O LIVRO DOS ESPÍRITOS - A LEI DIVINA. A... MARCELO CAETANO MONTEIRO
O LIVRO DOS ESPÍRITOS - A LEI DIVINA.
A MORAL COMO LEI VIVA DA CONSCIÊNCIA SEGUNDO A LEI DIVINA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O conjunto de questões de 629 a 646 apresenta uma das sínteses mais rigorosas da moral sob a ótica espírita, não como construção convencional ou produto histórico contingente, mas como expressão objetiva da lei divina inscrita na consciência humana. A moral não nasce do costume, tampouco da coerção social. Ela se funda na lei de Deus, reconhecida pela inteligência quando esta se dispõe a discernir com retidão. Conforme se lê na resposta 629, a moral é a regra do bem conduzir se, orientada sempre para o bem de todos, o que estabelece desde o início seu caráter universal, impessoal e solidário.
A distinção entre bem e mal não é arbitrária. O bem é tudo aquilo que se conforma à lei divina, e o mal tudo o que dela se afasta, conforme esclarece a questão 630. Não se trata, portanto, de relativismo ético, mas de adequação ou infração a uma ordem superior que antecede o homem. Essa lei não se impõe de fora para dentro. Deus concede ao ser humano a inteligência como instrumento de discernimento, como afirmado na questão 631, tornando-o responsável por suas escolhas à medida que compreende.
A possibilidade do erro moral não invalida a existência da regra. A questão 632 introduz o critério evangélico da reciprocidade, atribuído ao ensino de Jesus, como salvaguarda contra a autoilusão ética. Colocar-se no lugar do outro é exercício de consciência e medida prática da justiça interior. Não se trata de sentimentalismo, mas de método moral objetivo, aplicável tanto às relações sociais quanto ao proceder íntimo do homem consigo mesmo, como se desenvolve na questão 633. A lei natural também regula os excessos individuais, estabelecendo limites às necessidades reais, e o sofrimento surge como consequência pedagógica da transgressão desses limites.
Ao tratar da origem do mal moral, a questão 634 afasta qualquer imputação a Deus. Os Espíritos foram criados simples e ignorantes, e o mal decorre da liberdade de escolha no processo educativo da experiência. O contato com o erro é condição para o discernimento do acerto. A união do Espírito ao corpo constitui, assim, instrumento de aprendizagem, não punição arbitrária.
As desigualdades sociais e as diferentes condições de existência não infirmam a unidade da lei natural, conforme esclarece a questão 635. Elas são expressões do progresso e das necessidades transitórias, cabendo à razão distinguir o essencial do supérfluo. O bem e o mal permanecem absolutos em seu princípio, como afirma a questão 636, variando apenas o grau de responsabilidade moral, sempre proporcional ao conhecimento e à intenção.
A análise da responsabilidade individual alcança seu ponto mais sensível nas questões 637 a 641. O instinto, a ignorância e as circunstâncias atenuam, mas não anulam, a responsabilidade. O mal depende fundamentalmente da vontade. Aproveitar-se do mal praticado por outrem equivale a comungar com ele, e desejar o mal já configura falta moral quando há complacência interior. A virtude está na resistência consciente, não na simples ausência de ocasião.
A moral espírita não se limita à abstenção do mal. A questão 642 afirma com clareza que o homem responderá também pelo bem que deixou de fazer. A omissão é forma silenciosa de responsabilidade. Não existe posição social que impeça a prática do bem, como ensina a questão 643. Fazer o bem é ser útil dentro das próprias possibilidades, e a vida cotidiana oferece, sem exceção, oportunidades constantes para isso.
Mesmo os ambientes marcados pelo vício não anulam a liberdade moral, conforme se lê nas questões 644 e 645. O Espírito escolhe provas e pode resistir, transformando-se em foco de influência benéfica. O mérito do bem, por fim, não está na grandeza aparente do gesto, mas na dificuldade superada para realizá-lo. A questão 646 retoma o ensinamento de Jesus sobre o óbolo da viúva, estabelecendo que Deus avalia o esforço íntimo, não a aparência exterior da ação.
Esse trecho revela uma moral dinâmica, pedagógica e profundamente racional, em que a consciência é chamada a despertar para a responsabilidade de cada escolha. A lei divina não oprime, educa. Não condena arbitrariamente, esclarece. E nesse labor silencioso da consciência, o homem aprende que viver moralmente é harmonizar a liberdade com o dever, até que o bem deixe de ser esforço e se torne natureza.
