percepções, uma tentativa precária de continuidade num fluxo que não admite permanência.
Conhecer-se torna-se impossível,
não por falta de profundidade,
mas por excesso de instabilidade.
O ser não é oculto — é inconsistente.
E talvez por isso o outro se torne intolerável: não por diferença, mas por revelar que também ele sustenta, com igual fragilidade,
a ficção de existir.
Recusar-se a ser o outro
é, no fundo, recusar a evidência
de que não há saída fora dessa condição.
Ser é estar preso numa estrutura sem fundamento, onde o instante é tudo o que há — e, ainda assim, não se sustenta.
O agora não é presença: é ruptura contínua.
Assim, as palavras “loucura e lucidez”
perdem o sentido.
Porque ambas partem do mesmo erro:
acreditar que há um estado correto do ser.
Não há.
O que existe é apenas a consciência
tentando justificar o fato bruto de estar aqui.
Sem motivo.
Sem centro.
Sem garantia.
E talvez o pensamento mais radical
não seja compreender isso
— mas continuar, mesmo assim.
O Que Vê Antes de Ver, Vê!
Agilson Cerqueira
Há momentos em que me detenho à beira de mim mesmo e me pergunto, sem pressa de resposta: o que pesa mais — conhecer ou preservar-se na ignorância do que se poderia saber?
O conhecimento, quando chega, não vem só. Ele arrasta consigo a sombra do que ainda escapa, do que permanece fora do alcance. Saber, por vezes, é abrir uma ferida ou ferir onde antes havia apenas silêncio. É tocar o limite e, ao tocá-lo, perceber o quanto ainda falta.
Então, por defesa ou a falta dela, ignoramo-nos. Não por ausência de capacidade, mas por uma espécie de pacto íntimo consigo mesmo. Um acordo silencioso onde a incompletude não dói — porque não é nomeada.
Mas ignorar, quando não é escolha lúcida, é também uma forma de permanência. Deixar que as coisas sobrevivam em sua forma mais estreita, protegidas de qualquer expansão que as desestabilize. É um abrigo — mas também um confinamento.
E assim seguimos, entre o risco de saber e o alívio de não saber, sustentando essa tensão invisível onde a consciência, às vezes, avança ... e outras, recua para dentro de si.
Epoché
Agilson Cerqueira
Recolher-se não é simplesmente afastar-se do mundo, mas suspender, ainda que provisoriamente, o regime de evidências que o mundo impõe. É um gesto de interrupção. Um desacordo silencioso com a pressa das coisas, com a necessidade constante de responder, agir, significar.
Ao voltar-se para dentro, não se encontra um refúgio estático, mas um campo em permanente elaboração. A consciência, longe de ser um recipiente passivo, revela-se como um espaço onde o pensamento se forma e se desfaz antes mesmo de adquirir linguagem. Escutar esse movimento exige mais do que atenção: exige desaceleração.
O ruído exterior — vozes, tempo, acontecimentos — não desaparece;
ele apenas perde centralidade. O que se desloca é o eixo da experiência. E nesse deslocamento, o silêncio deixa de ser ausência para se tornar condição. Não um vazio, mas uma presença não ocupada.
É nesse ponto que algo decisivo se insinua: a percepção de que a interioridade não é um lugar, mas um processo. Um caminho que não se percorre avançando, mas suspendendo. E que só se revela à medida que o sujeito abdica da urgência de compreender.
Assim, o recolhimento não conduz a respostas, mas a uma outra forma de relação com o desconhecido — mais próxima da escuta do que da interpretação, mais próxima da presença do que da definição.
E talvez seja nesse estado, rarefeito e atento, que a maturidade racional — se assim podemos nomeá-la — encontre não um destino, mas a possibilidade de continuar se desvelando.
CICLO DA RAZÃO (III — Razão)
Agilson Cerqueira
E então surge a razão.
Não como pedra fria,
nem como montanha isolada,
mas como um horizonte
que se abre no pensamento.
Ela ilumina o que foi sentido,
revela o que foi pensado,
e costura o mundo
à consciência.
Na razão,
as coisas encontram forma,
e o pensamento encontra direção.
O ser humano percebe
que compreender
é também uma maneira
de tocar o infinito.
Pois cada ideia
é uma ponte invisível
lançada entre o eu
e o universo.
E assim,
o mundo continua
a nascer todo dia
com sentidos, mente e razão.
Vida!
CICLO DA RAZÃO (II — Intelecto)
Agilson Cerqueira
Então a mente começa
seu trabalho secreto.
Recolhe os vestígios do mundo
trazidos pelos sentidos
como quem junta estrelas caídas.
Entre o sentir e o perguntar
nasce o intelecto.
Ele separa o caos,
ordena a luz,
traça caminhos invisíveis
no território das ideias.
Das sensações ele faz pensamento.
Do instante ele faz memória.
Do encontro ele faz pergunta.
E assim, lentamente,
o universo exterior
ganha morada
dentro da mente.
Mas sem o sopro da experiência,
sem o fogo dos sentidos,
seria apenas
um vazio.
CICLO DA RAZÃO (I — Sentidos)
Agilson Cerqueira
Antes da ideia
existe o mundo.
A luz derrama-se nos olhos
como um rio silencioso,
o vento escreve na pele
sua caligrafia invisível,
e os sons se espalham no ar
como círculos sobre a água.
Tudo começa assim:
Em uma delicada invasão.
O corpo recolhe sinais,
mínimos fragmentos do universo,
sementes dispersas
de um saber ainda sem nome.
Cada cor,
cada textura,
cada rumor distante
é um sussurro da realidade.
E pouco a pouco
a consciência desperta
como um amanhecer
dentro do ser.CICLO DA RAZÃO (I — Sentidos)
Agilson Cerqueira
Antes da ideia
existe o mundo.
A luz derrama-se nos olhos
como um rio silencioso,
o vento escreve na pele
sua caligrafia invisível,
e os sons se espalham no ar
como círculos sobre a água.
Tudo começa assim:
Em uma delicada invasão.
O corpo recolhe sinais,
mínimos fragmentos do universo,
sementes dispersas
de um saber ainda sem nome.
Cada cor,
cada textura,
cada rumor distante
é um sussurro da realidade.
E pouco a pouco
a consciência desperta
como um amanhecer
dentro do ser.
Lógica e ignorância
Agilson Cerqueira
Ao saber o desconhecido,
me contive...
Fiz uma reflexão, e me curvei agradecido!
Lucidez sensata ou sabedoria?
Fiquei em silêncio!
Fiz o controle da respiração!
O tempo e a paciência angustiantes...
Um corpo ocupando o espaço desconhecido!
Enfim, a certeza das limitações!
Ignoro a lógica...
Continuo em silêncio!
