Quando ridicularizamos as entidades... Miguel Chiyo Tomás
Quando ridicularizamos as entidades públicas superiores do país, é legítimo questionar se ponderamos outras realidades políticas. Por exemplo, o que aconteceria se vivêssemos num Estado em que a liberdade de expressão fosse severamente limitada, ou mesmo anulada pelo medo?
Há contextos internacionais onde o exercício de direitos fundamentais é drasticamente restringido. Em países como a Coreia do Norte, a liberdade política é praticamente inexistente, com relatos de campos de prisioneiros, vigilância extrema e punições severas. Já na Síria, sobretudo desde o início da guerra civil, têm sido documentados casos de tortura, detenções arbitrárias e repressão violenta da oposição. Situações semelhantes são apontadas no Irão e no Afeganistão sob domínio talibã, onde a repressão da dissidência e limitações aos direitos civis são amplamente denunciadas.
Esses exemplos não significam que outras realidades estejam isentas de problemas, mas evidenciam que há contextos em que a crítica pública pode implicar consequências graves, incluindo perseguição, prisão ou até a morte.
Retomando a questão central: se Angola fosse governada por um regime assente no medo — com repressão sistemática, perseguições e eliminação de opositores — ousaríamos, com a mesma liberdade, ofender ou ridicularizar figuras públicas ligadas ao poder? É plausível supor que não. Em contextos de forte repressão, a sobrevivência tende a sobrepor-se à crítica.
Daí emerge um ponto essencial: a liberdade de expressão não é absoluta, mas também não pode ser confundida com licença para a degradação do outro. Numa sociedade democrática, tanto o cidadão comum quanto as figuras públicas partilham direitos fundamentais — incluindo o direito à dignidade e à integridade moral.
Isso não implica silenciar a crítica — pelo contrário, ela é essencial. Contudo, impõe-se distinguir entre crítica legítima e ataque gratuito. A primeira fortalece a democracia; o segundo tende a degradá-la.
Assim, convém reconhecer: muitas vezes só exercemos a liberdade de forma despreocupada porque ela nos é garantida. E é precisamente por isso que deve ser usada com responsabilidade.
“A partir do momento em que a minha liberdade se transforma em instrumento para ferir o outro, a própria democracia começa a ceder. Onde termina a minha liberdade, começa a do outro.”
