PAULO FREIRE ENSINOU A LER O MUNDO. MAS... Carloseduardobalcarse

PAULO FREIRE ENSINOU A LER O MUNDO. MAS COMO SABER SE ESTAMOS LENDO O MUNDO CORRETAMENTE?

A alfabetização libertadora, desenvolvida por Paulo Freire e fundamentada em sua Pedagogia do Oprimido, ultrapassa a aprendizagem mecânica da leitura e da escrita. Sua proposta compreende a educação como prática de liberdade, na qual o sujeito desenvolve consciência crítica sobre a realidade, reconhece relações de opressão e participa de sua transformação.

Freire não pretendia formar indivíduos que apenas reproduzissem palavras, mas sujeitos capazes de compreender, questionar e transformar o mundo.

Entretanto, uma questão permanece decisiva: como distinguir uma consciência verdadeiramente crítica de uma consciência que apenas acredita ser crítica?

É precisamente nessa questão que situo uma contribuição específica de minhas pesquisas sobre a Pedagogia do Discernimento e a Alfabetização do Discernimento Consciente (EADC).

Enquanto a pedagogia freireana enfatiza a conscientização, o diálogo e a superação das relações de opressão, minhas pesquisas concentram-se nos critérios pelos quais o indivíduo avalia, valida, revisa ou desautoriza aquilo que pensa, aprende e acredita.

Não se trata de substituir a conscientização pelo discernimento, nem de afirmar que Freire tenha desconsiderado a reflexão crítica. Trata-se de aprofundar uma dimensão específica do problema educacional: a consciência de uma realidade não garante, por si só, a validade das interpretações construídas sobre ela.

Uma pessoa pode reconhecer uma injustiça e interpretar equivocadamente suas causas. Pode denunciar a manipulação e, simultaneamente, reproduzir desinformação. Pode defender a liberdade enquanto permanece subordinada a convicções que nunca submeteu ao próprio questionamento.

“O senso comum comumente mente.”

Na Pedagogia do Discernimento, proponho deslocar parte da atenção educacional da resposta para os critérios que sustentam sua aceitação.

Na Alfabetização do Discernimento Consciente, a questão ganha uma dimensão formativa: desenvolver a capacidade de distinguir fatos, interpretações, evidências, crenças e influências antes de lhes conceder autoridade.

E, no METADISCERN, essa discussão alcança uma operação de segunda ordem: examinar não somente aquilo que pensamos, mas os critérios pelos quais autorizamos nossos pensamentos a orientar conclusões e decisões.

A diferença fundamental está no foco investigativo.

A pedagogia libertadora pergunta como a educação pode contribuir para que o sujeito compreenda e transforme sua realidade. A alfabetização do discernimento acrescenta uma pergunta: quais critérios permitem ao sujeito reconhecer quando sua própria compreensão da realidade precisa ser corrigida?

Essas perspectivas não são necessariamente concorrentes. Podem ser complementares.

A libertação exige consciência crítica das condições que nos cercam. O discernimento exige também vigilância sobre os mecanismos pelos quais interpretamos essas condições.

Afinal, não basta libertar o pensamento das imposições externas se continuarmos submetidos, sem questionamento, às nossas próprias certezas.

Paulo Freire nos ajuda a compreender por que é necessário ler criticamente o mundo. Minha investigação acrescenta uma exigência: aprender a discernir quando a leitura que fazemos do mundo não merece continuar sendo autorizada.

Porque a educação que liberta precisa também ensinar a reconhecer quando a própria consciência pode estar equivocada.

“A mente mente e o discernimento desmente.”

Carlos Eduardo Garcia Moreno Balcarse

Carlos Eduardo Balcarse

Psicanalista, Escritor e Pesquisador

19 de outubro de 2026