POR QUE LEMBRAR DE ALGUMA COISA NÃO... Carloseduardobalcarse
POR QUE LEMBRAR DE ALGUMA COISA NÃO SIGNIFICA QUE DEVEMOS ACREDITAR NELA?
A memória possui uma característica extraordinária. Ela consegue fazer o passado parecer presente.
Uma lembrança surge acompanhada de imagens, sensações, palavras e emoções. Quanto mais nítida ela parece, maior pode ser nossa sensação de que estamos recuperando exatamente aquilo que aconteceu.
Mas lembrar não é reproduzir uma gravação.
A memória humana reconstrói.
Isso significa que aquilo que recuperamos pode carregar elementos do acontecimento, interpretações posteriores, conhecimentos adquiridos depois e estados emocionais presentes.
Nada disso torna a memória inútil. Torna necessário discerni-la.
Existe uma diferença importante entre “Eu me lembro disso” e “Isso aconteceu exatamente como estou lembrando.”
A primeira afirmação descreve uma experiência presente. A segunda faz uma afirmação sobre o passado.
Entre ambas existe uma distância epistemológica enorme.
O problema surge quando a vivacidade da lembrança passa a funcionar como prova de sua precisão.
Sentimos a memória com tanta intensidade que lhe concedemos autoridade proporcional à intensidade da experiência.
Mas intensidade e precisão não são sinônimos.
Por isso, recuperar um conteúdo não deveria significar automaticamente autorizá-lo.
Essa distinção participa daquilo que venho desenvolvendo como desautorização epistêmica reconstrutiva.
O conteúdo recuperado pode ser acolhido sem ser imediatamente convertido em conclusão.
Podemos lembrar e investigar. Sentir e verificar. Reconhecer e revisar.
A memória merece ser ouvida. Mas ouvir não significa obedecer.
Nem tudo aquilo que retorna à consciência deve retornar com a mesma autoridade.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
