O PROBLEMA NÃO É SER INFLUENCIADO. É... Carloseduardobalcarse
O PROBLEMA NÃO É SER INFLUENCIADO. É NÃO PERCEBER O PESO DA INFLUÊNCIA
Passamos boa parte da vida tentando descobrir quem nos influencia.
Talvez estejamos fazendo a pergunta incompleta.
A questão mais importante não é apenas quem nos influencia, mas quanto peso concedemos a cada influência quando pensamos, julgamos e decidimos.
Somos atravessados por experiências, afetos, informações, memórias, expectativas, pessoas, instituições e circunstâncias.
Isso não é uma falha da autonomia.
É uma condição da existência.
O problema começa quando confundimos influência com autoridade.
Algo pode nos influenciar sem merecer decidir por nós.
Uma informação pode ser verdadeira e receber peso excessivo.
Uma experiência pode ter sido intensa e tornar-se um critério inadequado para situações futuras.
Uma pessoa pode possuir autoridade em determinado campo e receber, indevidamente, autoridade sobre outros.
Uma emoção pode ser legítima sem precisar comandar a resposta.
Nem tudo o que pesa deveria pesar tanto.
É nesse ponto que situo a calibração discernitiva.
Calibrar é examinar o peso.
Não para viver sem influências, mas para impedir que elas adquiram autoridade automática.
Talvez uma das formas mais silenciosas de perda da autonomia aconteça justamente quando deixamos de perceber que estamos atribuindo pesos diferentes às coisas.
Confiamos mais porque é familiar.
Rejeitamos porque incomoda.
Acreditamos porque alguém importante afirmou.
Repetimos porque sempre repetimos.
Defendemos porque já defendemos antes.
E depois chamamos o resultado de decisão.
Toda decisão possui uma história de pesos que nem sempre conseguimos enxergar.
Discernir exige tornar essa história examinável.
Perguntar não apenas:
“Isso me influencia?”
Mas:
“Por que isso pesa tanto?”
“Deveria pesar tanto?”
“Que evidência justifica esse peso?”
“Esse peso ainda é proporcional?”
“Posso revisá-lo?”
Essas perguntas mudam o problema.
A autonomia deixa de ser imaginada como independência absoluta e passa a ser compreendida como capacidade de revisão.
A autonomia não é não ser influenciado. É aprender a decidir quanto peso cada influência merece.
Por isso, calibração discernitiva não significa neutralidade.
Também não significa eliminar emoções, experiências, convicções ou referências.
Significa retirar delas um privilégio perigoso:
o direito de possuir autoridade sem precisar justificá-la.
Talvez não sejamos menos livres porque somos influenciados.
Talvez sejamos menos livres quando não percebemos quanto poder concedemos àquilo que nos influencia.
Porque existe uma diferença decisiva entre aquilo que participa de nós e aquilo que passa a decidir por nós.
Discernir é perceber essa diferença antes que a influência receba o nome de escolha.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Autor e Pesquisador
