A Coroa de uma Rainha, a Maturidade de... Northon Salomão de Oliveira

A Coroa de uma Rainha, a Maturidade de uma Garotinha


Bebelle tinha a beleza de uma rainha, mas a maturidade de uma garotinha. Havia nela um contraste quase trágico: a aparência de quem nascera para governar salões e conquistar olhares, acompanhada talvez pela dificuldade de compreender que nem todos os sentimentos se curvam diante de uma coroa.


Talvez Northon tenha conhecido Bebelle antes que o tempo começasse a desmanchar sua majestade. Foram amantes, unidos por aquela intimidade que suspende, por algumas horas, as hierarquias do mundo. Entre eles existiu um território sem títulos, sem súditos e sem cerimônias, onde a mulher e o homem precisavam existir para além das personagens que representavam.


Northon talvez tenha conhecido a rainha e, simultaneamente, a menina escondida sob a coroa. A mulher capaz de impressionar pela beleza e pela presença, mas que talvez ainda não tivesse aprendido que a maturidade não consiste em ser admirada, e sim em compreender os outros sem transformá-los em instrumentos da própria necessidade.


Porque há pessoas que amadurecem por fora sem jamais concluir a infância por dentro. Aprendem a conquistar espaços, a ocupar posições e a receber reverências, mas continuam esperando da vida uma proteção que a vida nunca prometeu oferecer. Confundem, por vezes, a atenção com o afeto, a submissão com a lealdade e a permanência dos admiradores com a eternidade do próprio valor.


Se foi assim com Bebelle, somente a história íntima dos dois poderia responder.


O tempo, porém, não reconhece títulos. Envelhece a beleza, dissolve as circunstâncias e desmonta, sem pedir licença, os pequenos impérios construídos sobre o prestígio. A corte se dispersa, os salões se calam e aqueles que antes disputavam a proximidade do trono descobrem subitamente outros interesses. A bajulação, que parecia fidelidade, revela sua verdadeira natureza: nunca pertenceu inteiramente à rainha, mas às vantagens de permanecer perto dela.


Há, nisso, uma ironia cruel. Enquanto reinava, Bebelle talvez acreditasse estar cercada por pessoas que a amavam. Quando o reino desapareceu, restou-lhe a tarefa mais difícil: descobrir quem era quando ninguém mais precisava reverenciá-la.


Northon, que fora seu amante, pertence a uma parte dessa história que o tempo não pode esclarecer por completo. Talvez tenha conhecido suas delicadezas e suas imaturidades, seus encantos e suas contradições. Talvez tenha amado aquilo que existia por trás da majestade ou percebido, ainda durante o romance, que a beleza capaz de conquistar o mundo nem sempre consegue construir uma vida interior à altura das próprias promessas.


Também ele, entretanto, era apenas humano. Ser amante de uma rainha não significava possuir as respostas para os enigmas da mulher. A intimidade aproxima os corpos e, às vezes, as almas, mas não concede a ninguém o privilégio de conhecer inteiramente o outro.


Agora, a coroa pertence ao passado. O tempo fez o que sempre faz: retirou os cenários, desfez as aparências e deixou a existência diante de sua verdade mais elementar. Sem palácio, sem corte, sem a antiga reverência, Bebelle tornou-se apenas uma mulher diante da vida que lhe coube viver.


E talvez a tragédia de sua história não esteja em ter perdido a majestade, mas em descobrir, tarde demais, que nenhuma majestade poderia protegê-la da solidão, do envelhecimento ou da indiferença do mundo.


A beleza pode fazer uma mulher parecer uma rainha; somente a maturidade lhe ensina que ninguém nasceu para ser súdito de seus caprichos.


E Northon?


Talvez tenha guardado a lembrança de uma rainha que, nos momentos de intimidade, deixava a coroa sobre a mesa e revelava a menina que ainda habitava dentro dela. Talvez tenha compreendido que amar alguém não significa ignorar suas limitações, assim como reconhecer suas fragilidades não apaga necessariamente a beleza do que foi vivido.


No fim, os amantes também envelhecem dentro da memória. O desejo perde sua urgência, as lembranças mudam de temperatura e aquilo que um dia pareceu eterno adquire a delicadeza melancólica das coisas que já não podem ser recuperadas.


Bebelle teve a beleza de uma rainha e talvez a maturidade de uma garotinha. Northon foi parte de sua intimidade, mas não poderia ser o guardião de seu reino.


Porque nenhuma paixão consegue deter o tempo, e nenhum amante pode amadurecer no lugar de quem ama.


A coroa caiu. A corte partiu. E a menina, finalmente sozinha diante do espelho da existência, já não precisava parecer uma rainha. Precisava apenas descobrir quem era quando ninguém mais a chamava de majestade.