Você não é culpada por tudo, mas é... Jefferson Freitas

Você não é culpada por tudo, mas é responsável pelo o que faz com a sua dor daqui pra frente.


Uma coisa é gostar da própria companhia e outra é se habituar com a solidão crônica. Tenha cuidado com situações em que você prefere estar sozinha; fazer sozinha; andar sozinha; procure refletir se o "sozinha" é algo genuíno do seu próprio ser, onde você se sente plena e conectada com tudo, ou um modo de bloquear e tentar evitar decepções. Às vezes queremos estar sós, mas nem sempre por gostar ou por apreciar a nós mesmos. O seu cérebro tem o costume de criar mecanismos dos quais vão te proteger, no entanto, nem tudo que reluz é ouro e muito do que somos e passaremos a fazer, se torna um costume inconsciente de evitarmos certas emoções e, consequentemente, uma tentativa de não cairmos mais em frustrações. Talvez você indague: mas evitar esse tipo de coisa não é algo bom? Eu diria: sim e não. Porque dependendo de como as coisas aconteçam, não se trata apenas de evitar tal possibilidade, mas de desfrutar a vida, de viver relações e entender que a frustração também faz parte do processo de crescimento e de desenvolvimento pessoal e profissional. Evitar contextos pelo simples fato do medo de chorar, pode ter um preço mais alto do que lavar o rosto com suas lágrimas.
O que quero dizer com isso? O nosso cérebro sempre vai agir como um escudo, mas toda proteção que venha a surgir de modo habitual e inconsciente, deve ser repensada e bem avaliada se, de fato, devo ou não continuar dessa forma. Situações das quais mencionei e que nos levam ao desejo exagerado e às práticas aparentemente comuns de sempre sermos "sozinhos", deve nos alertar para um possível perigo.
Será que é totalmente normal sempre querer fazer, sentir tudo sozinho e evitar certos momentos compartilhados com alguém, ou com um grupo de amigos, por uma simples ideia de independência? Será mesmo que isso deve ser visto sempre de modo totalmente comum ou deveríamos desconfiar e investigar que alí há uma possibilidade de que meu cérebro esteja desenvolvendo meios dos quais sejam inconscientes e, consequentemente, isso pode agravar um quadro de depressão, de aumento da pressão arterial, de profunda angústia, do aumento do cortisol, do vício, dentre outros problemas que, com o passar do tempo, torna-se algo profundamente difícil de combater, afinal, o cérebro já formou uma armadura da qual pessoas mais próximas serão vistas como inimigas.
Deixa eu tentar concluir o meu pensamento... Talvez você seja aquela pessoa que passou a suportar um cargo pesado de vida desde os 6 anos de idade, ou quem sabe foi na adolescência, ou quando você passou a ser mãe aos 14 anos de idade. Responsabilidade da qual não foi preparada para agarrar e nem tampouco para dar conta. É possível que você tenha sempre ajudado todos a tua volta, de inúmeros modos e em quase todos os momentos. Você se doou tão profundamente que esqueceu-se de si, não conseguiu olhar-se no espelho e ver o quanto fostes guerreira a vida toda e grata por tudo que já tens passado, todavia, as consequências da ausência de enxergarmos a realidade e a necessidade biológica de estarmos juntos, em sociedade, em convivência e união, te faz hoje sofrer calada e cega diante da tua realidade. Você foi tão show com os outros que hoje parece que ninguém te enxerga como pessoa, parece até o indivíduo com o qual sempre vão poder contar, e isso não é nenhuma mentira, mas não conseguem identificar que ali é um ser humano que precisa e merece ter os devidos cuidados. Sua sadia existência não depende unicamente de si, mais também de ser vista, de ser notada e de encontrar-se com o verdadeiro EU e conectar-se a outros.
Há um grande grupo de pessoas que passaram e ainda sentem o que pra você foi imperceptível durante anos e que agora o teu corpo reage às consequências disso tudo, como, por exemplo, a insônia, o cansaço mental, o estresse, a ausência de paciência, a sensação de pânico, o prazer de estar só, mesmo sabendo que isso tem os seus riscos e que muitas das vezes é o estopim para muitas pessoas saírem desse plano do qual conhecemos por vida. Pessoas que passaram a vida toda sendo mais do que muletas para as outras, foram, na verdade, bases e colunas de toda uma estrutura familiar, fraternal e conjugal, porém, nunca foram reparadas, reconhecidas e cuidadas com a mesma intensidade que aqueles à sua volta. E isso traz enormes consequências, ao ponto da mente criar caminhos de defesa e, simultaneamente, tentar falar algo que você não consegue dizer com uma simples palavra. Isso explica tais problemas que foram citados acima.
