CONFISSÕES DE UM RATO Ah, confesso: sou... andresaut
CONFISSÕES DE UM RATO
Ah, confesso: sou um rato!
Mas o Mickey também é, né?
A diferença é que ele tem fama, castelo, parque de diversões e um advogado cuidando dos direitos autorais.
Eu não.
Não tenho fama,
não tenho fortuna,
não tenho nem uma bermudinha vermelha com botões amarelos.
Mas sou simpático!
Sou um ratinho comum.
Gosto de queijo, de cantinhos tranquilos e de viver sem fazer muito barulho.
Aliás, nunca entendi por que dizem que alguém “entrou como um rato” quando entra escondido.
Eu entro devagar porque sou educado!
Também dizem:
“Fulano é um rato de biblioteca.”
Como se gostar de livros fosse defeito.
Pior seria ser uma traça, que lê tudo comendo as páginas.
Eu, não.
Eu leio, penso e, no máximo, deixo umas migalhinhas entre um capítulo e outro.
Não sou personagem de desenho, não apareço na televisão e ninguém compra uma passagem para tirar fotografia comigo.
Mas faço minha parte.
Se encontro um pedaço de queijo, divido.
Claro que divido em duas partes:
uma para agora
e outra para comer escondido depois.
Porque generosidade também precisa de planejamento.
Aprendi que o mundo dá muito valor a quem aparece, a quem tem dinheiro, a quem chega fazendo barulho.
Mas nem todo mundo nasceu para ser leão.
Alguns nasceram ratinhos.
Pequenos, discretos, engraçados e especialistas em encontrar uma saída quando todo mundo só enxerga parede.
E quer saber?
Não preciso ser o Mickey.
Ele tem o mundo inteiro olhando para ele.
Eu tenho alguns amigos, um pedacinho de queijo e a consciência tranquila.
Isso já é uma fortuna para quem aprendeu que o verdadeiro valor não está no tamanho, na fama ou na conta bancária.
Está na alegria de ser exatamente aquilo que se é.
Ah, sim…
Continuo sendo um rato.
Mas sou um rato feliz.
E felicidade, meu amigo, é um queijo que nem todo mundo consegue encontrar.