O ponto chave da questão é que em algum momento da sua vida você foi a melhor mãe, a melhor esposa, a melhor filha, a melhor amiga e a melhor no teu trabalho, ao ponto do mundo te perceber e querer beber de você, querer algo de você e da sua proximidade. Foi quando você começou a ceder, se doou e nunca exigiu nada em troca, porque foi de coração, foi como uma missão, um propósito, um fim. Todavia, isso te afastou, aos poucos, da sua essência e do que realmente importa para sua felicidade, ao ponto de imaginar que ser feliz é fazer os outros sorrir e contribuir com o bem estar alheio, mas quando você precisou de algum auxílio, de um carinho, de um ombro amigo e uma audição da qual pudesse te escutar, te deram as costas e o desprezo. Diante disso, você achou melhor não precisar de ninguém pra nada, onde o teu cérebro criou situações e te convenceu de que é melhor tudo sozinha. Andar sozinha, comemorar sozinha, sorrir sozinha, chorar sozinha, sentir sozinha e viver a vida sozinha, mesmo rodeada por pessoas. Então, quero dizer com isso que o isolamento nunca foi um sinal de sobrevivência, é o inverso, o ser humano sempre evoluiu e não desapareceu porque viveu em comunidade. O que na verdade aconteceu com tais decisões em sua vida não foi a ideia de autossuficiência e independência, mas o medo de se machucar mais uma vez, de ser desamparada novamente e não conseguir encarar essa situação. Essa falsa ideia foi criada pelo seu cérebro, porque ele age dessa forma mesmo, procurando meios de proteção, mas nem sempre esses caminhos vão te proteger, porque não está no seu DNA ter que isolar-se dos outros e achar que tudo deve ser sozinha e que a vida boa é estar sozinha.
Talvez você esteja pensando o porquê de eu ainda não ter falado de Deus ou de algum exemplo cristão. E não vou falar, não é que não tenha sentido, mas porque não chegou o momento específico. Talvez eu esteja falando muita bobagem no seu modo de pensar; talvez eu esteja exagerando em algum momento ou quem sabe querendo te oferecer uma fórmula mágica de como solucionar uma profunda tristeza sem nem precisar ir à terapia. Deixa eu te dizer mais alguma coisa, me permite?
Já parou pra pensar no que é o medo? Como surge e por que às vezes faz moradas? O medo é alimentado por mais medo e por achar que isso é sinônimo de proteção. A depender do caso, ele geralmente não satura, não se quebra e não vai embora com um simples olhar filosófico. Há situações na vida que precisamos enfrentá-la com sabedoria, sem desprezar e sem achar que não se deve sentir medo. O importante dessa questão é pensar o porquê tenho medo e o que devo fazer diante disso? Há várias respostas para essa reflexão, todavia, o fato de você achar que estar sozinha é a solução, te faz caminhar por uma estrada da qual fica ainda mais difícil entender e sair dela. Sua frustração com relacionamentos, não necessariamente conjugais, e a falta de cuidados, te deram a ideia de que estar só é melhor, porque sozinha eu não vou me decepcionar, não vou me machucar, não vou e não preciso criar expectativas e, consequentemente, você deixa de viver e de abrir as portas para um relacionamento sadio e feliz, seja fraternal, profissional ou amoroso. O teu cérebro te fez pensar que evitar é sinônimo de proteção. A vida continua e passa a sair do modo manual para o modo automático, uma automatização negativa, ao ponto de que sentir-só é a forma da qual te fará feliz e preservarás o teu bem estar social. Há pessoas, pra você ter uma ideia, que se enxergam independentes para tudo, moram só, vivem bem financeiramente, postam fotos sorrindo e demonstram estarem de bem com a vida. Quando se dão uma oportunidade amorosa de conhecer alguém, por exemplo, e isso vai se intensificando, chega um certo momento que ela para e decide parar com o amor. Esse tipo de atitude passa a ser padrão em todos os tipos de relacionamentos, não somente o amoroso. E aí eu te pergunto, por que parou? Sabe qual a verdadeira resposta? Está lá no cérebro, está em tudo que estamos conversando desde o início das primeiras palavras. A tua mente passou a entender que esse tipo de situação é perigosa e que você vai sofrer. Consequentemente, você interrompe a relação e fecha as portas para o amor, para a amizade e às vezes para ser mãe. Você ainda não entendeu ou aprendeu que a dor faz parte do processo e que não há mudança de vida e emocional sem a presença do medo e do desconforto. Pessoas assim podem achar que o problema está sempre no outro, porque o teu cérebro criou uma armadura da qual te convenceu, por muito tempo, que o perigo é alheio e relacionar-se deve ser algo apenas raso, onde é perigoso entrar no mar.
Para concluir, deixa eu te dizer só mais um detalhe. Comece com pequenos hábitos e sem exigir muito de você. Comece olhando para suas mensagens e para sua agenda e tente identificar aqueles convites que você recebeu do qual desejou tanto ir e, por medo de se machucar, os recusou. Permita-se dar esse direito e se reconecte às suas relações de modo cauteloso e sem medo de se frustar, sabendo que há dores oriundas da cura e sabedorias através das experiências. Aos poucos a sua mente vai começar a entender que isso não fará mal ao ponto de te matar, até porque você já sobreviveu a situações piores. Chegará um momento que tais hábitos sairão automaticamente e não entenda que isso é ruim, pois estamos falando de uma situação saudável e totalmente normal. Não permita que o luto e que a decepção seja permanente na sua vida. Leve o tempo que precisar para sentir, para sofrer e para superar esses momentos, isso é totalmente legítimo, mas não permita que a solidão seja sua melhor companhia e que o medo de atravessar uma ponte te faça parar de viver e de sentir profundas emoções. Pare, pense e reflita se é o caso de pedir ajuda, seja de um colega, de um parente ou de um profissional, isso não é vergonhoso, é corajoso.